quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Mega-sena



Mega-sena

– Boa tarde, Dona Menina!
– Boa tarde, Maria, tava daqui da janela olhando você vindo lá de baixo numa carreira desembestada, tá desassossegada, é?
– Num é que é, Dona Menina, tô em ponto de lambê os chifre do tinhoso.
– Virge, Maria! Que trela foi que lhe aprontaram?
– Óia, Dona Menina, a senhora tem vezo de fazê uma fezinha na loteria?
– Tenho não, Maria, já tenho por demais satisfação com a cota que Nosso Senhor dispensou pra mim e pros meus. Nessas matérias de jogo eu aprecio só mesmo o bingo de Santotônio lá da paróquia.
– Mas antão a senhora já deve de tê havido uma alegriazinha de abocanhá um prêmio.
– Até que já. Uma vez eu ganhei uma bela de uma bacurinha, mas, sabe, eu nem fiquei com ela não.
– E pro modo de quê, Dona Menina?
– É que aqui nesta vivenda num teria onde deixar a bichinha, né?
– E pro modo de quê que num fez um belo de um assado?
– Ah, pois, por modo de mais ajudar a paróquia; eu achei de melhor paga doar de volta a bichinha pras obras de Santotônio.
– Aí, antão, fizeram outro bingo?
– Que nada, minha filha, o desapiedado do Padre Joaquim foi mesmo que tostou a bichinha.
– Ahn? A senhora acha mesmo que o padre teve essa coragem?
–E então não fez, Maria? Fez mesmo que fez, até trouxe um pernilzinho pra mim, disse que era para corroborar minha bondade.
– Pois é, Dona Menina, a senhora tá com o burro na sombra, com satisfação da vida, mas cá com a gente que vegeta nessa penúria assim, nóis bem que tem precisão de garrá alguma quimera pra modo de vê se consegue amelhorá, no contrário a gente vai tê que ir labutando toda vida com as dores sempre das mesma.
– Tá certo, Maria, só não acho que se deva fazer abuso de muita aposta.
– É mesmo do contrário que nóis faz, Dona Menina, a gente faz assim na semana um minimozinho de uma apostinha na Sena; sabe, aquela que tem que acertá seis número. Assim nóis pode passar uns dias na fantasia de enricá e aí podê dá do mió pros menino..
– Sonhar é bom, Maria, mas, me ilumina, o que a loteria tem a ver com seu desassossego?
– Pois, antão, tava eu mais o Zé ouvindo o sorteamento e o moço lá do rádio iniciou falando que o primeiro número deu 15. O Zé, que tava com o bilhete, só falô: pimba!
– Direitinho na mosca, assim de primeira?
– Foi mesmo, Dona Menina, e depois ele foi seguindo cum os número  42 e 23; e o Zé continuou pimbando.
– E aí, Maria?
– Senhora Dona Menina, nem te conto! Quando o moço falô lá o número 4, eu cá fiquei numa arrelia, num afobamento nervoso, que nem conseguia segurá os pé.
– Aí então a quadra já tava pega, né, Maria, e os outros dois?
–Aí é que tá o chinfrim, Dona Menina, o Zé nem num deixou eu vê mais nada; ele enfurnô o papel da aposta na algibeira, nem escutô os outro dois número e escafedeu-se; inté agora mesmo eu nem num sei onde o mulambo foi desaparecê.
– E você acha, Maria, que ele acertou os seis números?
– Nem num sei, tô nesse aperreio todo justo em não sabendo um nadinha de nada, num sei nem se ele endoidô por causa do prêmio, meu Jesus que dê pra nóis essa graça, ou se ficou na angústia porquê teve muita gana e errou os outro número.
– Mas, Maria, mesmo se ganhou só a quadra já é uma boa dádiva de Nosso Senhor.
– É, Dona Menina, é, mas eu procuro o disgramado do Zé e num tem rastro de vento dele. Pus inté os menino tudo para correr atrás dele, e nadinha de nada.
– Ai, Maria, que fuzuê!
– Eu já tô mesmo achando que ele abocanhô os milhão e qué ficá só pra ele; já tô inté pensando que ele me qué mandá pras cucuia e pegá uma lambisgoia por aí.
– Ora, Maria, calma, pra que pensar no pior, tem quanto tempo que você tá atrás dele na rua?
– Desde cedo, bem cedo, Dona Menina, já fui em toda cafua que podia maginá, ninguém num viu, ninguém quis vê.
– Por que você não volta pra casa, Maria? Talvez até ele já esteja de volta.
– Ah é, né! É o remédio mesmo pra deixá essa barata tonta aprumá. Pode inté sê, né? Vou dar um pulo lá... Inté mais, Dona Menina.
...

– Ô, Maria, tá ainda correndo atrás do Zé?
– Pois num é, Dona Menina, nem sombra do disgramado! Já num sei o que faço! Acho mesmo que ele já apressô em dá um abandono na bocó da Mariazinha aqui.
– Quê isso, Maria, não apresse a fazer razão que isso pode ser pior. Vem cá, vamos tomar um chazinho e acalmar, que as coisas se arranjam.
– Arranja como, Dona Menina, este desarranjo todo? O que vô eu fazê pra dá conta de tocá com seis rabicho no cangote?
– Mas, Maria, os bois vão na frente do carro, não detrás, num arranja afligimento antes da hora, vamos dar corda pro tempo mais um pouco que o Zé aparece.
– Será mesmo, Dona Menina, em hoje eu já passei da maió alegria e fantasia pro maió amargô, que vou fazê pra cuidar dos meu filinho?
– Ora, Maria, toma o chá que vou lhe dar companhia até sua casa. A noite já tá posta, quem sabe o Zé já tá de retorno?

...

– Bom dia, Dona Menina!
– Bom dia, Maria, que bom é ver você nos conforme novamente.
– Pois é. A Senhora Dona Menina nem magina que noite que eu travessei contando as batida do relógio da matriz
– Mas agora você tá com melhor semblante.
– Pois num é? Finalmente o Zé deu as cara lá em casa.
– E você já tá a par do que se passou com ele?
– Já, Dona Menina, num é que eu tava fazendo mau juízo dele, tadinho...
– Eu bem que lhe avisei pra não pôr o carro na frente dos bois.
– Pois é. O Zé falô que ele ficô com tamanha gastura de acertá os quatro número que inté amalucô.
– E o que foi que ele aprontou?
– Num sabe, Dona Menina, ele falô que nem quis ver se acertô os outro número, saiu que doido e foi detrás de uma garrafão de cachaça que ele tinha no esconderijo lá dele, lá pras banda da Mutuca, na riba do rio.
– Foi levar o garrafão pra tomar banho de rio?
– Ele foi é tomar um banho de pinga mesmo. Encheu a cara pra nem vê os outro número. Dormiu a noite e só foi acordá hoje na manhã. Nem dava conta que tava lá na beira-rio.
– Mas Maria, aparenta mesmo é que você não tá tão inebriada para quem ganhou um prêmio grande desse.
– Bom, Dona Menina, é que até que num foi um premão assim, não.
– Ficou só na quadra mesmo?
– Também não, Dona Menina, acertamo mais um e ganhamo mesmo uma quina.
– Uau, mesmo assim o capado tá bem gordo!
– A gente tá bem no contente e satisfeita, né? Já fiz minhas reza pra agradecê Nossa Senhora da Conceição, minha santinha do peito. Nos fins, vamos podê arrumá um tanto de coisa lá na morada.
– Mas, Maria, o Zé contou pra você por que ele fugiu sem dar um pio, assim?
– Contou. Ele falô que o coração nem num tava mais guentando de tanta sacudidela.
– É deveras muita emoção.
– Aí, que ele pensô: se eu acertá o quinto número, o danado será que guenta?
– Já imaginou...
– Foi então que ele pensô em primeiro enchê a cara, e depois, amaciado pela marvada, podê averiguá os outro dois número tinhoso.
– E foi na ordem, ainda?
– Num é que ele diz que foi, Dona Menina, que acertou o quinto que foi o 8.
– Ainda bem, então, que ele já tava bem amaciado.
– Pois é, Dona Menina, aí ele foi acareá o derradeiro, que era 17, mas ele só tinha de raspada o 16.
– Graças então a Nosso Bom Jesus foi bom assim, Maria, quem sabe o coração num aguentava a sena.
– Nem tanto assim, Dona Menina, nem tanto, uma viúva enricada até que tem seus pendô.
– Eta, Maria!





-o- 



      Anedota Búlgara
                    Carlos Drummond de Andrade

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.





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