terça-feira, 22 de novembro de 2016

Eros e Psique





Eros e Psique



                                                                        



Rubem Alves nos presenteou com uma crônica onde reclamava que os revisores corrigiam-no quando escrevia “estória”, substituindo o termo por “história”, e, no seu final, pedia-lhes que não o fizessem, pois não queria que nós, seus leitores, confundíssemos camelos e beija-flores..., visto que “estória e história são tão diferentes quanto camelos e beija-flores”.

Qual a diferença?

Usando a verve que o elevava como um dos maiores pensadores de nosso país, ele explicou que a “história” está enterrada no passado, no cemitério, e embora tenhamos muito a aprender com ela, está morta, enquanto uma...



“...estória não aconteceu nunca para que aconteça sempre...”.



Para ilustrar tudo isso, remeteu-nos ao poema “Eros e Psique” de Fernando Pessoa, com estas palavras:

“E toda vez que o leio é como se fosse a primeira vez, como se eu já não o soubesse de cor”.

Eis o poema:



                                        EROS E PSIQUE

                                                                  Fernando Pessoa



...E assim vedes, meu irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio Na Ordem Templária de Portugal





Conta a Lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.



Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.



A Princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.



Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.



Mas cada um cumpre o Destino –

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.



E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.



E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

                                                                      




Eros e Psique - Antonio Canova


  

A estória quase não é uma novidade para nenhum de nós, mas o poema! A surpresa que o seu final causa é que faz a diferença, e quanta!

Presume-se, desde os estudos de Jung e de outros grandes pensadores, que muitas estórias contidas nos contos de fadas têm um significado muito mais profundo do que as palavras simples neles utilizadas deixam revelar; que são projeções do nosso inconsciente. E este, o que é? A nossa ciência ainda não o sabe bem, mas ainda bem que existem os poetas que não se deixam serem manietados pelas verdades científicas.   

Nossa bela adormecida, a primeira estrofe nos conta, dorme um sono cataléptico, encerrada entre muralhas, e só poderá ser despertada por um único infante. Atentemos para este detalhe, pois não será qualquer belo príncipe que a poderá acordar. E o que teria esse príncipe de especial? Seria talvez o destino do seu coração, ou talvez sua alma gêmea... O poema não é tão singelo quanto a estória que Walt Disney deixou-nos em filme.

A segunda estrofe nos fala um pouco do infante, mas, estranhamente, não de um herói que combate dragões e vilões, mas de alguém que cai no caminho da tentação. Disse “estranhamente” porque tal fato remete-me diretamente para um episódio contado nos Evangelhos onde Cristo foi para o deserto e foi tentado pelo demônio e, após vencê-lo, inicia em seguida sua pregação. O nosso belo infante seguiu também esse caminho até que um dia, libertado, poderia retomar o caminho correto que o levaria à princesa. Seria nosso belo príncipe como o Cristo, seria esse trecho do poema um espelho dos Evangelhos? Ou, talvez, seria o príncipe apenas o Eu?

Mas enquanto o príncipe se perde pelos caminhos erráticos do mundo e luta contra o bem e o mal, nossa princesa dorme e espera. Uma atitude complacente. Mas teria ela consciência de sua postura de espera? “Sonha em morte a sua vida”, mais tarde utilizarei um outro trecho do Evangelho de João para tecer um paralelo com este verso.

Seguindo a leitura, na quarta estrofe o infante mostra-se inconsciente de seus atos, seguindo o destino do seu caminho, sem nada supor que vai em direção à princesa, de quem não tem a menor percepção. E ela também ignora que o infante trilha o seu caminho, mas então, pelo quê ela espera? Ela só espera...

A inconsciência de ambos da presença do outro não impede que os dois se busquem, pois o processo do encontro não depende das suas vontades. E o príncipe segue cego, o caminho é muito difícil, vence a estrada e depara-se com o muro que encerra a princesa. Embora o poeta não o diga, podemos imaginar este muro como as muralhas de Jericó, defendidas ferrenhamente por inimigos que não se entregarão facilmente, e o poeta diz que o processo é divino, portanto, nada demais supor que o príncipe poderia contar com as trombetas que Josué utilizou para derrubar as muralhas.

Ao som das trombetas, as muralhas que envolvem o inconsciente se quedam e o infante percebe que ele próprio era a princesa que sonhava.

Acho que agora percebemos que a estória nos fala de algo tão simples que só uma criança perceberia, por isso mesmo é um conto de fadas: temos que atravessar estradas tão árduas para podermos voltar a encontrar aquele ser com que sonhamos por toda a estrada, qualquer que seja o nome que nos acostumamos a chamá-lo, tais como, alma, espírito, self, logos, ou o que sei mais eu...

Quando Cristo se retira para o deserto, podemos entender que ele se retira para dentro de si mesmo, para a solidão desértica da sua vida interior, e lá de dentro busca as trombetas capazes de derrubar as muralhas que nada mais são que a nossa pretensa consciência. Mas um ser que não enfrenta os perigos da estrada, que não acumula em sua bagagem os frutos da árvore do conhecimento, jamais poderia descer tão fundo onde jazem as trombetas, guardadas pelo nosso maior inimigo, o demônio que tanto tememos, ou melhor dizendo, o nosso próprio Eu.

Acima fiz uma referência a um texto do Evangelho de João para posterior comentário, ei-lo:



“Em verdade, em verdade, te digo:

quando eras moço,

cingias-te a ti mesmo

e andavas por onde querias;

quando, porém, fores velho,

estenderás as mãos,

um outro te atará

e te levará para onde não queres.”

                                        (João 21,18)



Este versículo acha-se quase no final do livro de João, após a ressurreição de Cristo. Nele Cristo fala a Pedro, em seguida existe um comentário que afirma que ele o disse para mostrar com que tipo de morte Pedro haveria de glorificar a Deus.

Mas onde está a morte nesse texto? Por isto o paralelo com o verso onde a princesa sonha em morte a sua vida.

Cristo diz a Pedro que enquanto jovem ele se conduzirá pela vida, escolhendo as estradas a seu bel prazer, bem como o nosso infante, arremessando-se contra muralhas e moinhos de vento, porém, ao amadurecer, dobrado pela vida, ele se deixaria levar por um outro com as mãos atadas. E quem seria este outro?

Como a princesa morta em vida, este outro também está morto em vida. Necessário então ressuscitá-lo, deixá-lo tomar o lugar que sempre esteve a sua espera. E, então, ressuscitado, deixá-lo conduzir para onde (achava que) não queria ir.

Cristo também falou sobre a Bela Adormecida.

Os dois textos contam simplesmente a mesma “estória”.



-o-

 ... temos  pessoas  que  se  consideram  crentes  porque  aceitam metáforas como fatos, e temos outros indivíduos que se classificam como ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras.
 
                                                                                         Joseph Campbell (do livro Isto És Tu)

 






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