Mega-sena
– Boa tarde, Dona Menina!
– Boa tarde, Maria, tava daqui
da janela olhando você vindo lá de baixo numa carreira desembestada, tá
desassossegada, é?
– Num é que é, Dona Menina, tô
em ponto de lambê os chifre do tinhoso.
– Virge, Maria! Que trela foi
que lhe aprontaram?
– Óia, Dona Menina, a senhora
tem vezo de fazê uma fezinha na loteria?
– Tenho não, Maria, já tenho
por demais satisfação com a cota que Nosso Senhor dispensou pra mim e pros meus.
Nessas matérias de jogo eu aprecio só mesmo o bingo de Santotônio lá da
paróquia.
– Mas antão a senhora já deve
de tê havido uma alegriazinha de abocanhá um prêmio.
– Até que já. Uma vez eu
ganhei uma bela de uma bacurinha, mas, sabe, eu nem fiquei com ela não.
– E pro modo de quê, Dona Menina?
– É que aqui nesta vivenda num
teria onde deixar a bichinha, né?
– E pro modo de quê que num
fez um belo de um assado?
– Ah, pois, por modo de mais
ajudar a paróquia; eu achei de melhor paga doar de volta a bichinha pras obras
de Santotônio.
– Aí, antão, fizeram outro
bingo?
– Que nada, minha filha, o
desapiedado do Padre Joaquim foi mesmo que tostou a bichinha.
– Ahn? A senhora acha mesmo
que o padre teve essa coragem?
–E então não fez, Maria? Fez
mesmo que fez, até trouxe um pernilzinho pra mim, disse que era para corroborar
minha bondade.
– Pois é, Dona Menina, a
senhora tá com o burro na sombra, com satisfação da vida, mas cá com a gente que
vegeta nessa penúria assim, nóis bem que tem precisão de garrá alguma quimera
pra modo de vê se consegue amelhorá, no contrário a gente vai tê que ir labutando
toda vida com as dores sempre das mesma.
– Tá certo, Maria, só não acho
que se deva fazer abuso de muita aposta.
– É mesmo do contrário que
nóis faz, Dona Menina, a gente faz assim na semana um minimozinho de uma
apostinha na Sena; sabe, aquela que tem que acertá seis número. Assim nóis pode
passar uns dias na fantasia de enricá e aí podê dá do mió pros menino..
– Sonhar é bom, Maria, mas, me
ilumina, o que a loteria tem a ver com seu desassossego?
– Pois, antão, tava eu mais o
Zé ouvindo o sorteamento e o moço lá do rádio iniciou falando que o primeiro
número deu 15. O Zé, que tava com o bilhete, só falô: pimba!
– Direitinho na mosca, assim
de primeira?
– Foi mesmo, Dona Menina, e
depois ele foi seguindo cum os número 42
e 23; e o Zé continuou pimbando.
– E aí, Maria?
– Senhora Dona Menina, nem te
conto! Quando o moço falô lá o número 4, eu cá fiquei numa arrelia, num afobamento
nervoso, que nem conseguia segurá os pé.
– Aí então a quadra já tava
pega, né, Maria, e os outros dois?
–Aí é que tá o chinfrim, Dona
Menina, o Zé nem num deixou eu vê mais nada; ele enfurnô o papel da aposta na
algibeira, nem escutô os outro dois número e escafedeu-se; inté agora mesmo eu
nem num sei onde o mulambo foi desaparecê.
– E você acha, Maria, que ele
acertou os seis números?
– Nem num sei, tô nesse
aperreio todo justo em não sabendo um nadinha de nada, num sei nem se ele endoidô
por causa do prêmio, meu Jesus que dê pra nóis essa graça, ou se ficou na
angústia porquê teve muita gana e errou os outro número.
– Mas, Maria, mesmo se ganhou só
a quadra já é uma boa dádiva de Nosso Senhor.
– É, Dona Menina, é, mas eu
procuro o disgramado do Zé e num tem rastro de vento dele. Pus inté os menino
tudo para correr atrás dele, e nadinha de nada.
– Ai, Maria, que fuzuê!
– Eu já tô mesmo achando que
ele abocanhô os milhão e qué ficá só pra ele; já tô inté pensando que ele me
qué mandá pras cucuia e pegá uma lambisgoia por aí.
– Ora, Maria, calma, pra que
pensar no pior, tem quanto tempo que você tá atrás dele na rua?
– Desde cedo, bem cedo, Dona
Menina, já fui em toda cafua que podia maginá, ninguém num viu, ninguém quis vê.
– Por que você não volta pra
casa, Maria? Talvez até ele já esteja de volta.
– Ah é, né! É o remédio mesmo
pra deixá essa barata tonta aprumá. Pode inté sê, né? Vou dar um pulo lá...
Inté mais, Dona Menina.
...
– Ô, Maria, tá ainda correndo
atrás do Zé?
– Pois num é, Dona Menina, nem
sombra do disgramado! Já num sei o que faço! Acho mesmo que ele já apressô em
dá um abandono na bocó da Mariazinha aqui.
– Quê isso, Maria, não apresse
a fazer razão que isso pode ser pior. Vem cá, vamos tomar um chazinho e acalmar,
que as coisas se arranjam.
– Arranja como, Dona Menina,
este desarranjo todo? O que vô eu fazê pra dá conta de tocá com seis rabicho no
cangote?
– Mas, Maria, os bois vão na
frente do carro, não detrás, num arranja afligimento antes da hora, vamos dar
corda pro tempo mais um pouco que o Zé aparece.
– Será mesmo, Dona Menina, em
hoje eu já passei da maió alegria e fantasia pro maió amargô, que vou fazê pra
cuidar dos meu filinho?
– Ora, Maria, toma o chá que
vou lhe dar companhia até sua casa. A noite já tá posta, quem sabe o Zé já tá
de retorno?
...
– Bom dia, Dona Menina!
– Bom dia, Maria, que bom é
ver você nos conforme novamente.
– Pois é. A Senhora Dona Menina
nem magina que noite que eu travessei contando as batida do relógio da matriz
– Mas agora você tá com melhor
semblante.
– Pois num é? Finalmente o Zé
deu as cara lá em casa.
– E você já tá a par do que se
passou com ele?
– Já, Dona Menina, num é que
eu tava fazendo mau juízo dele, tadinho...
– Eu bem que lhe avisei pra
não pôr o carro na frente dos bois.
– Pois é. O Zé falô que ele
ficô com tamanha gastura de acertá os quatro número que inté amalucô.
– E o que foi que ele
aprontou?
– Num sabe, Dona Menina, ele
falô que nem quis ver se acertô os outro número, saiu que doido e foi detrás de
uma garrafão de cachaça que ele tinha no esconderijo lá dele, lá pras banda da
Mutuca, na riba do rio.
– Foi levar o garrafão pra
tomar banho de rio?
– Ele foi é tomar um banho de
pinga mesmo. Encheu a cara pra nem vê os outro número. Dormiu a noite e só foi
acordá hoje na manhã. Nem dava conta que tava lá na beira-rio.
– Mas Maria, aparenta mesmo é
que você não tá tão inebriada para quem ganhou um prêmio grande desse.
– Bom, Dona Menina, é que até
que num foi um premão assim, não.
– Ficou só na quadra mesmo?
– Também não, Dona Menina, acertamo
mais um e ganhamo mesmo uma quina.
– Uau, mesmo assim o capado tá
bem gordo!
– A gente tá bem no contente e
satisfeita, né? Já fiz minhas reza pra agradecê Nossa Senhora da Conceição,
minha santinha do peito. Nos fins, vamos podê arrumá um tanto de coisa lá na
morada.
– Mas, Maria, o Zé contou pra
você por que ele fugiu sem dar um pio, assim?
– Contou. Ele falô que o
coração nem num tava mais guentando de tanta sacudidela.
– É deveras muita emoção.
– Aí, que ele pensô: se eu
acertá o quinto número, o danado será que guenta?
– Já imaginou...
– Foi então que ele pensô em
primeiro enchê a cara, e depois, amaciado pela marvada, podê averiguá os outro
dois número tinhoso.
– E foi na ordem, ainda?
– Num é que ele diz que foi,
Dona Menina, que acertou o quinto que foi o 8.
– Ainda bem, então, que ele já
tava bem amaciado.
– Pois é, Dona Menina, aí ele
foi acareá o derradeiro, que era 17, mas ele só tinha de raspada o 16.
– Graças então a Nosso Bom
Jesus foi bom assim, Maria, quem sabe o coração num aguentava a sena.
– Nem tanto assim, Dona
Menina, nem tanto, uma viúva enricada até que tem seus pendô.
– Eta, Maria!
-o-
Anedota
Búlgara
Carlos Drummond de Andrade
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

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