Eros e Psique
Rubem Alves nos presenteou com
uma crônica onde reclamava que os revisores corrigiam-no quando escrevia
“estória”, substituindo o termo por “história”, e, no seu final, pedia-lhes que
não o fizessem, pois não queria que nós, seus leitores, confundíssemos camelos
e beija-flores..., visto que “estória e história são tão diferentes quanto
camelos e beija-flores”.
Qual a diferença?
Usando a verve que o elevava como
um dos maiores pensadores de nosso país, ele explicou que a “história” está
enterrada no passado, no cemitério, e embora tenhamos muito a aprender com ela,
está morta, enquanto uma...
“...estória não aconteceu nunca
para que aconteça sempre...”.
Para ilustrar tudo isso,
remeteu-nos ao poema “Eros e Psique” de Fernando Pessoa, com estas palavras:
“E toda vez que o leio é como se
fosse a primeira vez, como se eu já não o soubesse de cor”.
Eis o poema:
EROS E PSIQUE
Fernando
Pessoa
...E
assim vedes, meu irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito,
e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas,
a mesma verdade.
Do
Ritual do Grau de Mestre do Átrio Na Ordem Templária de Portugal
Conta a Lenda
que dormia
Uma Princesa
encantada
A quem só
despertaria
Um Infante,
que viria
De além do
muro da estrada.
Ele tinha que,
tentado,
Vencer o mal e
o bem,
Antes que, já
libertado,
Deixasse o
caminho errado
Por o que à
Princesa vem.
A Princesa
Adormecida,
Se espera,
dormindo espera.
Sonha em morte
a sua vida,
E orna-lhe a
fronte esquecida,
Verde, uma
grinalda de hera.
Longe o
Infante, esforçado,
Sem saber que
intuito tem,
Rompe o
caminho fadado.
Ele dela é
ignorado.
Ela para ele é
ninguém.
Mas cada um
cumpre o Destino –
Ela dormindo
encantada,
Ele buscando-a
sem tino
Pelo processo
divino
Que faz
existir a estrada.
E, se bem que
seja obscuro
Tudo pela
estrada fora,
E falso, ele
vem seguro,
E, vencendo
estrada e muro,
Chega onde em
sono ela mora.
E, inda tonto
do que houvera,
À cabeça, em
maresia,
Ergue a mão, e
encontra hera,
E vê que ele
mesmo era
A Princesa que
dormia.
| Eros e Psique - Antonio Canova |
A estória quase não é uma novidade
para nenhum de nós, mas o poema! A surpresa que o seu final causa é que faz a
diferença, e quanta!
Presume-se, desde os estudos de
Jung e de outros grandes pensadores, que muitas estórias contidas nos contos de
fadas têm um significado muito mais profundo do que as palavras simples neles
utilizadas deixam revelar; que são projeções do nosso inconsciente. E este, o
que é? A nossa ciência ainda não o sabe bem, mas ainda bem que existem os
poetas que não se deixam serem manietados pelas verdades científicas.
Nossa bela adormecida, a
primeira estrofe nos conta, dorme um sono cataléptico, encerrada entre
muralhas, e só poderá ser despertada por um único infante. Atentemos para este
detalhe, pois não será qualquer belo príncipe que a poderá acordar. E o que
teria esse príncipe de especial? Seria talvez o destino do seu coração, ou
talvez sua alma gêmea... O poema não é tão singelo quanto a estória que Walt
Disney deixou-nos em filme.
A segunda estrofe nos fala um
pouco do infante, mas, estranhamente, não de um herói que combate dragões e
vilões, mas de alguém que cai no caminho da tentação. Disse “estranhamente”
porque tal fato remete-me diretamente para um episódio contado nos Evangelhos
onde Cristo foi para o deserto e foi tentado pelo demônio e, após vencê-lo,
inicia em seguida sua pregação. O nosso belo infante seguiu também esse caminho
até que um dia, libertado, poderia retomar o caminho correto que o levaria à
princesa. Seria nosso belo príncipe como o Cristo, seria esse trecho do poema
um espelho dos Evangelhos? Ou, talvez, seria o príncipe apenas o Eu?
Mas enquanto o príncipe se perde
pelos caminhos erráticos do mundo e luta contra o bem e o mal, nossa princesa
dorme e espera. Uma atitude complacente. Mas teria ela consciência de sua
postura de espera? “Sonha em morte a sua vida”, mais tarde utilizarei um outro
trecho do Evangelho de João para tecer um paralelo com este verso.
Seguindo a leitura, na quarta
estrofe o infante mostra-se inconsciente de seus atos, seguindo o destino do
seu caminho, sem nada supor que vai em direção à princesa, de quem não tem a
menor percepção. E ela também ignora que o infante trilha o seu caminho, mas
então, pelo quê ela espera? Ela só espera...
A inconsciência de ambos da
presença do outro não impede que os dois se busquem, pois o processo do
encontro não depende das suas vontades. E o príncipe segue cego, o caminho é
muito difícil, vence a estrada e depara-se com o muro que encerra a princesa.
Embora o poeta não o diga, podemos imaginar este muro como as muralhas de Jericó,
defendidas ferrenhamente por inimigos que não se entregarão facilmente, e o
poeta diz que o processo é divino, portanto, nada demais supor que o príncipe
poderia contar com as trombetas que Josué utilizou para derrubar as muralhas.
Ao som das trombetas, as
muralhas que envolvem o inconsciente se quedam e o infante percebe que ele
próprio era a princesa que sonhava.
Acho que agora percebemos que a
estória nos fala de algo tão simples que só uma criança perceberia, por isso
mesmo é um conto de fadas: temos que atravessar estradas tão árduas para
podermos voltar a encontrar aquele ser com que sonhamos por toda a estrada,
qualquer que seja o nome que nos acostumamos a chamá-lo, tais como, alma,
espírito, self, logos, ou o que sei mais eu...
Quando Cristo se retira para o
deserto, podemos entender que ele se retira para dentro de si mesmo, para a
solidão desértica da sua vida interior, e lá de dentro busca as trombetas
capazes de derrubar as muralhas que nada mais são que a nossa pretensa
consciência. Mas um ser que não enfrenta os perigos da estrada, que não acumula
em sua bagagem os frutos da árvore do conhecimento, jamais poderia descer tão
fundo onde jazem as trombetas, guardadas pelo nosso maior inimigo, o demônio
que tanto tememos, ou melhor dizendo, o nosso próprio Eu.
Acima fiz uma referência a um
texto do Evangelho de João para posterior comentário, ei-lo:
“Em verdade, em verdade, te
digo:
quando eras moço,
cingias-te a ti mesmo
e andavas por onde querias;
quando, porém, fores velho,
estenderás as mãos,
um outro te atará
e te levará para onde não
queres.”
(João
21,18)
Este versículo acha-se quase no
final do livro de João, após a ressurreição de Cristo. Nele Cristo fala a
Pedro, em seguida existe um comentário que afirma que ele o disse para mostrar
com que tipo de morte Pedro haveria de glorificar a Deus.
Mas onde está a morte nesse
texto? Por isto o paralelo com o verso onde a princesa sonha em morte a sua
vida.
Cristo diz a Pedro que enquanto
jovem ele se conduzirá pela vida, escolhendo as estradas a seu bel prazer, bem
como o nosso infante, arremessando-se contra muralhas e moinhos de vento,
porém, ao amadurecer, dobrado pela vida, ele se deixaria levar por um outro com
as mãos atadas. E quem seria este outro?
Como a princesa morta em vida,
este outro também está morto em vida. Necessário então ressuscitá-lo, deixá-lo
tomar o lugar que sempre esteve a sua espera. E, então, ressuscitado, deixá-lo
conduzir para onde (achava que) não queria ir.
Cristo também falou sobre a Bela
Adormecida.
Os dois textos contam
simplesmente a mesma “estória”.
-o-
... temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como fatos, e temos outros indivíduos que se classificam como ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras.
Joseph Campbell (do livro Isto És Tu)
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