O Chá de Dona Menina
─ Bom dia, comadre!
─ Bom dia, Dona Mariinha!
─ Como vai passando a
Dona Menina?
─ Como sempre assim do
melhor em aprazendo a luz do sol.
─ Dá pra notar, a comadre
tá sempre no azul, num tem má hora. Mais parece um passarim solto aí pelo largo
mundo de Deus.
─ E por que num devia
de ser assim, comadre? O sol num tá todo dia brilhando, o vento num tá farto pra
modo a gente poder respirar?
─ Num sei não, comadre,
essa viveza é de dar uma danada inveja na gente que vive mofina pelas cercas da
vida!
─ Besteira, inveja de
um caco velho deste!
─ É, mas andam de
falar por aí que a senhora mais parece até ter um acordo com aquele coisa.
─ Virge!
─ Corre um zunzunzum por
aí. Uns meninos até já dão uns volteios só por medo de passar por cá.
─ Deveras, comadre,
por que más línguas andei assim a passear? Nunca buli com ninguém, não mexo em
casa de maribondo e não levo minha colher pro alheio, por que um alguém haveria
de ter medo cá de mim?
─ Falam pelas
tramelhas por aí, comadre, mas eu cá também fico assuntando como pode de ser
que nunca pus meus olhos na comadre que não tivesse abarrotada de saúde!
─ Graças ao meu Bom Jesus
Cristinho e a sua Santa Mãezinha, mas também tenho meus segredos.
─ Segredos, Dona
Menina, antão é vero?
─ Vero quê, Dona Mariinha,
que tenho acordo com o coisa?
─ Pois antão, é...?
─ Dona Mariinha, tô
quase a me destrambelhar, já tô pedindo ajuda a meus santos pra conter meu
amargor, que num quero machucar meu dia.
─ Me desculpe, Senhora
Dona Menina, mas falam tanto por riba de tudo e a comadre inda fala de segredo.
─ Estou mesmo a
perceber, a comadre hoje veio cá escarafunchar pra depois andar por aí a
mexericar?
─ Não me avexe, Dona
Menina, vê lá se tenho tempo pra sarabundear. É só por estar com o olho esperto
de curioso no que Dona Menina nunca pega nem um tico de arresfriado.
─ Já disse e redisse
que são meus segredos.
─ Senhora Dona Menina
tá bulindo comigo pra arrematar minha tensão. Vamos, comadre, pela nossa veneranda
amizade, diz logo lá o tal segredo.
─ Bem, Dona Mariinha,
posso lhe falar no pé do ouvido, mas muito me aperreia pensar em ver isso na
boca do povo.
─ Adjuro, comadre, eu
cá comigo sou tumba.
─ O segredo, comadre,
... é que eu tenho uma lasquinha do lenho...
─ Do lenho?
─ Do lenho, sim.
─ Do lenho... de Nosso
Senhor Jesus Cristo?
─ É.
─ Virge Maria! Da
cruz?
─ Só é.
─ Nem acredito, comadre,
como há de ser possível?
─ Pois, comadre, é
vero.
─ E se mal lhe pergunto,
comadre, como a senhora arrumou?
─ Foi presente da
minha vozinha, que Deus a guarde.
─ Que prenda preciosa!
Mas, comadre, basta ter o pedaço do lenho pra ficar sempre assim nos conforme e
nunca sofrer dos males?
─ Não, comadre, basta
não, tem que tomar o chá.
─ Chá do lenho?
─ Pois.
─ Senhora Dona Menina, num haveria uns modos de ... pela nossa comadrice... de me arrumar um tiquinho, bem mirradim, de uma lasquinha da sua lasquinha?
─ Posso não, comadre!
─ Comadre, a senhora tá
de arrelia comigo, que despropósito de egoísmo!
─ Num é egoísmo não, comadre,
eu bem ficaria feliz de poder ajudar, mas não posso.
─ E não! Por quê?
─ A lasquinha já é tão
mirradinha que num tem mais jeito não de tirar pedacim.
─ Mas antão quando a
senhora fizer um chazinho... podia dar um jeito de arrumar um cadiquinho pra
sua comadre aperreada aqui...
─ Posso não, comadre!
─ Pru cade quê!... comadre?
─ Minha vozinha me
tinha alertado, encarecido a mim, que num podia passar pra ninguém que não fosse
da família e de fé.
─ Ah, mas é...?
─ Pois.
─ Que malvadeza!... Desculpe,
comadre, num tô falando da senhora, é que... Mas por que haveria de ser assim?
─ Uma vez, comadre... ah,
não, acho que nem devo contar.
─ Contar o quê, comadre?
Desembucha logo por causa eu cá sou toda desolação.
─ É um pecado meu,
fico vexada de contar.
─ Vexada tô eu, mulher.
─ É que uns tempos atrás,
num sei se comadre se alembra, eu tinha uma cadelinha.
─ Ah, pois, deveras,
alembro sim da Catitinha.
─ Então também se
alembra que eu morria de amor por ela, de paixão, toda branquilelinha, quando
eu punha ela nos meus braços e apertava era mesmo que afundar num travesseirinho
feito pros anjinhos do céu. Que dó quando alembro.
─ E o que se assucedeu
com a Catitinha?
─ Um dia ela ficou doente
das tripas. Começou a botar tudo pra fora que não tinha remedeio pra parar. Eu
fiquei em males de agoniada, a pobrezita ali quase se envirando pelo avesso, já
sem nada pra evacuar. Meu coraçãozim num aguentou mais, olvidei os preceitos da
minha vozinha e dei um pouquinho de chá pra minha fofinha, um tiquito, umas
gotinhas só.
─ E aí, comadre, o
bichim logo sarou!
─ Morreu!
─ Ai, comadre, Deus
acuda, mas como foi isso?
─ A Catitinha disparou
a vomitar também, e aí, pronto. Não tinha mais nada pra botar pra fora e inda
saía pros dois lados.
─ Ô, dó!
─ ...
─ Mas, comadre,
cachorro bicho é, sem ofensa com a Catitinha que até gente parecia, num será
que com gente é diferente?
─ Sei não, comadre,
num me arrisco não, é a mesma coisa da mesma coisa só que diferente com essas
coisas lá de Deus e essas coisas de fé.
─ Mas olha bem, comadre,
tô aqui assuntando com minha abestalhadice, antão a senhora nunca haverá de
morrer?
─ Tá abestalhada mesmo,
comadre, e por que não haveria?
─ Ora, comadre, a
pois, qualquer dorzinha que aparece o chá num cura?
─ Dor, cura!
─ Pois antão.
─ Mas há uns tipos de
dor que num cura.
─ E que maldita dor
seria esta, comadre?
─ Ô comadre amalucada,
acha que eu haveria de querer viver pra sempre? Deus me livre e guarde, viver
sozinha pelo mundo, só eu sem os meus amores?
─ Uai, comadre, é só
arrumar outros amores!
─ Virge, comadre, num
se abeste! E como faria pra acabar com a saudade que levaria na alma?
─ Seria triste...
─ Por isso já me decidi,
comadre, quando o meu véio se for, passo a lasquinha do lenho pra minha
bisnetinha.
─ Adesculpe, comadre,
cá comigo já sarei a minha bestice, melhor mesmo assim.
─ Pois.
***
de Jayme Ovalle:
Se eu morresse nesse
momento
Mal o perceberia.
Seria levado nos ares
Mais alto do que as
estrelas.
E o Senhor, à porta do
céu,
Esperar-me-ia com sua
Mãe,
E seus anjos e
discípulos.
E eu,
Como fazem, ao nascer,
todas as crianças,
Haveria de chorar.

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