domingo, 25 de dezembro de 2016

Pipoca (historinha infantil)



Pipoca

Eu era pequeninho quando fui levado para longe da minha mamãe. Passei muito tempo dentro de uma casa com rodas. Fiquei tontinho.

Conheci uma menina que me cuidou algum tempo. Carregava-me para todo lado. Era gostosinho o seu carinho, mas um tanto sufocante: eu nem podia dar sozinho os meus pulinhos. Um dia ela me deu um banho de bacia. Eu fiquei molhadinho e magrinho; ela me olhou e disse: “Ai, meu Deus, estraguei o gato”! 

Por dar-me tanta atenção foi que ela desistiu de mim: com medo de um dia me perder, resolveu perder-me logo; e devolveu-me para o meu Cuidador.

Foi bom, porque voltei para minha mamãe. Por pouco tempo. Meu Cuidador - era assim que eu chamava aquele moço que cuidava das minhas necessidades - deixou o sítio onde nasci e mudou comigo para a cidade. E comigo mudaram também umas pulguinhas que peguei lá no sítio, que me davam umas coceirinhas...ah, que coisa ruim... eu usava as patinhas e a minha língua para acabar com aquele tormento, mas pouco adiantava. Coçava a cabeça, coçava minha barriguinha, coçava minhas orelhinhas... ai, que coceiras eu tinha! Para esquecer da coceira o jeito era não parar de brincar.

Naqueles tempos eu era chamado só de Gatinho, acho que era este o meu nome. Minha brincadeira preferida era dar um susto no meu Cuidador. Naquela casa onde eu morava, tinha uma sala com uma mesa onde a gente grande costumava sentar para comer. Eu tinha minha comidinha colocada num cantinho só meu lá perto da cozinha.



Quando meu Cuidador acabava de comer, eu já sabia que ele ia levantar-se e ir para o quarto dele. Eu então me escondia atrás da parede do quarto e... quando ele punha o pé na porta, eu zás! Pulava para cima dele e: ai! Que susto ele levava. Eu saía correndo para ele não me pegar, pois ele ria muito da minha esperteza e ficava querendo agarrar-me para brincarmos juntos. Eu fugia só para provocar um tantinho mais.

Ele me colocava uns remedinhos por causa das pulguinhas, mas não estava adiantando. Como eu era uma bolinha de pelos, eu tinha muitos cantinhos para elas fugirem e ficarem bem escondidinhas, e muitas pulguinhas iam nascendo. Meu Cuidador ficou muito nervoso.
Ele comprou um remédio que não era próprio para um gatinho e deixou em cima da mesa. Como dever de um gatinho, eu também era muito curioso. Fui mexer no vidro do remédio... e caiu! No susto que eu levei, eu caí da mesa também e o remédio caiu bem em cima de mim, molhando-me todinho.

Depois aconteceu uma coisa muito estranha... e sem nenhuma graça: quando eu ia caminhando, eu dava três passinhos e upa! Eu nem queria, mas dava um salto desengonçado para cima, uma cambalhota no ar e caía novamente em pé sobre as minhas patinhas. Mesmo quando eu estava quietinho, deitado no sofá, upa! Lá eu ia novamente, sem vontade, fazer acrobacia. Pulava. Cambalhotava. Caía de novo em pé.

Meu Cuidador ficou muito preocupado, mas ria muito, pois achava engraçado o jeito dos meus pulos desengonçados, e disse que eu parecia uma pipoca. Ele me levou depressa para o doutor que cuida dos bichinhos, o moço veterinário, foi assim que ouvi ele falar do moço.

O moço também achou engraçado os meus pulinhos, mas me deu um remédio para eu parar de pular.

Eu parei, mas ninguém esqueceu dos meus pulinhos, pois então eu ganhei meu nome e deixei de ser o Gatinho para então me chamar Pipoca.

Ah! Ia até me esquecendo: as pulguinhas não me fizeram mais cosquinhas.


-o-



Le chat e l’oiseau                                   O gato e o pássaro
Jacques Prévert

Un village écoute désolé                          Uma cidade escuta desolada
Le chant d'un oiseau blessé                     O canto de um pássaro ferido
C'est le seul oiseau du village                  É o único pássaro da cidade
Et c'est le seul chat du village                  E é o único gato da cidade
Qui l'a à moitié devoré                             Que pela metade o devorou
Et l'oiseau cesse de chanter                    E o pássaro para de cantar
Et le chat cesse de ronronner                  E o gato para de ronronar
Et de se lécher le museau                       E de lamber-se o focinho
Et le village fait à l'oiseau                        E a cidade faz para o pássaro
De merveilleuses funérailles                    Maravilhoso funeral
Et le chat qui est invité                             E o gato que foi convidado
Marche derrière le petit cercueil               Vai atrás do caixãozinho
de paille                                            de palha
Où l'oiseau mort est allongé                     Onde o pássaro morto está
Porté par une petite fille                            Levado por uma menininha
Qui n'arrête pas de pleurer                       Que não para de chorar
Si j'avais su que cela te fasse                   Se eu soubesse que isso te daria
tant de peine                                                           tanta dor
Lui dit le chat                                             Diz-lhe o gato
Je l'aurais mangé tout entier                     Eu o teria comido inteirinho
Et puis je t'aurais raconté                          E depois te teria contado
Que je l'avais vu s'envoler                        Que o teria visto voar
S'envoler jusqu'au bout du monde            Voar até o fim do mundo
Là-bas ou c'est tellement                          Lá onde é tão longe
Que jamais on n'en revient                       Que nunca mais se retorna
Tu aurais eu moins de chagrin                 Terias sentido menos dor
Simplement de la tristesse et                    Simplesmente tristeza e                                  
                                 des regrets                                                  saudade

Il ne faut  jamais faire les choses              Não se deve nunca fazer as coisas
à moitié                                                         pela metade


Um comentário:

  1. Gato é um animal muito divertido mesmo, o meu aqui tem horas que faz a gente rir sozinho...faz cada coisa. Outro dia ele foi dar o passeio dele noturno e quando olhei vi que estava brincando com algo, quando eu olhei de novo, pq isso era já noite, levei um susto ele simplesmente trouxe um ratinho para me mostrar e dizer olha aqui como sou bom em caça...rsrsrsr
    Andréa

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