sábado, 19 de novembro de 2016

O Beija-Flor




 O Beija-Flor


 ─ Doutor, hoje na escola nós começamos a estudar as aves.
-- Que bom, Miguelim, é um belo motivo de estudos, você não acha?
-- É sim, eu gosto muito dos passarinhos, e em aprendendo mais sobre eles eu fico tonto de empolgado. Lá no Mutum eu num gostava nem de ver as maldades que os outros meninos faziam com eles.
-- Maldades, Miguilim, que maldades?
-- Ah, maldades! Prender os bichinhos na gaiola, caçar com estilingue...
-- Mas isso são coisas de meninice, porque fazem sem um nada perceber... de ver os outros fazerem, não põem tento na ação.
-- Eu sei que assim é, eu também fiz uma vez...
-- Você tinha um passarinho na gaiola?
-- Não, muito pior.
-- Muito pior, como foi isso, Miguilim?
-- É como o senhor falou, de convívio com os outros meninos eu queria ser tal que eles. Eu muito que queria também ter um bodoque.
-- Coisas de meninos, Miguilim, é bem um apetrecho muito desejado.
-- Calhou que eu mesmo fiz um pra mim. Cacei de tudo o que eu precisava. Tinha uma câmara de ar furada da bicicleta de pai, eu cortei dela duas tiras. Num pé de goiaba achei um gancho bem alinhado, bem no jeito certo, certinho de um Y. Lixei tudo direitinho, ficou uma beleza. Depois eu só fui cortar um retalho de couro para fazer a funda, amarrar tudo bem amarradinho, e, pronto, fiquei todo presunçoso com minha arma.




-- Que bom, Miguilim, você deve ter ficado num danado de orgulho.
-- Aí, pra eu ser capaz de mais mira, porque as pedras que a gente acha são todas com disforme, eu pegava barro, arrodiava um tanto na colher das mãos e fazia bolebas para munição; aí eu deixava secar no sol e elas ficavam duras e redondinhas
-- E tinham então um bom poder de fogo!
-- Eu gostava de usar nos pés de manga para tirar as frutas que ficavam muito altas.
-- E para matar passarinhos?
-- Por causa das minhas vistas meio que embaçadas, que o senhor me deu jeito, eu num tinha a mira muito boa e não era muito capaz de acertar de longe os passarinhos. Eu via os outros moleques caçar as rolinhas e ficava danado de querer conseguir igual, mas num tinha mesmo maneira de ter precisão.
-- Vai ver, Miguilim, que você tinha dó dos bichinhos e errava de propósito...
-- Bom, isso não sei eu. Mas um dia, injuriado daquela mira ruim, divisei um caga-sebo num pezinho de goiaba mirrado e fui pé ante pé devagarzinho bem perto, em cuidado para o bichinho não espantar e avoar, e, aí, mandei uma bolota nele. O pobre do caga-sebinho só ficou judiado em uma perninha, que ele nem mais pousava ela nos galhos. Tomei um baita de desgosto na hora, mas fiquei também com pena dele ficar vivo sofrendo... e, aí, mandei outra boleba para acabar com a dor dele... e outra... até ele cair.


-- E você não ficou nada orgulhoso de sua façanha.
-- Não, Doutor, e nunca contei pra ninguém do meu malfeito, só agora...
-- Bem, Miguelim, isso foi-lhe uma boa lição. Você sentiu-se incomodado porque traz dentro de si bons sentimentos.
-- Nunca mais quis praticar nada parecido, Doutor.
-- São águas passadas, você não deve ter vergonha, pelo contrário.
-- Um dia, Doutor, eu achei um filhotinho de beija-flor no terreiro lá de casa. Pequetito, devia de estar aprendendo a avoar ou caiu do ninho, porque estava com uma asinha machucada e ele não conseguia avoar.
-- E aí, o que você fez?
-- Aí, como ele devia de estar afeito ao ninho, eu arrumei uma caixinha pra fazer um pra ele. Forrei com um pedaço de feltro maciinho, coloquei ele lá dentro e levei pro meu quarto.
-- Você ficou como responsável pela vida do bichinho.
-- Foi, Doutor, mas eu cuidei dele direitinho. Num queria saber de mal lhe acontecer, todo o tempo eu ia lá ver como ele estava.
-- E a comida, Miguelim, o que você fez para tratar dele?
-- Ah, eu usei mel. Mexia um teco de mel com água pra dar pra ele. Aí eu arrumei um conta-gotas e com muito jeitinho ia pondo dentro do biquinho dele.
-- E pelo que parece deu tudo certo.
-- De uns dias ele mesmo principiou a beber sozinho. Todo dia eu colocava o suquinho de mel numa panelinha pra ele.
-- Então, ele sobreviveu?
-- As asinhas dele foram ficando saradas e ele até começou a sair da caixinha. Eu cerrava a porta e a janela do quarto e ele podia treinar avoar. Tem vez que eu ficava horas lá com ele, teso de felicidade vendo ele agitado avoar de um móvel pro outro e voltar voluteando pra caixinha.
-- Muito bem, Miguelim, você foi uma ótima mãe para ele.
-- Aí, depois que já avoava bem, eu pensei que já era tempo de deixar ele ir embora.
-- E então, o que você fez?
-- Num momento que ele estava quietinho dentro da caixinha, eu tampei ela e levei lá pro terreiro de casa. Tirei a tampa, ele pulou na beiradinha dela, olhou de um viés pro outro, e avoou.
-- Que bonito, hem Miguelim?
-- Bonito nada, Doutor, horrível!
-- Por quê, Miguelim, você já estava sentindo falta dele?
-- Não doutor, tão logo que ele avoou, um tantinho de nada, do alto da mangueira disparou um bem-te-vi e pimba!, acertou meu beija-florzinho no ar.
-- E você o pegou de novo?
-- Peguei, Doutor, mas não teve jeito, ele já estava todo mortinho! Só de lembrar, Doutor, eu choro...

-o-

                 

    The Mythical Lover                                                               O Amante Mítico
                Mevlana Jalaluddim Rumi                                                                            (por mim traduzido assim)
  

My love for you                                                                       Meu amor por ti
has driven me insane                                                                levou-me à loucura

I wander aimlessly                                                                   Eu ando sem rumo
the ruins of my life,                                                                  pelas ruínas de minha vida,
my old self a stranger to me                                                     meu velho eu me é estranho

Because of your love                                                                Por causa do teu amor
I have broken with my past                                                      rompi com meu passado

My longing for you                                                                  Meu desejo por ti
keeps me                                                                                   mantém-me
in this moment                                                                          no presente
My passion                                                                               Minha paixão
gives me courage                                                                      dá-me coragem

I look for you                                                                           Eu procuro por ti
in my innermost being                                                             no meu ser mais profundo

I used to read                                                                           Eu costumava ler
the myths of love                                                                     os mitos do amor
Now I have become                                                                 Agora eu me tornei
the mythical lover                                                                    o amante mítico

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