I
Vênus
Os fados guiam aquele que assim o deseje, aquele que não deseja
eles arrastam. (Sabedoria antiga, autoria desconhecida)
noite em névoas
no oásis
o sopro do vento
o frio
o viandante exausto
sem
abrigo
Júpiter espreita
compadecido
pede a Vênus
que sorva o vento
a névoa noite
se desfaz
o milagre da água
se refaz
no oásis
o viandante se prostra
de joelhos
Júpiter sorri:
em minha luz
entrarás
teu novo reino
dos olhos de Vênus
lágrimas de prata
iluminam
o oásis
Nem
tudo o que se escreve deixa-se revelar com todo seu significado possível no
momento em que é feito, em certos casos é o inconsciente que se faz de autor. Ao
passar dos anos, certas nuances aparecem que sequer se sonhava antes. Este
poeminha tem muito desses significados que amadureceram com os anos vividos, pois
ele já completou sua maioridade com seus mais de 21 anos.
Num
primeiro olhar, encontramos o infante, que ia à procura da bela adormecida, exausto
pela jornada no deserto chegando a um oásis que lhe permite descanso, mas a
inclemência do tempo ainda o maltrata. Ele pode estar no limite das suas forças,
sentindo-se o último do gênero, mas,
guerreiro que é, pode não querer interceder aos
deuses, pode não acreditar no valor de uma oração e está
preparado para o pior. No entanto, ele nem sequer imagina que naquele momento o
divino já decidira que seu sofrimento havia sido bastante e chegada era a hora
de despertar do sono letárgico, e o milagre acontece no deserto, deixando-o atordoado
ao tomar sentido que nunca estivera sozinho. O guerreiro, enfim vencido, joga-se
nos joelhos e envergonhado se redime. Os céus então festejam a entrada do
guerreiro em seu novo reino.
Vênus,
em seu aspecto de estrela matutina, quando desvanece no céu anuncia um recomeço da vida que despertará no
calor do sol. Conta a lenda que três magos um dia a viram brilhar e seguiram
seu rastro, ou seu caminho de luz, e encontraram um menino que trouxe
ao mundo uma nova vida.
Para os gregos a encarnação do princípio que
representava a Vênus do mundo latino era Afrodite, deusa do amor e da beleza, nascida
da espuma gerada pela fecundação do mar com o sêmen de Urano, que tivera seus
testículos mutilados e lançados ao mar por seu filho Cronus. Nesta lenda vemos
dois aspectos relevantes: o filho que se rebela contra o pai dominador, aspecto
bastante explorado por Freud em sua obra, e o nascimento do feminino a partir
da perda da singularidade do masculino.
![]() | ||
| O Nascimento de Vênus - Sandro Botticelli |
No primeiro aspecto, quando Vênus nasce traz ao mundo uma nova luz, o velho é substituído pelo novo, o mundo antigo se deixa renovar por uma nova esperança, o pai dominante, cansado, deixa seu reino ao filho, jovem que traz em si novas forças capazes de revivificar o mundo.
No segundo aspecto vemos a separação do feminino, estória que nos lembra um mito que nos é mais familiar, contado no Gênesis, quando Eva foi retirada da costela de Adão. É interessante observar que Urano representava o Céu, o Paraíso do Gênesis, portanto, quando o feminino é separado do masculino nasceu o homem imerso na dualidade entre ser e não ser e foi assim expulso do paraíso da sua não consciência. Até então a árvore do conhecimento do bem e do mal era-lhe desconhecida e não desejada, e a partir de então, o homem caído neste nosso mundo passa a viver sua transitoriedade imerso em dúvida, agora sob a égide de Cronus, que o protege, mas cobra seu preço devorando-o pouco a pouco.
Urano era casado com Gaia, a Terra, e depois de sua castração ainda com ela dormia, mas já não podia mais fecundá-la, tarefa que nos foi entregue: crescei e multiplicai-vos. Todos esses mitos têm uma base comum, todos somente querem lembrar-nos que temos intrinsecamente um algo que foi perdido e ao qual desejamos retornar, à unidade do não tempo, o libertarmo-nos de Cronus.
Quando escrevi este poema estava vivendo um turbilhão em minha vida que ocasionou uma total reviravolta em tudo o que eu não acreditava. Naqueles momentos eu ainda não tinha consciência do processo pelo qual estava passando, mas ele já estava em curso. Hoje vejo que o poema traduziu o que me aconteceria.
II
Eu sempre que parti, fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...
Mário Quintana
Mário Quintana
Eu não estava mais reconhecendo-me e nutria um enorme desprezo por quem ali estava. Enfim, eu estava com saudade de mim mesmo:
ondas de choque
tremores
instala-se a noite
o escuro
o nada de luz
que fiz eu?
da minha luz?
há muito
apaguei o Sol
como poderia?
querer-te?
Luz?
maior o seu calor
menos o recebia
em trevas
volto a procurar-te
humilde
participo da ceia
descrubo-me
verto meu coração
pois não sabia?
não queria?
ver-Te?
O momento inicial de mudança foi no dia em que bati no fundo de uma piscina e abri uma grande ferida em minha cabeça, felizmente apenas epidérmica. No instante em que toquei o fundo lembro-me de pensar comigo mesmo, Ih, abriu! Mal sabia eu que a abertura da cabeça também estava acontecendo em outro sentido. Joseph Campbell escreveu: "Passar por uma transformação da própria consciência é uma experiência terrível".
E foi assim que me deparei num deserto e encontrei a "Raquel". No poema dei-lhe o nome de Vênus, confundindo talvez a criadora com a criatura, pois melhor talvez considerar que a deusa, como o fez para Pigmalião, tenha dado vida à imagem dos meus sonhos e através dela foi meu deserto iluminado com uma chuva de lágrimas como fogos de artifício. É claro que ela não se chamava Raquel nem Vênus, senão teria sido muito fácil reconhecê-la.
-o-
Segunda canção do peregrino
Guilherme
de Almeida
Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
cortei um galho do teu horto
e dele fiz o meu bordão.
Foi minha vista e foi meu tacto:
Constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.
Pois
nem fantasmas, nem torrentes,
nem
salteadores, nem serpentes
prevaleceram
no meu chão.
Somente
os homens, que me viam
passar
sozinho, riam, riam,
riam,
não sei por que razão.
Mas,
certa vez, parei um pouco,
e
ouvi gritar: -- “Aí vem o louco
que
leva uma árvore na mão!”
E,
erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros,
frutos, luzes, cores...
--
Tinha florido o meu bordão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário