sábado, 26 de novembro de 2016

Vênus


I
Vênus


                                                                           Os fados guiam aquele que assim o deseje, aquele que não deseja
                                                                           eles arrastam. (Sabedoria antiga, autoria desconhecida)

                                                          

               noite em névoas
               no oásis
                        o sopro do vento
                        o frio
               o viandante exausto
               sem
                   abrigo
 
               Júpiter espreita
                       compadecido
               pede a Vênus
                       que sorva o vento
 
               a névoa noite
                       se desfaz
               o milagre da água
                       se refaz
               no oásis
               o viandante se prostra
                           de joelhos
 
piter sorri:
                       em minha luz
                       entrarás
                       teu novo reino
               dos olhos de Vênus
               lágrimas de prata
               iluminam
                        o oásis     

 Nem tudo o que se escreve deixa-se revelar com todo seu significado possível no momento em que é feito, em certos casos é o inconsciente que se faz de autor. Ao passar dos anos, certas nuances aparecem que sequer se sonhava antes. Este poeminha tem muito desses significados que amadureceram com os anos vividos, pois ele já completou sua maioridade com seus mais de 21 anos.

Num primeiro olhar, encontramos o infante, que ia à procura da bela adormecida, exausto pela jornada no deserto chegando a um oásis que lhe permite descanso, mas a inclemência do tempo ainda o maltrata. Ele pode estar no limite das suas forças, sentindo-se o último do gênero, mas,  
guerreiro que é, pode não querer interceder aos deuses, pode não acreditar no valor de uma oração e está preparado para o pior. No entanto, ele nem sequer imagina que naquele momento o divino já decidira que seu sofrimento havia sido bastante e chegada era a hora de despertar do sono letárgico, e o milagre acontece no deserto, deixando-o atordoado ao tomar sentido que nunca estivera sozinho. O guerreiro, enfim vencido, joga-se nos joelhos e envergonhado se redime. Os céus então festejam a entrada do guerreiro em seu novo reino.

Vênus, em seu aspecto de estrela matutina, quando desvanece no céu anuncia um recomeço da vida que despertará no calor do sol. Conta a lenda que três magos um dia a viram brilhar e seguiram seu rastro, ou seu caminho de luz, e encontraram um menino que trouxe ao mundo uma nova vida.

Para os gregos a encarnação do princípio que representava a Vênus do mundo latino era Afrodite, deusa do amor e da beleza, nascida da espuma gerada pela fecundação do mar com o sêmen de Urano, que tivera seus testículos mutilados e lançados ao mar por seu filho Cronus. Nesta lenda vemos dois aspectos relevantes: o filho que se rebela contra o pai dominador, aspecto bastante explorado por Freud em sua obra, e o nascimento do feminino a partir da perda da singularidade do masculino. 

O Nascimento de Vênus - Sandro Botticelli



No primeiro aspecto, quando Vênus nasce traz ao mundo uma nova luz, o velho é substituído pelo novo, o mundo antigo se deixa renovar por uma nova esperança, o pai dominante, cansado, deixa seu reino ao filho, jovem que traz em si novas forças capazes de revivificar o mundo. 

No segundo aspecto vemos a separação do feminino, estória que nos lembra um mito que nos é mais familiar, contado no Gênesis, quando Eva foi retirada da costela de Adão. É interessante observar que Urano representava o Céu, o Paraíso do Gênesis, portanto, quando o feminino é separado do masculino nasceu o homem imerso na dualidade entre ser e não ser e foi assim expulso do paraíso da sua não consciência. Até então a árvore do conhecimento do bem e do mal era-lhe desconhecida e não desejada, e a partir de então, o homem caído neste nosso mundo passa a viver sua transitoriedade imerso em dúvida, agora sob a égide de Cronus, que o protege, mas cobra seu preço devorando-o pouco a pouco. 

Urano era casado com Gaia, a Terra, e depois de sua castração ainda com ela dormia, mas já não podia mais fecundá-la, tarefa que nos foi entregue: crescei e multiplicai-vos. Todos esses mitos têm uma base comum, todos somente querem lembrar-nos que temos intrinsecamente um algo que foi perdido e ao qual desejamos retornar, à unidade do não tempo, o libertarmo-nos de Cronus. 

Quando escrevi este poema estava vivendo um turbilhão em minha vida que ocasionou uma total reviravolta em tudo o que eu não acreditava. Naqueles momentos eu ainda não tinha consciência do processo pelo qual estava passando, mas ele já estava em curso. Hoje vejo que o poema traduziu o que me aconteceria.


II

                           Eu sempre que parti, fiquei nas gares
                          Olhando, triste, para mim...
                                                             Mário Quintana

Eu não estava mais reconhecendo-me e nutria um enorme desprezo por quem ali estava. Enfim, eu estava com saudade de mim mesmo:

               ondas de choque
               tremores          
               instala-se a noite

               o escuro
               o nada de luz
                       que fiz eu?
                       da minha luz?

               há muito
               apaguei o Sol
                       como poderia?
                       querer-te?
                       Luz?

               maior o seu calor
               menos o recebia

               em trevas
               volto a procurar-te
               humilde
               participo da ceia

               descrubo-me
               verto meu coração
                       pois não sabia?
                       não queria?
                       ver-Te? 

O momento inicial de mudança foi no dia em que bati no fundo de uma piscina e abri uma grande ferida em minha cabeça, felizmente apenas epidérmica. No instante em que toquei o fundo lembro-me de pensar comigo mesmo, Ih, abriu! Mal sabia eu que a abertura da cabeça também estava acontecendo em outro sentido. Joseph Campbell escreveu: "Passar por uma transformação da própria consciência é uma experiência terrível". 

E foi assim que me deparei num deserto e encontrei a "Raquel". No poema dei-lhe o nome de Vênus, confundindo talvez a criadora com a criatura, pois melhor talvez considerar que a deusa, como o fez para Pigmalião, tenha dado vida à imagem dos meus sonhos e através dela foi meu deserto iluminado com uma chuva de lágrimas como fogos de artifício. É claro que ela não se chamava Raquel nem Vênus, senão teria sido muito fácil reconhecê-la.

 -o-


Segunda canção do peregrino

                           Guilherme de Almeida



Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e dele fiz o meu bordão.

Foi minha vista e foi meu tacto:

Constantemente foi o pacto

que fez comigo a escuridão.       



Pois nem fantasmas, nem torrentes,

nem salteadores, nem serpentes

prevaleceram no meu chão.

Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei por que razão.

Mas, certa vez, parei um pouco,
e ouvi gritar: -- “Aí vem o louco
que leva  uma árvore na mão!”

E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, luzes, cores...
-- Tinha florido o meu bordão.
 







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