sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Paraoquena



Paraoquena



Não me recordo se ele aparecia regularmente, o tempo, então, para nós crianças, não tinha urgência, não era contado por sua regularidade ou não, passava simplesmente, dia sim, outro também.


Sem cuidado se o sol escaldante fervia o passeio e seus pés descalços, surgia pelas ruas com a boca aberta, lábio inferior grosso e caído, sempre molhado, que coloria de vermelho sua face negra; olhos desmesurados olhando talvez para a surpresa da vida, rolando aflitos para todos os lados um tanto descontrolados; passos trôpegos, mas largos e vigorosos; palavras incongruentes murmurando ou, de repente, um grito desconexo; era um chamarisco incontrolável para nossa maldade infantil aquele pobre homem que alguns copos de pinga transformavam em um ser aloucado, apavorante e triste.


Para as crianças trazia sempre grande alvoroço, um frêmito de medo e deboche, um desafio a nossa coragem se a proteção de um portão conhecido nos pudesse servir de abrigo e fuga.


Abrigados, gozando nossa audácia, caras coloridas por um riso moleque que não escondia o medo, jogávamos nosso grito à beira do portão:


- Paraoquena, pé redondo!


As ruas se agitavam com sua passagem trôpega, de um e outro lado da rua mais crianças apareciam atraídas para a quebra da tarde monótona que era invadida pelos nossos gritos:


- Paraoquena, pé redondo!


Ele se agitava, corria em direção a um que desaparecia para dentro do abrigo da casa, cambaleava ao ouvir outro grito do lado contrário da rua, girava indeciso, partia em direção ao último, mas outro grito atordoava-o, girava e corria para só encontrar um portão fechado.


Quanto mais crianças e quanto mais distantes, maior a gritaria e mais doida a dança estranha do louco bêbado, sem rumo, sem prumo. Não eram gratuitos o nosso medo e a nossa fuga, alguns moleques souberam o quanto seus braços de trabalhador das lavouras eram fortes e rijos.



Trabalhador, sim, pois assim ele o era, forte e capaz nos intervalos de suas loucas aparições bêbadas pelas ruas a perseguir moleques. Isso me contou meu pai em uma época em que talvez já pudesse interessar-me pelo contraditório: que ele trabalhava regularmente em uma fazenda das cercanias.



Lembro-me do estranhamento que me tomava quando algumas vezes o vi a conversar com meu pai, a quem ele muito estimava e respeitava, de maneira natural e sensata, enquanto eu ficava receoso que ele se lembrasse que eu fosse um dos seus atormentadores.


Eram vários mundos diferentes que se cruzavam: o da nossa infância, o do Paraoquena,

o mundo de trabalho do meu pai e dele, a molecagem do grito:



- Paraoquena, pé redondo!


Por que aquilo lhe incomodava? Havia alguma ofensa da qual não tínhamos conhecimento? Ou aquela dança louca era o colorido de sua vida sofrida que a cachaça o ajudava a procurar?



Certa vez ouvi de outro desses trabalhadores que escapavam pelas goelas das garrafas, este cheio de filhos, que a cachaça era a maior das invenções humanas, pois podia-se nela fugir de tudo.



Foi também meu pai que me contou um dia, dia decerto de estranhezas e interrogações, que o Paraoquena, na vida real, tinha por nome:



Adão.







 
-o-



                      Vaidade
                                  Florbela Espanca



                                          A um grande poeta de Portugal

 

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Nenhum comentário:

Postar um comentário