terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O ovo




O ovo


Miguilim, hoje tenho para você uma estória um tanto quanto estranha.
Oba, Doutor, já tou louquinho pra ouvir, mas estranha por quê?
─ Deixe-me contá-la e você entenderá.
─ Então conta.
─ É simplesmente a estória de um ovo.
─ De um ovo? Como assim, um ovo de galinha?
─ Não, Miguilim, esse não era um ovo de galinha. Para ser sincero nem sequer era um ovo de verdade, era mesmo um ovo literário.
─ Ovo literário, que troço esquisito é isso?
─ Era um ovo literário porque foi criado como um poema, quando o autor navegava pelas ondas da poesia concreta.
─ Ah! Era um ovo poema?
─ Era sim um ovo poema, todo construído por palavras.
─ Mas acho que não entendo muito bem, não sei como um ovo pode ser feito de palavras.
─ Por isso eu já lhe disse que a estória era estranha, a começar por esse ovo-poema, embora seja até mesmo muito simples.
─ Mas como era esse ovo?
─ O ovo era construído por apenas duas palavras.
─ E só com duas palavras se pode construir um ovo?
─ Isto era o que o autor pretendia, a síntese mais crua: em poder expressar uma idéia com o mínimo necessário.
─ Então me conta como era feito o ovo.
─ A casca do ovo foi construída pelas letras do apelido carinhoso que o autor dava ao seu amor; as letras desenhavam o contorno do ovo, repetindo o nome muitas vezes.
─ Ah! Então era só o desenho do ovo.
─ E dentro do ovo, ali onde devia ficar a gema do ovo, bem no meio, como se fosse o gérmen do ovo, ele escreveu: “sou”.
─ Acho que entendi: o “sou” era como o ponto de onde nasceria um pintinho!
─ Era mesmo, simbolizando que, através de todas as substâncias geradoras de vida lá contidas, o milagre do embrião podia acontecer e, então, desenvolver-se.
─ Ah, sei, assim como a gente se sente protegida pelo carinho da mãe que nos cerca de cuidados e amor.
─ Isso mesmo, Miguilim, dentro do aconchego criado pelo ovo e protegido do mundo exterior pelo carinho do seu amor, todo um mundo foi criado para que ele pudesse viver.
─ Então ele se sentia pequenininho e necessitando de proteção?
─ Era mais como se ele necessitasse de um invólucro onde ele poderia crisalidar-se.
─ Mas o pintinho não tinha que se desenvolver?
─ Naturalmente.
─ E enquanto ele crescia não ia ficando sufocado?
─ Mas isso não foi previsto, o autor não percebeu que estava criando uma prisão para si mesmo.
─ Mas, Doutor, quando o pintinho cresce e vai ficando sem ar, ele tem que quebrar a casca para não morrer.
─ Mas o autor tinha a esperança de que aquilo tudo fosse apenas uma figura literária, apenas um símbolo; que o embrião nunca cresceria tanto a ponto de sentir-se sufocado. Ele queria apenas curtir o amor encasulando-se dentro do ovo.
─ Mas como poderia? Se ele se alimentava, ele tinha que crescer; e se crescia, ele teria que um dia sair do ovo.
─ Ora, Miguilim, eu lhe disse que ele achava que o ovo era apenas uma figura literária; ele não construiu essa lógica e, assim, ele foi ficando sem ar dentro daquele ovo, mas não queria sair dele.
─ Mas assim ele morreria.
─ E assim ele foi prendendo-se. E com o trabalho do tempo e das necessidades da vida, a casca do ovo endureceu e, por mais que esperneasse, ele não conseguia sair do ovo.
─ Mas, Doutor, um pintinho só tem que usar o biquinho para sair do ovo.
─ Mas ele não se sabia um pintinho nem sequer imaginava que pudesse ter um bico para utilizar como sua via de escape.
─ Ele então ia sentindo-se cada vez mais sem ar?
─ E o tempo foi passando e carregando consigo uma série de marcas que iam acumulando-se nas paredes do ovo. Ele já estava acostumado a viver no ovo e nem se importava mais com as cores que o mundo exterior poderia trazer-lhe.
─ Você disse antes que ele construíra uma figura literária, agora você fala como se tudo fosse de verdade...
─ É difícil separar a realidade da imaginação, é ainda mais difícil separar a arte da realidade, chega num ponto que não se sabe mais o que é o real.
─ Então o poeta sentia-se mesmo vivendo dentro de um ovo, Doutor?
─ Embora ele não percebesse todos os matizes da questão, ele realmente vivia dentro daquele ovo. Todo o seu pesar fora acumulado na casca, criando uma redoma da qual ele não sabia sair. Toda a culpa que ele sentia por ter destruído o seu amor havia endurecido ao redor da fina camada da casca impedindo-o de se libertar. Na realidade, ele havia perdido a noção de que vivia preso naquele ovo.
─ E o que aconteceu com ele?
─ Um dia, depois de muitos anos, ele acordou sentindo-se realmente um pintinho.
─ Ele tinha virado mesmo um pintinho, Doutor?!
─ Não, Miguilim, naquele dia ele sentiu frio, sentiu-se úmido como se realmente se apercebesse ser um pintinho ainda encharcado pela clara do ovo.
─ Igual a quando o pintinho nasce, todo molhadinho?
─ Igual mesmo. E além do frio sentiu-se todo recolhido como se as pernas e braços estivessem por muito tempo dobrados e precisassem alongar-se. Sentiu necessidade de espreguiçar-se esticando seus membros, mas não podia, estava preso.
─ E ele nem tinha um biquinho para quebrar a casca!
─ É. Ele não tinha. E assim ele ficou batendo a cabeça na casca ao espreguiçar-se. Mas sua ajuda veio de fora, veio do ser a quem o ovo fora dedicado. Baixando os olhos para cá, ela percebera que o tempo já fora demasiado para preservar aquelas promessas e, assim, por um ato de sua vontade angélica, a casca enrijecida por tanta culpa foi quebrada, libertando-o de seus pesares, e ele pôde finalmente ver a luz que antes não atravessava aquela grossa parede.
─ E ele saiu como um pintinho molhado.
─ Sentindo frio... se espreguiçando... alongando todo o corpo... Ele estava finalmente fora do ovo onde vivera por tanto tempo.
─ Agora ele podia respirar livremente.
─ Agora ele podia respirar; não mais o ar pesado daquele casulo, mas o ar natural. Depois de tantos anos ele sentiu-se um novo ser, renascido de dentro daquele ovo.
─ Mas, Doutor, afinal... ele falava ou piava?
─ Seria engraçado, Miguilim, poder dizer que ele apenas piou, mas por algum tempo ele ficou confuso, e logo não sentiu mais aquela umidade, e sentiu o corpo refeito, e então se percebeu isento de tanto peso, e sabendo-se que podia continuar a “ser” também fora do ovo.
─ Que estória mais maluca, Doutor. Acho que vou virar um ovinho aqui debaixo do cobertor e... Boa noite!




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Ensinamento
                        Adélia Prado

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.













Um comentário:

  1. Um conto muito bem elaborado e de profundo significado. Ainda bem que o pintinho teve a ajuda externa para sair da casca. Quantos filhotes não tem a mesma sorte e continuam na casca e não descobrem que há um mundo lá fora. Um conto assim leva à reflexão. A casca que se forma em torno de nós e nos transforma em escravo do que amamos, quando se ama o falso, o ilusório, etc. Acredito que muitos jamais terão consciência dela, desta prisão do amor. Esse pintinho da estória tem o mérito de se sentir sufocado, mas e aqueles que sucumbem sem pelo menos descobrir que existe um ar fresco em outro lugar e que se pode amar a liberdade.
    Espero que cada um dos leitores deste blog encontre a sua própria atmosfera. O mistério e o frescor da criação têm muitos matizes que se ajustam a cada ser que procura algo mais do que o casulo. Se para mim a casca tem atributos bem concretos, para outros acho que não os terá.
    Parabéns, um texto que leva a reflexão

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