quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O prato francês




O prato francês

Tudo acontecera muito rápido.
Há pouco mais de três anos achava-me na rodoviária de Dona Ermelinda. Despedia-me de meus pais escondendo no rosto uma máscara de alegria, pois estava de partida para a capital para realizar um vivo sonho de criança: fora convidado a fazer um teste no Atlético, o meu querido galo.
Minha determinada vontade era um dia vestir a camisa 9 que tantas alegrias trouxe-me quando honrava os pés de Reinaldo.
Fui feliz, agradei imensamente.
Dois anos depois, ainda aos dezessete, lá estava eu em pleno Mineirão. Mais que um número nas costas, havia vestido a coroa do Rei. Naquele ano peguei um atalho direto para o céu, atravessei as nuvens sem mesmo perceber que o fazia.
O moleque pobre de Dona Ermelinda foi o artilheiro do campeonato nacional. Não podia dar conta de mim, tornara-me um ídolo para os imensos atleticanos. Foi tudo revirando em uma confusão, que não me dei conta do que acontecia: primeiras páginas dos jornais, entrevistas para rádio e televisão, convites para capas de revistas e, meninas, muitas meninas. Enfrentava tudo com muita molecagem e temia acordar na minha cama em minha terrinha.
Mal pude perceber minha vida em Belo Horizonte e já se falava em Europa. Jornais noticiavam ofertas feitas pelos clubes europeus. Tornei-me, tão rápido quanto tudo acontecera, em mercadoria valiosa em leilão.
Falou-se em Arsenal, Milan, Ajax, Internationale. A cada notícia passava horas a cismar como viveria Londres, Roma, Paris; como faria para me virar se tão porcamente falava o português?
E não deixava de ter meus pesadelos à noite, sentindo a Terra ficar mais e mais distante sem apoio para meus pés, para logo acordar de repente em Dona Ermelinda com todos os meus amigos e desafetos rindo das pretensões do moleque.
Mas lá fui eu para Paris para acertar as bases de um gordo contrato. Embora meu empresário tentasse acudir-me, não conseguia ambientar-me, não havia lugar para caber minha timidez.
Para tentar deixar-me mais à vontade, para mostrar-me familiaridade, o presidente do clube convidou-me para um almoço em sua residência. Meu empresário acompanhou-me, fazia-se também de meu intérprete.
É difícil descrever o meu deslumbramento, não houve tempo para acostumar-me. Minha timidez vazava pelas minhas mãos que não sabiam se comportar; pelos meus sorrisos encabulados ao ouvir aquela algaravia de francês; pela minha boca que nem mais se lembrava de responder em português.
Além de nós, apenas o casal que nos recebia à mesa, enorme e redonda. A esposa do presidente, elegantíssima, deixava-me ainda mais sem lugar.
O almoço foi servido.
Os pratos foram servidos individualmente por um mordomo impecável que por ali ficava pronto a acudir-nos ao menor movimento. Após o prato de entrada costumeiro dos franceses, delicioso, mas inteiramente desconhecido para mim, serviu-se um pernil de cordeiro acompanhado por colorida salada.
Os olhos e o nariz comeram, muito antes que a boca, a visão e o aroma delicado que do prato subia. Enquanto comia o delicioso pernil, do meio da salada foi tomando forma algo que não me pareceu muito apetecível. Logo percebi que o algo tinha pernas.
Revirei um pouco a salada e embora não pudesse reconhecer, percebi que tinha uma forma de inseto, com asas. E uma carapaça.
Discretamente, procurei observar os outros pratos à procura de algo semelhante. Esforço inútil, não conseguia distinguir os ingredientes.
Estava confuso.
Ouvira muito sobre os estranhos hábitos alimentares dos franceses, não tendo gostado nada ao ouvir sobre os caramujos, e, por sinal, fazia questão de continuar ignorante em tais assuntos.
Devo ter ficado um longo tempo indeciso a contemplar o bichinho, pois logo o presidente veio em meu auxílio a perguntar-me se tudo estava bem. Descontrolada e apressadamente respondi que tudo estava ótimo, que nunca havia comido um carneiro tão maravilhoso.
Um estranho diálogo mudo tomou forma dentro de mim: um me dizia que aquilo era um dos estranhos ingredientes franceses; o outro achava que o acepipe era intragável; o um respondeu que eu daria vexame e feriria os anfitriões se recusasse o tal; o outro achava que aquela carapaça seria dura de mastigar e decerto horrível!
Fiquei por ali rodeando o prato com o garfo, felizmente...ou infelizmente, o mordomo não me acudiu, mas então foi a esposa do presidente:
-- Tem certeza que tudo está a contento?
Muito embaraçado respondi que sim, seguramente que sim. E, ligeirinho, um pouco sem atentar ao que fazia, peguei a iguaria com o garfo e levei-a à boca. Pude ouvir meus dentes quebrando a casca do bicho, e mais nada.
Não sei se o gosto era amargo ou divino, ou se era azedo ou picante, não sei dizer um nada. Engoli como pude o resto com a respiração suspensa.
Para ser sincero, nunca fiquei sabendo o que comi, e nunca saberei se era parte ou não da salada.
 









-o-

        O apanhador de desperdícios
                                              
                                                 Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

domingo, 27 de novembro de 2016

Na torre da igreja





Na torre da igreja


Igreja Matriz de Miracema - RJ


─ Boa noite, Dona Menina!
─ Boa noite! Que bons ventos a trazem, Dona Filinha, ou foi algum bicho que a apoquentou em casa pra expulsar você pras bandas de cá?

─ Nem lhe conto, Dona Menina, até que num parece mesmo que fui desentranhada lá de casa por um bando esconjurado de formiga? Tô de tudo desinquieta e aperreada, precisando mesmo de prosear com a Senhora Dona Menina pra modo de um desmemoriamento.

─ Mas o quê que houve, dona, que agonia mais despropositada a tomou?

─ Um trem de coisicas perrengues, Dona Menina, mas sabe como é, né? Um tico daqui, um apertinho ali, mais a precisão que num é pouca, e quando uma alma se dá conta quer inté deixar o desinfeliz vivente e pegar um pé de vento para ir falar lá com o Mestre Nosso Senhor.

─ Num se apoquente tanto, Dona Filinha, a cada dia o pão que o Senhor Jesus Cristinho nos permite para melhor servir na sua seara.

─ A Senhora Dona Menina é própria um refrigério, e foi mesmo assim mesmo que eu vim dar tento pras suas parolices e ensinanças, prum assossego do meu atarefamento.

─ E a meninada, Dona Filinha, tanto tempo não a vejo que nem sei, a quantos anda a tropa?

─ Pois num é, Dona Menina, ano que vai, ano que entra, as regra num vem e os guri num falha. Tudo adicionado e arredondado, completou treze: nove moleque e quatro guria. Fico em ponto de amalucar.

─ E a senhora ainda num tá assegurada que a natureza precisa de um adjutório?

─ Eu aprezo muito os conselho da Senhora Dona Menina, mas nesse propósito num posso praticar, né? O Zé num deixa a mim nem um tico de brecha de falar o arrazoamento.

─ Eta santa ignorância!

─ A Senhora sabe como é, né? Ele inté que vai lá levar pro Padre Joaquim as preocupação que o pão pode ser minguado pra umas tantas boca, mas o vigário entinta a fala de tanto vermelho do coisa ruim lá de baixo, que o pobre dá uma viravolta avexado.

─ Minha Virge Santíssima, proteja o roto de pedir conselho ao estropiado!  

─ E a senhora sabe, né? O vigário ajunta bem assublinhado que só a abestinência num é pecado, mas sabe como é, né? Num há modo de assuceder a tal abestinência, vai dia, menos dia, o cabresto da besta se arrebenta.

─ E aí a farra corre solta, né Dona Filhinha? Com o cabresto arrebentado sobram uns meses bens elásticos para o parque de diversão funcionar bem azeitado.

─ Pois num é, Dona Menina? Às vez a gente consegue inté umas boa compensação. Mas a Senhora Dona Menina falando dessas coisa me avexa e me avermeia.

─ Deixa estar, Dona Filinha, que o pecado mora é na cabeça que o vê. Conta pra mim das proezas dos meninos.

─ Proezas, que mané de proezas, eu cá me viro e coço e os disgramado me arrelia com traquinices. As criação lá do terreiro é que sabe bem no direito o que é bom pra tosse. Me dá uma gastura ver os desprotegido aturar as maldade daquelas peste.

─ São coisas de meninos sadios, Dona Filinha, melhor na lide das traquinices que dando aperreio em cima de uma cama.

─ Eu tento não me destrambelhar, Dona Menina, mas às vez tem hora que não dá, e o tamanco tem que chorar pra modo de dar uma chegança naqueles modo dos inferno.

─ Pra que isso, Dona Filinha, fecha um olho e toma um chazinho de camomila. Toma aqui, leva esta imagem da Virge Aparecida para ajudar a apaziguar. Coloque ela reinando em sua casa e ela ficará à coca, espreitando pela sua paz.

─ Que a Virge lhe dê ouvido, Dona Menina! Vou de certo fazer um arreglo com ela pra me fazer uma modorra.

─ E o Dadinho, Dona Filinha, quem te viu, quem te vê, a senhora deve de estar muito orgulhosa dele. Domingo na missa ele estava apurado ajudando o vigário, todo garboso naquela batina vermelha.

─ Sei não, Dona Menina, às vez fico no orgulho, às vez às avessa.

─ Eh, Dona Filinha, a senhora tá muito embrulhada, põe pé no mundo, mulher! Nem tanto ao léu, nem tanto ao créu.

─ Sabe o que é, Dona Menina, é que antonte mesmo o Padre Joaquim foi lá na chácra me fazer um reclame, deu um pito danado em eu mais o Zé.

─ E que foi que aquele dromedário foi reclamar?

─ Pois antão, ele disse que queria desautorizar o Dadinho do adjutório na missa, e assim tal que o moleque não tinha mesmo jeito de civilizar.

─ Mas que foi que o menino fez, Dona Filinha?

─ Bão, a senhora sabe como é, né? Toda tarde a igreja fica cerrada e só abre pra noite por causa das ladainhas, né? No entretanto daquele dia de tarde, teve as prédicas para um morto defunto e a igreja havera de ser aberta. Ultimada as exéquia do falecido, que nem mesmo fiquei de conhecimento do quem, o padre refechou a porta e foi tirar uma pestana.

─ Até agora não vejo assunto pra nenhum pandemônio.

─ O budum é que o Dadinho mais o primo dele, o Teté, coroinha que nem ele, enquanto o defunto restava em duro pra modo o padre desvelar suas bênção, os dois excomungado em sorrateio treparam pelo escadório da torre no conluio de chegar inté os sino. Pois foi aí que a maiada da porca torceu o rabo, pois tanto a porta da torre foi fechada como devera de ser também a da igreja.

─ Virge! Os dois ficaram bem presos na torre!

─ Sem a mais reles via de escapatória!

─ Coitados dos meninos! E como foi que deram a escapadela de lá?

─ Os dois ficou que nem mosca na pega da teia de aranha, quando se assuntaram que não tinha fugida. Galgaram em outra vez o escadório lá pelas grimpa da torre, que era só a janela que ficou pro mundo, e se tocaiaram por embaixo do sino para vislumbrar se alguma alma atalhava lá por baixo na entrada da igreja. Pra minha mitigação da injúria, os dois gambá ficaram uma pareia de tempo vislumbrando só o vazio. O sol ardido não deixava vazão pra criatura nenhuma se aventurar pelo chão fervido de pedra.

─ Mas Dona Filinha, que aflição dos coitadinhos! Que pena que me dá.

─ Que pena que nada, Dona Menina, lá em casa pena quem tem é galinha.

─ Mas e aí, Dona Filinha, conta o resto que estou em aflição pelos pobres meninos.

─ É que o tempo tarda mas finda por desempareiar no buraco da âmbula e um desinfeliz acabou por em aparecer. Os dois maroto se esgoelavam lá de cima enquanto o pobre aparvalhado procurava esclarecer se alguma andorinha dera a falar, até que avistou uma cabecinha debaixo do sino.

─ E aí?

─ Ademorou um tanto pro moço por antena que os dois tava preso lá e as peste pediram pra chamar o padre.  Emburrado por modo de ser alevantado do sono e de ter que se abatinar, lá foi o coitado abrir a porta da torre e nem viu que os desavergonhado chisparam, cada qual num lado da perna dele, no instante mesmo que mal se arreganhou a porta, e se escafederam no rumo da sacristia que sabiam ficar aberta.
─ Ave Maria! Fico feliz que os malandrinhos não foram apanhados.

─ Mas, Senhora Dona Menina, a senhora num acha que o Dadinho merecia uma esfrega das boa?

─ Mas por quê, Dona Filinha?

─ Por azucrinar o padre vigário.

─ Que nada, Dona Filinha, merecem mais é uma paga. Mula velha só funciona com umas boas lambadas. Manda os dois passar aqui que tenho uns caraminguás pra eles.  

─ Senhora Dona Menina!

─ Ah, pois, ha, ha, ha...



-o-


de Gibran Khalil Gibran:

Sete vezes desprezei minha alma:
Quando a vi disfarçar-se com a humildade para alcançar a grandeza;
Quando a vi coxear na presença dos coxos;
Quanto lhe deram a escolher entre o fácil e o difícil, e escolheu o fácil;
Quando cometeu um mal e consolou-se com a idéia de que outros cometem o mal também;
Quando aceitou a humilhação por covardia e atribuiu sua paciência à fortaleza;
Quando desprezou a fealdade de uma face que não era, na realidade, senão uma de suas próprias máscaras;
Quando considerou uma virtude elogiar e glorificar.