sábado, 26 de setembro de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 8. Bolinhas de barro

 

As travessuras do Jesus Menino




Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia. 


8. Bolinhas de barro


Naquele tempo, era uma tarde tórrida de verão, Jesus e seu grupo estavam a jogar com bolinhas. Como o vidro ainda era um produto de difícil acesso para os filhos de trabalhadores pobres de Nazaré, as bolinhas eram feitas de barro pelos próprios meninos, que se juntavam em algumas ocasiões para bater o barro e moldar as bolinhas no côncavo das mãos; nesses momentos de trabalho sério, havia ocasiões em que se deixavam levar pelas traquinagens, quando o barro se tornava fonte de brincadeiras de sujar uns aos outros, que quase sempre terminavam em uma guerra de barro. Mas quando a seriedade voltava, as bolinhas sobreviventes eram deixadas sob o sol escaldante a secar e endurecer.

Na tarde em questão brincavam com o jogo preferido da turma, onde a pontaria era a habilidade exigida: traçada uma meia-lua no chão de terra, cada menino colocava uma bolinha dentro dela e de uma linha de tiro, traçada a três metros de distância, procurava tirar, com uma outra, uma bolinha do círculo, ganhando-a.

O Levi estava a cada lance mais nervoso, reclamando muito dos colegas mais habilidosos. Quando em nova rodada tinha apenas a sua última bolinha, perdeu de vez o espírito de brincadeira e desistindo de colocá-la na meia-lua, com choro e grito atirou-a com raiva na direção do bando de pintassilgos que saltitavam em um pequeno pinheiro ali próximo. E, desta vez, acertou.

Um passarinho caiu ao chão, o bando voou assustado, e apenas um outro permaneceu onde estava pousado.

O choro do Levi intensificou-se em pranto, pois não tivera a intenção de acertar o bichinho que encantava a todos.

Jesus correu a pegar o pássaro caído, e o Levi, chegando ao seu lado, ouviu-o dizer:

Ele foi atingido na cabecinha, veja aqui a ferida. Ele é a Raiva, o descontrole dos seus atos, e aquele que lá ficou quietinho é a Culpa, presa no galho.

Pegando na mão de Levi, levou-a a acariciar a cabecinha do bichinho.

Se você sente tanto, talvez a Culpa possa voar e o Perdão voltar. Talvez ele esteja apenas desacordado.

O passarinho que ficara no galho veio a pousar no ombro de Jesus, arrancando um sorriso de Levi. O pintassilgo ferido agitou suas asas e se pôs em pé. Um outro pintassilgo apareceu e foi aninhar-se na palma de Levi, que soube reconhecer o Perdão.

E os três voaram em busca do seu bando.

– Vó, que mistureba danada você fez de pintassilgos, palavras e sentimentos.

– São apenas metáforas que fazem mais fáceis o entender das nossas emoções.

– Metáfora, Vó, como é isso?

– São invenções ou às vezes mentirinhas que ajudam a compreensão através de comparações.

– Ah! Assim como dizer que você é uma bruxa!

 

 

 


domingo, 20 de setembro de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 7. A Primeira Ceia

 

 

As travessuras do Jesus Menino

 
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Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

7. A Primeira Ceia

Naquele tempo, por vontade de Jesus, Maria concordou em oferecer à turminha do filho uma ceia de confraternização por ocasião da Pessach. Foi armada uma mesa de tábuas na oficina de José para receber a relembrança daquela famosa ceia futura, que ficou para a posteridade como a Última Ceia, e doze amiguinhos de Jesus compareceram fazendo uma algazarra alegre e divertida.

Como anfitrião, Jesus recebia os amigos e os convidava a tomarem lugar à mesa, posta com treze pratos e taças de barro. Quando todos estavam em seus lugares, Jesus circulou com uma ânfora enchendo as taças com água e pediu que não tocassem nelas enquanto o peixe com azeite e o pão não fossem trazidos por sua mãe. Em seguida, colocou-se à cabeceira da mesa e pegando uma flauta de chifre começou a soprar uma melodia doce. Pode-se ouvir, em certas ocasiões, alguém a dizer que, quando a música é divina, até as taças celebram dançando, mas, nesse caso, conforme atestaram os meninos, isso realmente aconteceu: as taças giraram até que a música parou.

Maria serviu a cada um a sua porção, e, após a oração de graças, foram liberados para a refeição, que todos iniciaram com prazer, exceto o Mateus, que por um bom tempo ainda se entreteve a desenhar a cena que bem lhe parecia digna de registro - diz-se que esse belo papiro está preservado e guardado em cofre secreto no Vaticano, que não pode vir à luz por ser muito frágil.

Uma grande surpresa ainda estava reservada a todos os amiguinhos de Jesus, pois, ao levarem as taças aos lábios, os meninos não provaram água, mas um doce líquido impregnado pela melodia da flauta, que tinha o sabor delicado de uva.

Foi uma ceia onde os meninos se embriagaram de alegria.

– Vó, se tem um papiro guardado que não pode ser visto, para que serve?

– Sei lá.

– Se ele for retirado do cofre e virar cinzas, guardar as cinzas seria igual, né?

– Acho que sim, talvez o poder da posse, o ter, seja a resposta.

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 6. Lagarta

 

As travessuras do Jesus Menino

 


 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

6. Lagarta

Naquele tempo, Jesus, criança ainda pequena, gostava de andar pelo quintal aproveitando o fresco sol da manhã, que dá vida às plantas e movimenta os pequenos bichinhos que existem entre elas. Cada nova flor desabrochada era razão para ficar a admirar o milagre da sua beleza doadora, cada bichinho a passear era motivo para uma prosinha de boas-vindas.

Uma lagarta riscadinha entre o preto e o amarelo, agitando a cabeça de um lado para outro, pareceu-lhe nervosa e o incitou a indagar-lhe o motivo da sua ansiedade. Respondeu-lhe o bichinho que, por contemplar tanta beleza das flores ao seu redor, estava pesarosa por carregar sua aparência asquerosa rastejando por aquele galho; que gostaria de, como elas, ser um enfeite para o jardim e, ao invés de se encolher de medo, sempre a temer o bico afiado de um pássaro, de poder lançar-se pelos ares enchendo de graça o quintal.

Embora Jesus achasse que cada bichinho, a seu modo, contribuísse para a beleza, ficou sensibilizado pela ansiedade da lagarta e, pensando em como poderia ajudá-la sem interferir demais na sua natureza, achou uma solução que lhe pareceu bastante satisfatória e lhe propôs:

– Acho que você poderia resolver sua tristeza passando um tempo com sua forma atual e depois se transformando em uma flor com asas. Seria assim: enquanto você estiver nessa sua forma atual, você comeria muito para acumular energia; estando bem forte, você teceria um casulo ao seu redor com fios que você produziria e passaria nele o tempo necessário para transformar-se, colorir-se e gerar asas fortes; nos seus pés você poderia sentir o gosto de todas as flores em que pousaria e seus filhos nasceriam dos seus ovos como novas lagartas. Que tal?

A lagarta aprovou a ideia com muita alegria e pediu logo que ele lhe desse a genética necessária para mudar o seu destino, o que lhe foi prontamente concedido. Ela então com muita gana passou a comer as folhas para se preparar, engordou e iniciou o seu casulo. Duas semanas depois, deixando o casulo, um azul intenso com extremidades negras jogou-se no ar a provar o sol, o vento e as flores.

Jesus viu cedinho a bela borboleta a dançar sob a luz do sol e, felicitando-a, ouviu o seu agradecimento por lhe ter dado tamanha beleza. Jesus respondeu-lhe: “Obrigado a você por alegrar tanto a minha manhã”.

– Ih, Vó, desta vez a senhora embolou bem os milagres da genética com os do Jesus menino!

E a vó se foi a resmungar:

– Com essas crianças de hoje, fica difícil desenrolar uma boa estória!


sábado, 1 de agosto de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 5. O Sapo


 

As travessuras do Jesus Menino

 

 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

 

5. O Sapo


Naquele tempo, à tardinha, Jesus estava sentado junto com seus amiguinhos à beira do poço da aldeia em alegre conversação, quando, de repente, o Elias deu um salto de susto.

– O que foi, Elias? - toda a turma perguntou.

O Elias, sem conseguir responder por causa do susto, apontou para o chão onde estivera o seu pé, e lá estava um sapo, quietinho, inflando e desinflando o papo sem demonstrar nenhuma preocupação com os meninos. O Samuel, que ouvira já muitos relatos de sapos venenosos, logo apanhou uma pedra grande para atirar no intruso. Não conseguindo impedir aquele gesto precipitado, por não estar próximo bastante, Jesus deu força ao sapo para saltar e, assim, escapar de ser machucado. E lá se foi o anfíbio para o abrigo dos arbustos que faziam sombra para o poço, de onde o insensato não deveria ter saído.

E Jesus disse ao Samuel que nenhum mal aquela pequena criatura poderia lhe fazer se fosse deixada em paz, e, se ela possuía realmente um veneno, era para usar como defesa contra os predadores.

Aproveitando o despertar da curiosidade da turma, falou sobre a simbologia que o sapo tinha de elevação espiritual, de passagem para um plano mais apurado de consciência, pois, durante sua vida, nascido de um ovo passava a um estágio de larva que evoluía para um girino e, finalmente, transformava-se no sapo. Assim, ensinava aos amiguinhos que essa também deveria ser nossa função na vida: a elevação para um ser sempre melhor.

Ainda sobre a simbologia do sapo, disse-lhes que ela variava muito entre os diversos povos, pois, se para alguns ele era símbolo da feitiçaria e das coisas do inferno, para os seus opressores, os romanos, ele representava a fidelidade do amor constante, da paixão mútua, e por isto uma romana feliz e apaixonada referia-se a seu amante como o seu sapo.

– Vó, quer dizer, então, que o sapo que vira príncipe nos contos de fada, na verdade está regredindo?

– Ah, pode até ser, por isso as estórias terminam ali, para não contar o que vem depois.

– Por outro lado, Vó, a princesa que ousa beijar um sapo deve passar por uma enorme prova.

– Ela sim, deve passar por uma verdadeira transformação, tendo que superar o asco e os seus preconceitos para ousar beijo tão asqueroso.

– E se o sapo vira um príncipe comum...

 


domingo, 12 de julho de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 4. Tâmaras


As travessuras do Jesus Menino

 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 




4. Tâmaras

Naquele tempo, quando Jesus ainda era bem pequeno, seu pai, voltando certo dia de uma jornada para a entrega de uma peça que fabricara, trouxe para Jesus algumas tâmaras grandes e suculentas, as primeiras que ele provou naquele outono. Deliciado com os frutos, Jesus perguntou:

–  E quando será que a nossa tamareira vai ter cachos maduros?

E o pai lhe respondeu que breve breve elas estariam no ponto e lembrou-lhe que seriam as primeiras tâmaras daquele pé que seu querido avô plantara, e disse saudoso:

– Se o meu avô ainda estivesse por aqui para ver os belos frutos, ele ficaria encantado e muito feliz por nos ter deixado tão grande bem.

– Se foi o seu avô que plantou a tamareira, - Jesus pensativo perguntou – e se eu nem o conheci, quanto tempo ela leva para dar tâmaras?

– Muito tempo, muito tempo mesmo, pelo menos uns oitenta anos, por isso se diz: “quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”.

– Uau, fico feliz e muito agradecido pela boa vontade dele!

E Jesus passou a vigiar mais ardentemente os belos cachos da tamareira ansiando pelo tom avermelhado das tâmaras maduras, até que o dia tão esperado chegou em que ele pôde colher o primeiro cacho, usando um artifício especial da sua vontade para fazê-lo, pois não podia alcançá-lo com as mãos. Só quem não conhece o doce sabor das tâmaras poderia dizer que ele deixou uma certa gulodice tornar-se uma tentação, pois ele comeu tantas quantas pôde.

Quando foi chamado para a sopa da ceia, ainda se sentia empaturrado e sentou-se à mesa sem nenhum apetite. Sem vontade de comer, ficou a revirar os pedaços de legumes no líquido grosso. Seu pai, vendo sua atitude indolente, como é o costume usual dos pais, recriminou-o com a cantilena costumeira de ser a comida um bem sagrado, como se ele não o soubesse, e que não devia ser desperdiçada. E Jesus continuou calado a mexer a sopa, sem fazer nenhuma alusão ao seu exagerado apetite pelas tâmaras.

Depois que o pai deixou a mesa, sua mãe foi retirar seu prato, e foi então que percebeu que estava bem arrumada com pedaços de legumes, ao redor das bordas do prato, a frase: “Meu pai está no céu”.

Sem julgar uma malcriação, Maria apenas sorriu.

– Puxa, vó, mas é verdade que leva tanto tempo para uma tamareira botar tâmaras?

– Naquele tempo era assim, mas hoje em dia, depois que os cientistas interferiram, há algumas tamareiras que produzem com apenas dois anos.

- Ainda bem. Mas, Vó, o que eu gostei mesmo foi de saber que foi Jesus que inventou a sopa de letrinhas.

– Pois é, embora naquele tempo, lá na Palestina, não existisse ainda o macarrão.

 


domingo, 5 de julho de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 3. A amarelinha


 As travessuras do Jesus Menino

 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia


3. A amarelinha

 No tempo em que Jesus era menino, uma certa tardinha, quando o sol baixava sobre os morros distantes, uma turma de meninos juntou-se sob o seu comando para brincar. Naquele dia Jesus contou para a turma que inventara um novo jogo e para jogá-lo desenhou no chão de terra com uma varinha, enquanto os demais ficaram atentos esperando o resultado.

Jesus explicou aos meninos que criara o jogo representando o caminho que cada um devia percorrer para um dia chegar a entrar no Paraíso. Neste ponto minha avó alertava que os sábios daquela época acreditavam que o firmamento era composto por onze esferas, cada vez maiores à medida que se ia em direção ao céu, que era a última esfera.

Desenhados os retângulos, que representavam as dez primeiras esferas, Jesus numerou-os do um até o dez e sobre eles desenhou o céu, assim:



Feito o desenho, Jesus pegou uma pedra que já escolhera e preparara antes, de faces retangulares bem lisas e que lhe cabia na palma da mão, e mostrando-a para a turminha disse que ela representava a alma pura, que precisava encontrar o seu caminho para o céu. Saindo da terra, a área fora do desenho abaixo do número um, pulando com uma perna só, como um espelho das difíceis tarefas que a vida tem, o jogador devia empurrar a alma para o céu, passando por cada esfera, cuidando em não cometer erros e faltas para não cair no inferno: era proibido pisar nas linhas dos retângulos; era proibido pisar com os dois pés nas esferas isoladas; e todas as regras que você bem conhece, disse minha avó.

A turma gostou tanto do jogo que não percebeu que a tarde ia morrendo e a luz diminuía, e que era a hora das mães chamarem os seus filhos para o repouso noturno. Quando os primeiros chamados aconteceram, houve choro dos atrasados, os que ainda não haviam conseguido chegar ao céu. E algum disse: “Bem que a luz podia esperar até eu conseguir”.

Jesus sentiu pena dos atrasados e pensou consigo: “Se Josué fez e não causou nenhum dano além da destruição dos seus inimigos, não deve haver mal se eu fizer. E fez como Josué, fazendo o Sol parar onde estava, preservando o resto de luz da tarde até que os pequenos chegassem ao céu, de onde saíam correndo para voltar para casa.

E todos os meninos chegaram ao céu, e o Sol seguiu a sua rota.

–  Mas, vó, parar o Sol não impede a noite de chegar.

–  É, sabidão! Mas naquele tempo eles não sabiam disso.



domingo, 28 de junho de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 2. Cata-vento


 

As travessuras do Jesus Menino



Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

2. Cata-vento

Naquele tempo, era uma tarde de outono, o sol caminhando para o seu poente coloria o céu sobre os montes de um tom levemente avermelhado, e uma brisa leve e fria soprava, incentivando o grupo de crianças a brincar ao sabor do vento.

Jesus, sentado à porta de sua casa no alto da colina onde estava sua aldeia, entretinha-se a fabricar papa-ventos com folhas de papiro, que entregava aos pequeninos ansiosos e excitados que ao seu redor pediam insistentemente o próximo brinquedo. Agraciado com o brinde desejado, o pequeno saía a correr pela rua exibindo a sua graça e agilidade.

Subindo pela estrada que dava acesso à aldeia, um menino estranho ao grupo, trazendo nas mãos um cajado curto, parou por ali a observar a alegre correria, sem causar atenção dos pequenos pela sua presença, que mais o viam como um deles. A alteração no quadro de alegria veio de modo repentino.

Um dos pequenos, ao passar alegremente com o seu brinquedo girando próximo ao estranho, foi por este assaltado e teve o seu troféu arrancado de sua mão e, ato contínuo, estraçalhado. O menino, tomado por susto, medo e desilusão, irrompeu em choro convulso.

Jesus foi despertado do seu trabalho ao ouvir a choradeira e, aproximando-se do estranho de maneira amistosa, perguntou-lhe o motivo do ato tão sem propósito, e ouviu-o responder:

 Eu fiz porque quis e porque eu posso.

Jesus calmamente convidou-o a brincar com o grupo e ofereceu-lhe o cata-vento que acabara de fazer, que foi pelo incauto também destroçado com raiva, e ainda disse:

 E para que eu iria querer brincar com esses pirralhos?

Aparentemente mantendo a calma que lhe era normal, Jesus fez um gesto com o braço estendido e a palma virada para cima, elevando-o vagarosamente. Viu-se o bruto a subir no ar até a altura de um metro. Em seguida, Jesus começou lentamente a rodar o braço e, pouco a pouco, aumentou a velocidade, fazendo do malcriado um cata-vento vivo.

A turma de meninos gritava vivas enquanto Jesus foi diminuindo o giro até pousar o cambaleante bruto no chão, que saiu como pôde a correr ladeira abaixo até desaparecer na curva da estrada.

Ouvindo o fim da estória, não pude deixar de dizer:

 Bem feito!

Ao que minha avó retrucou:

 Mas Jesus foi dormir aquela noite sentindo-se triste e penalizado.


sábado, 6 de junho de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 1. Vaga-lumes



As travessuras do Jesus Menino




Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

1. Vaga-lumes

Nos tempos quando Jesus era criança, brincando à noite próximo a sua casa, ele ouviu, pois conhecia a língua dos bichinhos, dois grilos a cricrilar.

– Que bonitas são as estrelas, voando lá no céu a brilhar! – disse um grilo.

– Muito lindo, que bom seria se pudéssemos voar bem alto!

– E brilhar como as estrelas! Poderíamos colorir o céu com muitas luzes.

Jesus parou um pouco a imaginar o bonito sugerido pelos grilos e viu a noite iluminada por inúmeras luzinhas a voar, trazendo o céu estrelado para bem próximo da gente. Achou bonitas as ideias dos grilos e resolveu fazer uma travessura atendendo as suas vontades. Deu-lhes as asas vigorosas para voarem e a luciferina, uma invenção sua, um pigmento produzido em seus organismos, que lhes dava o poder de emitir luz através de um farolzinho fixado em seus bumbuns. E deu não só aos dois poetinhas que lhe deram a ideia, mas a todos os grilos que por ali existissem e desejassem ser uma estrelinha.

Ao se verem assim transfigurados, os ex-grilos encheram o céu noturno de luzinhas brilhantes. Jesus batizou suas novas criaturas pisca-piscas de vaga-lumes, por serem como foguinhos a vagar pela noite. E, ainda, deu-lhes um gostinho horrível para protegê-los dos outros bichinhos que tentassem devorá-los. É bem verdade, pensou pesaroso, que pelo menos um deveria perecer para que um morcego aprendesse a passar longe daquelas luzinhas, mas como fugir às leis da natureza?

Perto dali, um menino doentinho, maravilhado de ver as estrelinhas, dormiu e sonhou. Sonhou que estava rodeado por muitos vaga-lumes que voavam ao seu redor e pediu a Jesus que também lhe permitisse ser como uma estrelinha brilhante. Sua alma deixou-o e, tornada um facho de luz, brincou com os vaga-lumes e voou... voou bem alto para ser uma estrelinha no céu.

Quando ouvi pela primeira esta estória, disse a minha avó:

 A alma é assim algo tão grande como o nosso Sol?

E ela:

 Vocês, meninos de hoje, sabem de tudo, mas isto é apenas uma estória para dizer que você é uma estrela enorme, que aquece o coração de sua avozinha.









domingo, 17 de maio de 2020

A recompensa final


A recompensa final



Dona Gertrudes, nos tempos idos, descuidara-se dos seus compromissos com a Igreja devido aos afazeres domésticos. Com as crianças nascendo, até a Santa Missa dos domingos foi relaxada em benefício do trabalho com os filhos, que não foi pouco, pois a penca chegou a inchar com treze criaturas. “Não perdi unzinho”, dizia com orgulho.


As crianças crescendo junto com o trabalho, ela ia levando a canseira afastada das compensações religiosas, não sem um pouco de pesar e remorso. Quando a fabricação de rebentos foi paralisada pelas normas da natureza, ela já ia bem carregada de anos, e os primeiros filhos já adultos, de vidas feitas, só apareciam de visita.  A casa esvaziando pouco a pouco, os domingos já deixavam brecha para voltar a frequentar a missa.

Os últimos filhos deixando a infância, passou a ter tempo para voltar aos bordados e tricôs, que fazia com maestria, ajudando nos gastos da casa com o dinheirinho que recebia pelas toalhas, blusas e outros apetrechos.

E ficou viúva. E a necessidade de consolo na religião foi cada vez tornando-se mais e mais importante. Aliviada por nenhuma necessariedade de pecado, vez em quando confessava somente para relatar um momento de raiva, principalmente se errava um ponto em seu bordado, ou de uma gulazinha por um pudim que ela fazia como nenhuma outra, e, lógico, por este orgulho também. E comungava em todas as missas que ia, não só aos domingos.

A casa vazia, todos os filhos levados pela vida própria, sentindo a pensão que recebia bastante satisfatória a suas necessidades modestas, passou a dedicar os seus trabalhos manuais à igreja, confeccionando toalhinhas e tudo o mais que os altares pudessem enfeitar, e, quando estes estavam bem aparelhados, fazia peças para vender nas quermesses da paróquia em benefício das obras sociais.

Tornou-se muito importante para a paróquia e muito benquista.

Muito anos assim passados, a idade foi pesando mais e mais. Ela contratou para ajudá-la nas tarefas domésticas uma senhora, a Creuza, que duas vezes por semana ia fazer a faxina da casa. E um pensamento mais assíduo no dia último levou-a a interessar-se pelos anúncios que tomava conhecimento da boa morte. Deu-lhes mais atenção, e a ideia lhe pareceu interessante de não causar consternação aos filhos, deixando tudo arrumado para o seu último passeio.

Recebeu em sua casa diversos mercadores da morte que faziam louvores aos velórios que podiam oferecer, e que dispunham dos caixões mais confortáveis, mais impermeáveis, biodegradáveis ou hidrossolúveis, das flores mais ao seu gosto e do mais que pudesse alegrar o futuro defunto. Finalmente, para ver-se livre dos agoureiros, escolheu um plano de morte que lhe oferecia a possibilidade de receber o caixão para manter em sua própria guarda, sem se esquecer de contratar uma missa de corpo presente. Assim, sentiu-se segura, pois a cova há muito já tinha assegurada no andar de cima da sepultura onde depositara o finado marido. Quando os filhos souberam do arranjo, dividiram-se entre os que elogiaram o seu senso prático e os que acharam que ela tinha enlouquecido. A caçula, coitada, quase foi parar no hospital.

Quando o belo caixão chegou, em nogueira com verniz marítimo combinando com os seus móveis, foi alojado em um quarto que agora era usado pelos hóspedes, muito raros ultimamente, em pé, encostado na parede de fundo como um mobiliário a mais.

Terça-feira, dia da Creuza. Como de hábito ela chegou cedo e foi cuidar da cozinha da véspera, da roupa a lavar e passar. Findo estes afazeres, dirigiu-se aos quartos e...

– Ai, Dona Gertrudes!!! - berrou a Creuza.

Dona Gertrudes abandonou a toalha que estava bordando e foi acudir a Creuza, que estava parada em frente à porta do dito quarto encostada na parede do corredor, a mão no coração, a vassoura caída no chão.

– Dona Gertrudes! Um defunto!

Dona Gertrudes não pôde conter o riso quando viu o motivo do susto da Creuza.

Que isso, Creuza, é apenas o meu caixão.

Seu caixão?! Então a senhora está...

Deixa de ser doida, Creuza, estou vivinha, não está vendo?

E, então, para que é o caixão?

Ora, para quando eu precisar dele.

– A senhora já adiantou a compra do caixão e vai deixá-lo assim, como um aviso de morte?

– Mais ou menos isso, Creuza, assim eu vou me acostumando e tendo uma convivência mais afetiva com ele.

– Cruz Credo, Dona Gertrudes, isso deve ser de mau agouro, deixar isso ali a esperar a senhora. Ele pelo menos está trancado?

– Não, Creuza, a tampa não está lacrada, senão pode dar mofo e estragar o tecido de dentro, e também é preciso limpá-lo para não deixar acumular pó. Pó, ali, só o meu, quando me for a hora.

– Estou aturdida. E eu... Eu vou ter que limpar isso?

– Bom, Creuza, espero que você tenha essa consideração comigo e possa fazê-lo.

– Ai, meu Jesus! E a senhora já experimentou, Dona Gertrudes, já deu uma voltinha ali dentro?

– Já, e achei bastante confortável. Se você quiser pode experimentar também.

– Cruzes! Que ideia mais louca! A senhora comprou caixão, cova e tudo mais?

– Comprei, não quero dar trabalho para ninguém.

– E comprou também a entrada?

– Entrada, Creuza, que entrada?

– Para lá...

– Para lá onde?

– Para a porta de São Pedro.

– Ah, comprei. E paguei em pequenas prestações por toda a vida.


-o-

domingo, 3 de maio de 2020

A Deusa



A Deusa




Ai, ai, estou sem rumo. Saí da minha trilha por um golpe de vento soprado não sei de onde, que me fez voar! Estava distraída e não consegui me agarrar em nada. E ainda mais essa: aquela coisa que está ali a me vigiar com aqueles dois olhos enormes. Será que foi ela que soprou em cima de mim? Por que ela teria feito isso? Tenho medo das intenções dela. Além de tudo, parece que perdi meu olfato, não consigo sentir cheiro das minhas irmãs, nada e nada, não sei aonde ir. Corro para a direita e encontro uma barreira, volto agitada e vou para o outro lado, nada, nada, para a frente e para trás, girando feito uma doida. Acho que estou louca mesmo, e cansada.

E ela fica ali com aquele sorriso na cara de lua vigiando o meu desespero, arregalando aqueles dois faróis enormes a observar os meus passinhos sem rumo, parece até que estou sob a luz de dois sóis que controlam tudo o que minhas patinhas confusas podem fazer. E o sorriso dela? Será que ela sente alegria por me ver atrapalhada e alucinada?

E mais essa agora: água! Um lago enorme! Será que a trilha está do outro lado, além da outra margem? Será que consigo rodeá-lo? Acho que vou tentar. Isso mesmo, vamos lá. Mas só vejo água, água, água. Ai, que cansaço! E ela fica ali com as duas mãos segurando a cabeça, olhando-me a tentar vencer esta barreira de água. Eu grito para ela: bruxa malvada! vê se me deixa em paz! Ela nem se dá conta, acho que minha vozinha é pouca para fazer com que ela me escute.

Quando as anciãs nos ensinavam sobre os deuses, avisavam que devíamos afastar-nos deles, pois era impossível entender as suas ações e os seus motivos. Eles são tão grandes e poderosos. E perigosos! Por isto era preciso que ficássemos unidas, bem juntinhas, como proteção de suas maldades. Mas agora estou aqui sozinha, acompanhada só pelo meu medo, sujeita aos caprichos dessa monstra horrível, que não tem nenhuma pena de mim.
Ai! Ela tirou uma das mãos de apoio do rosto, para que será? Uma folha! Ela pôs uma folha sobre a água. O que será que ela quer? Acho que devo me arriscar para tentar atravessar o lago. Tenho muito medo, mas não tenho outra opção. Lá vou eu, que a Senhora Mãe das formigas me ajude.

Está soprando um vento, estou atravessando o lago. É ela que está soprando, como se fosse a deusa dos ares, será que quer me derrubar na água? O vento empurra a folha e me leva sobre o lago. Estou com medo! Não sei para onde sou levada. É ela que dirige a folha, para onde? Meu destino está selado pela vontade dela. Nada posso fazer senão deixar-me levar.

Ai, ai, cuidado! Oh, ela me levou para a margem do lago, vou deixar a folha. Ela pôs uma barreira deste lado, quer que eu vá para lá? Tenho medo, para onde? Tento voltar, ela não deixa, tenho que seguir para onde ela quer. Ai, espero que com a benção de minha mãezinha eu saia desta enrascada.

Oh, que alegria! Finalmente de volta a minha trilha. Devo reconhecer, estava confusa, e errada!

Obrigada, deusa!

- Júlia! Júlia! Onde você está?

- Aqui, mamãe, ajudando a formiguinha.

-o-

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Revelações


Revelações




Para que se possa aclarar os fatos é preciso contar e requentar as palavras, que estão envoltas em uma nuvem de insignificados, lavadas que estão por águas barrentas, que mais escondem que põem a nudo. Eu me permito a repassar minhas lembradas memórias na superfície, sem desnudar o mapa dos lugares onde foi o ocorrido real, pois é de fato o necessário resguardar a intimidade dos seres aludidos, que não devem ser expostos à predatória curiosidade, que sabemos ser portadora de malevolência sem limites.


 Depois que se difundiu por papéis e falas a existência em meu terreiro desses pequeninos seres, fui solicitado por todos os tipos de curiosos a revelar como se iniciou a minha convivência com os tais. Tranquei-me em rumoroso silêncio que enterrava o medo das maldades que o inusitado normalmente desperta nos indiferentes ao bem-viver dos outros, quem quer que seja o outro, gente ou bicho. E o que seriam meus amiguinhos na boca dos fanáticos intolerantes e Ignorantes? Seres sem alma, criaturas cuspidas das entranhas do inferno, passíveis das promessas de eliminação, que lhes são atiradas simplesmente por não serem incapazes de causar perplexidades. É por medo de causar prejuízos inomináveis aos de sua estirpe que deixo em reticências o local do ninho onde os encontrei.

Em muitas décadas atrás, quando tinha a juventude como uma deslembrada que não se sabia efêmera, eu corria pelos grandes rios do Brasil central à cata de emoções da pescaria e da caça, de verdade um mero predador abútrico. Sem as amarras que meu amadurecer impôs a minhas mãos, o divertido era brigar com o bicho e conquistar a sua derrota na ponta de um anzol, que lhe dilacerava a boca, jogo desigual onde o vitimado está de prévio definido. Tinha como guia mais procurado, tanto que muito se tornou um vero amigo, o Beto, um caboclo que me conduzia em uma voadeira pelas águas mais propícias. Figura esquálida tanto física quanto em coisas de atitude, e também de fala, divertia-me a contar com ingenuidade as suas não peripécias do aprender a vida, desnudando um caráter isento de malícias e sem preocupações em se fazer ridículo ao contar, não tendo intenção alguma de graça, episódios onde a sua ingenuidade o fizera ser a diversão dos amigos, e nossa, então, nos descansos noturnos a saborear um peixe, embalados pela fala lenta e pausada daqueles casos.

Foi um dia, éramos apenas os dois largados a correr o rio, talvez o calor, talvez algum rescaldo de uma refeição mal preparada, em que me vi a tremer em desmesura em febre, que cresceu a ponto de me deixar anuviado, e ao Beto um pouco alvoroçado por estarmos ali sem recursos ao sabor de uma natureza que nos considerava intrusos. Antes de entregar-me ao oblívio, eu o ouvi dizer que estávamos próximos a uma ilha que ele sabia poderia conseguir ajuda curadora.

Não tinha eu medida do quanto fiquei a navegar no tempo quando me vi desembarcado direto em uma cama feita de folhas. Não fosse o meu precário estado de juízo, eu decerto teria um baita susto ao distinguir, ao meu lado, pequenas sombras negras que cuidavam de ajeitar-me sobre as folhas com acurada leveza. Aquele carinho de gestos me afiançava que nenhum receio deveria ter daquelas figurinhas estranhas, e fui acostumando-me ao susto que não tive enquanto tomava ar a minha pessoa. Do Beto, não havia presença.
Quando consegui articular palavra, perguntei:

- E Beto?

Um riso largo cobriu aquela diminuta carinha negra, mostrando nos dentes a satisfeita recompensa de me ver ressurgido.

- Beto foi casa. E volta.

Foi então que tomei ciência da outra figurinha, de cócoras, a cuidar sobre uma fogueira de um pote em que derramava uma erva. Terminada a cocção, derramou a tisana em um pequeno jarro de barro e veio a mim, saltitando, oferecendo-a debaixo de um largo sorriso branco. Talvez por já sedado pela gentileza dos cuidados, tomei a beberagem resoluto, que me correu amargosa pelas entranhas, deixando-me no imediato mando da minha própria postura do ser.

Em momentos de necessidade de apaziguamento, de normal lançava mão de um cachimbo que me acompanhava por muitos invernos, e ali de lado se achava meu bornal que o agasalhava. Enquanto aconchegava um punhado de fumo no fornilho, os pequeninos ladearam-me em olhos curiosos a seguir meus gestos rituais, e desdobraram risos quando botei fogo na massa. Puxei vagaroso e firme no tabaco quente e livrei uma longa baforada. Meus enfermeirinhos lançaram gritos de admiração. Ofereci o cachimbo. Os olhos de regozijos brilhando provaram e aprovaram, sem engasgos nem tosses, e lá se foi o meu companheiro de tantas jornadas, pois não fui de coragem a tomar-lhes tal alegria.

O Beto voltou para me buscar. Indaguei-lhe se na vila conheciam a ilha.

- A ilha sim, mas os pequeninos não. Eles só se deixam ver pelos que lhe são confiantes, e, pelas maliciosas sacizagens que eles aprontam, a gente da vila tem medo da ilha, e correm por lá relatos que dizem ser povoada por demônios e espíritos malfazejos.

Eu de pronto disse ao Beto que era meu querer ficar por ali mais tempo a conhecê-los com mais apuro. Fizemos trato que viesse de retorno a me buscar passados três dias. Assim se deu que passei o tríduo em desigual liberdade na natureza crua daquela ilha desmapeada, no coração das brincadeiras da corriola descompromissada com cruezas da vida. Tal foi nossa amizade que o casal que me cuidara a mazela se me apegou talmente que quis trilhar comigo minha viagem de retorno. O Beto nos levou à vila onde peguei a camioneta e varei de volta para cá. Muitos desenfadamentos aprontaram, sendo vítimas principais os frentistas dos postos de abastecimento, que levavam sustos com barulhos saídos do nada, tratando-me com desconfiadas atitudes.

Tal e qual foi esta a origem dos meus amiguinhos.

-o-


domingo, 5 de abril de 2020

O Olhar de Dona Menina



O Olhar de Dona Menina



(obs.: o texto faz referência à história publicada neste blog: “O Chá de Dona Menina”.)


─ Ei, Mariinha, bom dia! Tá bem disposta hoje, hem? Tão cedo e fugida da quarentena!

─ E a Senhora Dona Menina aí já de namoradeira, dependurada na janela?

─ Ah, tô aqui desfadigando da cama que fica dura quando os olhos se recusam a ficar cerrados. Por corretivo, dou-lhes o belo da manhã a se alargar. Mas o que foi que a fez deixar a reclusão da chácara?

─ Pra aproveitar a fresca, Dona Menina, premida da precisão que me está a fazer roer o pé da minha última galinha, finada já de semana.

─ Imagino, Mariinha, tristeza é o que resta dessa encomenda do tinhoso, mas com fé em nossa Santa Mãezinha isso vai passar.

─ Mas tá custoso, comadre, a pena tá dura de fazer dó até praquele mazelado de ódio. Minhas juntas tão chagadas e rangidas que nem carro de boi gemedor de tanto me dobrar pra pedir piedade pra Nossa Senhora.   

─ Coragem, Mariinha, que ela não desampara!

─ Coragem é que não tem faltança, Dona Menina, já fiz minha novena e promessa de me afastar de carne por um ano.

─ De novo com suas promessas, comadre, já não bastam os males maiores?

─ Ah, mas também... cá pra nós, Dona Menina, tenho até medo de falar, já que a senhora tem chamego bom com a Sua Mãezinha Nossa Senhora e vai que conte pra ela... nem faz muita diferença, pois recurso nem sobra nenhum pra arrumar um tico de carne.

─ Basta a arrelia que você tá passando, Mariinha, num tem precisão dessas artimanhas. Tá faltando muita coisa?

─ Falta é que não falta, Dona Menina, mas de compenso temos nossa hortinha que socorre nossa aflitude.

─ Ainda bem que pode contar com ela, tá bem fornida?

─ Assim assim de folhas bem, tamos até ficando verde. No mais, mandioca e inhame não falta pra agarantir o de manhã.

─ Vou lhe arranjar uma cesta, Mariinha, pra ajudar a cuidar dos meninos.

─ Eu muito agradeço, Dona Menina, mas sabe, eu cá vim com intenção mesmo foi de...

─ De quê? Mariinha, diga logo, não se avexe.

─ Daquela nossa velha conversa...

─ Que conversa, comadre? Foram tantas.

─ A senhora sabe... Quiçá, devido a essa mazela danada, a senhora muda de ideia...

─ Mas de que ideia você está falando?

─ Do chá...

─ Ah, Mariinha, outra vez! Eu já lhe disse e bem informei que não pode ser, que mais mal faria do que bem.

─ Num seria o fato de tentar, assim como se fosse o caso de uma vacina pra prevenir os meninos?

─ É por ter muita afeição por eles e por você que não posso, Mariinha.

─ Ah, que tristura! E a senhora fica aí de privilégio sem medo desses bichinhos.

─ Que lhe parece, Mariinha, sem medo? Isolada dos meus netinhos, sem os seus afagos? Não há chá de lenho que arrefeça esta solitude.

─ Estamos sem chão, Dona Menina, sem ciência de que lado pode vir a cacetada, temos suspeição de tudo: de gente, de coisas e de bichos.

─ É. Tudo passou a ser estrangeiro, baixado por ordem do não se achegue.

─ Pois num é? Eu que tenho meus meninos em casa não me aventuro a um abraço, só chinelo em mão para afastar os pobrezinhos.

─ Nesses meus devaneios venho assuntando uns tempos que agora o olho é nossa mais premente ferramenta, com um tanto de ajuda da boca.

─ Que diz, Dona Menina?

─ Se a mão está assoberbada com o sabão e atrapalhada em tocar, o toque de um doce olhar é que resta para a nossa alegria...

─ E secundado de um sorriso...

─ Pois é, Mariinha, a gente se sente aconchegada se vê a ternura em um olhar assim como o da minha Santinha, um olhar espelho dos olhos dela.

─ É o que eu vejo no seu, Dona Menina, que está sempre arrumada pra nos confortar, mesmo que negue o chá...

─ Miseravelmente, Mariinha, não posso compartilhar o chá.

─ Só me cabe me acontentar com o seu bom olhar, Dona Menina, e com a sua dádiva possível. Vou guardá-lo no meu para não enxergar aquele outro desvairado.

─ Desvairado?

─ É, Dona Menina, aquele olhar alucinado a balbuciar sob o barulho das panelas.

─ Ah, deveras, Mariinha, um olhar de louco a pregar jejuns e rezas sem misericórdia, que nada sabe do que seja compaixão...

─ E a abrir igrejas para garantir o dízimo dos mercadores...

─ A nossa igreja está cá, bem funda, imersa no meu olhar de aflição, mas com compaixão.

─ Assim seja, Dona Menina.

─ Assim seja, Mariinha.

-o-