Paraoquena
Não me recordo se ele aparecia regularmente, o tempo, então,
para nós crianças, não tinha urgência, não era contado por sua regularidade ou
não, passava simplesmente, dia sim, outro também.
Sem cuidado se o sol escaldante fervia o passeio e seus pés
descalços, surgia pelas ruas com a boca aberta, lábio inferior grosso e caído,
sempre molhado, que coloria de vermelho sua face negra; olhos desmesurados
olhando talvez para a surpresa da vida, rolando aflitos para todos os lados um
tanto descontrolados; passos trôpegos, mas largos e vigorosos; palavras
incongruentes murmurando ou, de repente, um grito desconexo; era um chamarisco
incontrolável para nossa maldade infantil aquele pobre homem que alguns copos
de pinga transformavam em um ser aloucado, apavorante e triste.
Para as crianças trazia sempre grande alvoroço, um frêmito
de medo e deboche, um desafio a nossa coragem se a proteção de um portão
conhecido nos pudesse servir de abrigo e fuga.
Abrigados, gozando nossa audácia, caras coloridas por um
riso moleque que não escondia o medo, jogávamos nosso grito à beira do portão:
- Paraoquena, pé redondo!
As ruas se agitavam com sua passagem trôpega, de um e outro
lado da rua mais crianças apareciam atraídas para a quebra da tarde
monótona que era invadida pelos nossos gritos:
- Paraoquena, pé redondo!
Ele se agitava, corria em direção a um que desaparecia para dentro
do abrigo da casa, cambaleava ao ouvir outro grito do lado contrário da rua, girava
indeciso, partia em direção ao último, mas outro grito atordoava-o, girava e corria
para só encontrar um portão fechado.
Quanto mais
crianças e quanto mais distantes, maior a gritaria e mais doida a dança
estranha do louco bêbado, sem rumo, sem prumo. Não eram gratuitos o nosso medo
e a nossa fuga, alguns moleques souberam o quanto seus braços de trabalhador
das lavouras eram fortes e rijos.
Trabalhador,
sim, pois assim ele o era, forte e capaz nos intervalos de suas loucas
aparições bêbadas pelas ruas a perseguir moleques. Isso me contou meu pai em
uma época em que talvez já pudesse interessar-me pelo contraditório: que ele
trabalhava regularmente em uma fazenda das cercanias.
Lembro-me do estranhamento que me tomava quando algumas
vezes o vi a conversar com meu pai, a quem ele muito estimava e respeitava, de
maneira natural e sensata, enquanto eu ficava receoso que ele se lembrasse que
eu fosse um dos seus atormentadores.
Eram vários
mundos diferentes que se cruzavam: o da nossa infância, o do Paraoquena,
o mundo de
trabalho do meu pai e dele, a molecagem do grito:
- Paraoquena, pé redondo!
Por que aquilo
lhe incomodava? Havia alguma ofensa da qual não tínhamos conhecimento? Ou
aquela dança louca era o colorido de sua vida sofrida que a cachaça o ajudava a
procurar?
Certa vez
ouvi de outro desses trabalhadores que escapavam pelas goelas das garrafas,
este cheio de filhos, que a cachaça era a maior das invenções humanas, pois podia-se
nela fugir de tudo.
Foi também
meu pai que me contou um dia, dia decerto de estranhezas e interrogações, que o
Paraoquena, na vida real, tinha por nome:
Adão.
-o-
A um grande poeta de Portugal
Sonho que
sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...

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