O
prato francês
Tudo acontecera muito rápido.
Há pouco mais de três anos achava-me na rodoviária de Dona
Ermelinda. Despedia-me de meus pais escondendo no rosto uma máscara de alegria,
pois estava de partida para a capital para realizar um vivo sonho de criança: fora
convidado a fazer um teste no Atlético, o meu querido galo.
Minha determinada vontade era um dia vestir a camisa 9 que
tantas alegrias trouxe-me quando honrava os pés de Reinaldo.
Fui feliz, agradei imensamente.
Dois anos depois, ainda aos dezessete, lá estava eu em
pleno Mineirão. Mais que um número nas costas, havia vestido a coroa do Rei. Naquele
ano peguei um atalho direto para o céu, atravessei as nuvens sem mesmo perceber
que o fazia.
O moleque pobre de Dona Ermelinda foi o artilheiro do
campeonato nacional. Não podia dar conta de mim, tornara-me um ídolo para os
imensos atleticanos. Foi tudo revirando em uma confusão, que não me dei conta do
que acontecia: primeiras páginas dos jornais, entrevistas para rádio e televisão,
convites para capas de revistas e, meninas, muitas meninas. Enfrentava tudo com
muita molecagem e temia acordar na minha cama em minha terrinha.
Mal pude perceber minha vida em Belo Horizonte e já se
falava em Europa. Jornais noticiavam ofertas feitas pelos clubes europeus. Tornei-me,
tão rápido quanto tudo acontecera, em mercadoria valiosa em leilão.
Falou-se em Arsenal, Milan, Ajax, Internationale. A cada
notícia passava horas a cismar como viveria Londres, Roma, Paris; como faria
para me virar se tão porcamente falava o português?
E não deixava de ter meus pesadelos à noite, sentindo a
Terra ficar mais e mais distante sem apoio para meus pés, para logo acordar de
repente em Dona Ermelinda com todos os meus amigos e desafetos rindo das
pretensões do moleque.
Mas lá fui eu para Paris para acertar as bases de um gordo
contrato. Embora meu empresário tentasse acudir-me, não conseguia ambientar-me,
não havia lugar para caber minha timidez.
Para tentar deixar-me mais à vontade, para mostrar-me
familiaridade, o presidente do clube convidou-me para um almoço em sua
residência. Meu empresário acompanhou-me, fazia-se também de meu intérprete.
É difícil descrever o meu deslumbramento, não houve tempo
para acostumar-me. Minha timidez vazava pelas minhas mãos que não sabiam se
comportar; pelos meus sorrisos encabulados ao ouvir aquela algaravia de
francês; pela minha boca que nem mais se lembrava de responder em português.
Além de nós, apenas o casal que nos recebia à mesa, enorme e
redonda. A esposa do presidente, elegantíssima, deixava-me ainda mais sem
lugar.
O almoço foi servido.
Os pratos foram servidos individualmente por um mordomo
impecável que por ali ficava pronto a acudir-nos ao menor movimento. Após o
prato de entrada costumeiro dos franceses, delicioso, mas inteiramente
desconhecido para mim, serviu-se um pernil de cordeiro acompanhado por colorida
salada.
Os olhos e o nariz comeram, muito antes que a boca, a visão
e o aroma delicado que do prato subia. Enquanto comia o delicioso pernil, do
meio da salada foi tomando forma algo que não me pareceu muito apetecível. Logo
percebi que o algo tinha pernas.
Revirei um pouco a salada e embora não pudesse reconhecer, percebi
que tinha uma forma de inseto, com asas. E uma carapaça.
Discretamente, procurei observar os outros pratos à procura
de algo semelhante. Esforço inútil, não conseguia distinguir os ingredientes.
Estava confuso.
Ouvira muito sobre os estranhos hábitos alimentares dos
franceses, não tendo gostado nada ao ouvir sobre os caramujos, e, por sinal, fazia
questão de continuar ignorante em tais assuntos.
Devo ter ficado um longo tempo indeciso a contemplar o
bichinho, pois logo o presidente veio em meu auxílio a perguntar-me se tudo
estava bem. Descontrolada e apressadamente respondi que tudo estava ótimo, que
nunca havia comido um carneiro tão maravilhoso.
Um estranho diálogo mudo tomou forma dentro de mim: um me
dizia que aquilo era um dos estranhos ingredientes franceses; o outro achava que
o acepipe era intragável; o um respondeu que eu daria vexame e feriria os
anfitriões se recusasse o tal; o outro achava que aquela carapaça seria dura de
mastigar e decerto horrível!
Fiquei por ali rodeando o prato com o garfo,
felizmente...ou infelizmente, o mordomo não me acudiu, mas então foi a esposa
do presidente:
-- Tem certeza que tudo está a contento?
Muito embaraçado respondi que sim, seguramente que sim. E,
ligeirinho, um pouco sem atentar ao que fazia, peguei a iguaria com o garfo e
levei-a à boca. Pude ouvir meus dentes quebrando a casca do bicho, e mais nada.
Não sei se o gosto era amargo ou divino, ou se era azedo ou
picante, não sei dizer um nada. Engoli como pude o resto com a respiração
suspensa.
Para ser sincero, nunca fiquei sabendo o que comi, e nunca
saberei se era parte ou não da salada.
-o-
O apanhador de desperdícios
Manoel de Barros
Uso a
palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

