segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Eu sei



                                                      
Eu sei




─ Bom dia, Seu Jair!
─ Bom dia!
─ Hoje o dia está radiante e prometendo, espero registrar lições muito especiais.
─ E quem sou eu para pretender corresponder a tamanhas expectativas?
─ Pelo menos uma tampa de cisterna que nos protege de um tombo perigoso.
─ Não tenho pretensão a nada; limito-me a repetir as lições que retiro dos mestres que caminharam a nossa frente.
─ E por isso faz o nosso caminho ficar mais curto. Vamos dizer que eu busco nas suas lições um resumo para a vida.
─ Você está fazendo lembrar-me da alegoria da caverna.
─ O senhor está referindo-se a Platão?



─ Sim, você está pretendendo aprender através da pouca sombra que projeto na sua mente. É possível que você veja sombras muito distorcidas da realidade do exterior.
─ Pelo menos, quando a luz do sol cegar-me, eu poderei lembrar-me das sombras que o senhor deixou-me entrever.
─ Bom, mas lembre-se de não ficar na plateia olhando para as sombras, de vez em quando vire as costas para a abertura e tenha vislumbres da verdadeira luz que lá existe. Se a luz do sol não lhe queima a pele, não será possível que aprenda o que é o calor.
─ Eu sei que minha própria experiência é importante, mas quero valer-me da sua. Se eu fosse buscar nos livros o conhecimento de todos os mestres, eu teria que valer-me de muitas vidas para aprender.
─ Realmente às vezes ficamos meio tontos com tantas bifurcações que as lições nos abrem; cada autor cita outros que nossa mente ávida quer logo ir atrás em busca de mais; cada um dos novos remete-nos a mais e mais; e esse ciclo abre-se em uma espiral infinita.
─ Realmente é tonto assim que me sinto, não temos o tempo necessário para entrar nessa espiral e, se entrarmos, como poderemos ter a certeza que dela conseguiremos sair ilesos?
─ Veja o que existe no final da espiral.
─ Como assim? Se ela é infinita; seria o mesmo que tentar colocar em minha mente todo o conhecimento do mundo.
─ Ou?
─ Ou o quê? Não vejo alternativa, só vejo no fim da espiral a perda total da minha sanidade. A minha mente não será suficiente para suportar tamanho esforço.
─ Ou?
─ Ou eu fico sentado aqui observando as sombras.
─ Meu caro, vamos colocar um pouco de ordem na confusão que você aprontou. Eu lhe disse apenas para olhar o que existe no final da espiral.
─ Olho, mas não consigo enxergar!
─ Há um filme chamado Samsara, de um indiano, Nalin Pan, sobre o caminho trilhado por um monge budista que deixa a vida monástica pelo chamado mais imediato de uma vida normal. Ao deixar o mosteiro ele encontra uma pedra onde se lê uma pergunta clássica da sabedoria budista: como uma gota de água pode viver ao sol sem desfazer-se?
─ Não sei... Não, talvez... Talvez ela possa integrar-se às águas de um rio.
─ E assim ser levada ao Oceano. O monge, após ter conhecido a vida sexual, o casamento, as traições, a ganância, enfim, a vida normal, resolve voltar ao monastério para cumprir sua verdadeira missão, deixando esposa, filhos e tudo.
─ Ao deixar de lutar contra os seus desejos é que ele pôde encontrar-se?
─ E a gota de água pôde encontrar o que para ela era a espiral infinita, o Oceano, onde se imerge em completa união... não, está errado, a palavra união não cabe aqui, ela é apenas uma sombra que enxergamos na caverna, mas não sei como expressar isso, pois a gota conserva a sua individualidade integrada no Todo, ela é o Todo. 
─ Mas isso parece ser apenas uma ilusão da nossa mente.
─ A maioria esmagadora diz isso, mas durante a nossa história, sem individualização de tempo ou região, de filosofia ou religião, muitos foram os que relataram tal união, porém foram taxados como loucos, visionários, santos ou místicos.
─ Nunca li tais relatos.
─ Provavelmente já os terá lido sim, nosso grande Mestre nos falou e deixou-nos registrado nas suas lições dos Evangelhos, mas este não vale citar, vamos falar dos outros que os fizeram, que normalmente ninguém os lê, exceto os religiosos e os filósofos, ou quando os leem não percebem a realidade que está sendo falada. Para não citar os mestres orientais e ficar no âmbito de nossa cultura, posso citar Tereza de Ávila, João da Cruz e o Cântico dos Cânticos. Mas para fazer uma breve descrição vou utilizar-me de um poema escrito por Jalal ud-Din Rumi, um sábio sufi do século XIII, e é bom que assim o faça para que se entenda que os muçulmanos suicidas e terroristas são apenas pessoas comuns despreparadas, como tantos outros também em nosso mundo. É assim o poema:
O amante bateu à porta da bem-amada, e uma voz lá de dentro perguntou:
- Quem está aí?
E ele respondeu:
- Sou eu.
A voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o amante foi para o deserto, e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a voz perguntou:
- Quem é?
E o amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta.
─ Não sei se entendi...
─ Enquanto o que bate à porta ainda conserva a consciência do seu eu, ele não pode penetrar naquela casa, e enquanto ele não tiver a necessária experiência para perceber que ele nada mais é que a própria Consciência, ele não volta a bater à porta.
─ Quando ele volta a bater responde que é a própria amante, pois já está preparado e se tornou um com ela.
─ E assim a porta se abre e ele pode penetrar em sua própria Alma.
─ Mas como trilhar o caminho que possa levar-me a tal experiência?
─ Siga a sua intuição, siga os raios que você pode enxergar penetrando na caverna.
─ E como eu farei para percebê-los?
─ Basta que você se coloque no caminho para perceber que seu ego é um nada e nem sequer merece a comida que você lhe dá para sustentá-lo.
─ O senhor está falando de um jejum real, de comida?
─ Bom, podemos tratar desse jejum com seus dois significados: um deles, o jejum real, foi o caminho trilhado por muitos místicos, como no poema citado; dizem que também funciona, mas não sei, não tenho essa experiência.
─ De qualquer modo o ego é o empecilho.
─ Como sempre foi chamado: é o demônio que nos afasta da Consciência.
─ Dessa forma o senhor retira Deus do exterior e o coloca dentro de nós, bem como a sua antítese, o mundo das sombras e da ignorância.
─ É necessário que saiamos da caverna para encarar a luz, caso contrário continuaremos a viver inconscientes ou no inconsciente.
─ O termo agora é o mesmo utilizado na psicologia?
─ Mais ou menos. Jung falou-nos muito a respeito do inconsciente coletivo, que seria um conjunto “cultural” que portamos que não vem apenas de nossa educação, mas que herdamos de nossos ancestrais, que pode ir tão longe no tempo quanto da formação de nosso corpo, antes que nos tornássemos homens.
─ Foi a isso que o senhor chamou de vislumbres da Consciência?
─ Exatamente, podemos de algum modo partilhar da experiência dos outros que antes de nós a experimentaram ou, mesmo talvez, dos que no futuro irão experimentá-la.
─ No futuro? É lógico que o senhor está brincando comigo.
─ Por que brincando? Havendo uma Consciência, ela não terá a prisão do tempo, porque se encontra além de nossa experiência. A própria física moderna está experimentando isso.
─ O senhor disse havendo, há ainda algum resto de dúvida no senhor?
─ São vícios de nossa linguagem. Um dia, em uma entrevista, perguntaram a Jung se ele acreditava em Deus...
─ Evidentemente ele acreditava.
─ Sua resposta foi: “Eu não creio, eu sei”.
─ Eu sei?
─ Ele não caiu na armadilha da pergunta que lhe foi feita, que inconscientemente o entrevistador armou; pela sua experiência, ele não poderia responder “eu creio”, porque estaria admitindo a sua negação, a potência do “não creio”; com a resposta dada ele negou a potencialidade do não creio para afirmar o “eu sei”, algo que não admite a menor contestação; de um certo modo, ele estava respondendo ao próprio Deus que disse chamar-se “Eu Sou”.
─ Estou tonto, resuma para mim o teor desta entrevista.
─ Poderíamos fazer uma prece, no sentido de colocarmo-nos em atitude de prece, e pedir-Lhe que abra nossas mentes para que todos possamos perceber mais rapidamente o Seu Nome e possamos afirmar:
─ Eu Sei.


-o-



                        Promessa

                                  Jalal ud-Din Rumi

Noite passada fiz outra vez a promessa:
jurei por tua vida jamais desviar os olhos de tua face.

Se golpeares com a espada, não me esquivarei.
Não buscarei cura em mais ninguém,
pois a causa de minha dor é ver-me longe de ti.

Joga-me ao fogo;
se deixar escapar um único suspiro
não serei homem de verdade.

Surgi do teu caminho como pó.
Retorno agora ao pó do teu caminho.





 

Um comentário:

  1. Texto excepcional que como outros da lavra de Siovani nos abre novas perspectivas, e nos orienta para possibilidades pouco usais. Enriqueceu-me essa leitura, e cada vez mais me torno, através de seus escritos, um admirador do poeta Rumi.
    Lulu

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