A
Confissão
─ Bom dia, Dona
Menina!
─ Bom dia, Padre
Joaquim!
─ Lá de longe, vendo a senhora na janela, pareceu-me
uma daquelas bonecas que a gente muito vê lá pelas bandas de Ouro Preto.
─ Quê que é isso, sô padre,
tá a bulir comigo a me chamar de namoradeira?
─ Não, não; é que a
senhora tava mesmo escarrada na pose.
─ Ah, bom, porque por estas bandas nem mesmo se
vê viva alma a passar debaixo desse solzão, só mesmo seu vigário se aventura para
cumprir sua obrigação.
─ São os ossos do ofício, Dona Menina, já tô tão
acostumado, eu e meu amigo burro, a varar por estas estradas de Deus, que nem
preciso usar o cabresto, basta colocá-lo na direção que ele me leva direitinho.
─ Eu sei, são muitos
anos de lide em tropeços e tropicões, né?
─ Com a alegria do trabalho de Deus, muitos
anos! Tantos que já conheço pelo nome tudo quanto é criação que encontro no
caminho, e muito me divirto até em prosear com os bichinhos.
─ O sô padre tá de
novo a mangar comigo?
─ Não, Dona Menina, é verdade; veja se num
acerto: aquela galinha ali, a do cocuruto pelado, não é a Torquemada?
─ Ah! Mas essa é fácil
de memorar, pois ela alembra logo os dominicanos.
─ Mas isso é a regra com todos os nomes deste
sertão, todos bem ajustados e adequados. É bem fácil lembrar.
─ Então me diga, sô
padre, e aquela outra ali, a carijó?
─ Esta é ainda mais
fácil, é a Filó.
─ Num é que é deveras,
mas agora antão é que quero vê: e aquela cabritinha acolá?
─ É, Dona Menina, essa
eu não conheço não.
─ Também pudera, não se amofine porque essa
chegou inda ontem vindo de lá da terra do homem que inventou o avião.
─ Mas então é agora
mesmo que quero conhecê-la.
─ É a Rose.
─ Explique lá pra eu
poder me lembrar mais facilmente, Dona Menina, por que Rose?
─ Porque os olhos dela, grandes e amendoados,
fazem-me lembrar dos olhos da minha santinha, Nossa Senhora do Rosário, daí eu
briviei pra Rose.
─ Dona Menina!
─ Num se apoquente, sô padre, que eu cá me entendo
com minha santinha. Mas entra, padre, vem se arresfrescar, tomar um copo d´água,
beber uma xicrinha de café.
─ Mas antes, Dona
Menina, vou levar o burro pra beber água.
─ Não se dê cuidado,
padre, que eu chamo o Bentinho: “Bentinho”!
─ Que foi, vó?
─ Leve o burro do
padre lá no poço pra beber água!
─ Uai, vó, porque a
senhora num dá num copo pra ele?
─ Ô menino atentado, põe-me em papos-de-aranha.
Desculpe padre. “É o animal, sua besta”!
─ Eu sei que ele é,
vó, a senhora vive falando... Oh! Desculpe.
─ Esse menino me mata
de vergonha. Vai logo, peste!
─ Deixa o moleque, Dona Menina, depois a gente
acerta as contas lá no confessionário. Vai ralar o joelho um bom par de horas.
Já a senhora...
─ Mas entra, sô padre, a casa é sua e já tá costumado.
Se abanque aí e descansa os ossos enquanto passo um cafezinho.
─ ...
─ Ah! Que refrigério! Que
água boa!
─ Antão, padre, tá
indo lá na Ventania?
─ Pois é, Dona Menina, vou levar a comunhão pra
Dona Lenira. A pobrezinha está bem pior; como nada se pode fazer com a sua
doença, pelo menos eu lhe levo o consolo do Santíssimo.
─ Aquela é uma santa
martirizada, tantos anos naquela cama.
─ E por falar em
comunhão, quando é que a senhora vai fazer as pazes com Nosso Senhor?
─ Uai, padre, e adesde
quando eu tô brigada com ele?
─ Desde sempre, não me
lembro nunca de ter-lhe dado a comunhão.
─ Mas isso num é
briga, padre, são os preceitos.
─ Que preceitos, Dona
Menina?
─ Ara, um alguém pode
comungar sem de antes confessar?
─ Evidentemente que
não, a pessoa deve estar com a alma confessada e pura.
─ Então eu não posso
comungar.
─ Ora, Dona Menina, e
por quê não? Basta fazer uma confissão.
─ O padre sabe quão boa católica sou, num perco
missa em domingo não, faço meu adjutório do modo que posso, mas a tal de
confissão não serve pra mim não.
─ Boa católica sou,
dentro do meu entendimento, e friso bem: católica apostólica e romana!
─ Mas a senhora tem
anotado no cartório lá do céu: não confessa nem comunga!
─ Mas isso num é bem
verdade não, sô padre, comungar eu comungo.
─ Em que paróquia, Dona
Menina? Das minhas mãos a senhora nunca recebeu uma única hóstia.
─ E por que haveria de
ter carência de sua mão?
─ Ora, Dona Menina, eu sou o único padre deste
lugar e não me consta que a senhora vá a outra igreja.
─ E necessita?
─ É claro que precisa,
onde a senhora arrumaria uma hóstia consagrada?
─ O que não necessita
é da hóstia.
─ Como não necessita,
Dona Menina?!
─ Bom, veja bem, sô padre: todo dia eu bebo
água; todo dia eu como um bocado de pão; todo dia tenho na água e no pão a
presença de Nosso Senhor. E quando bebo ou quando como o pão eu entro em
comunhão com Ele.
─ Mas, Dona Menina,
esse pão comum não vale uma comunhão.
─ Por quê, sô padre? Num
foi assim que Cristo falou pra nós fazermos?
─ É que nesse pão
comum não houve a transubstanciação que ocorre durante a missa.
─ Olha aqui, sô padre,
sô acredita mesmo que mandraqueia e faz essas coisas aí que falou?
─ Transubstanciação. A senhora sabe; é o que
ocorre durante a missa que transforma a hóstia no corpo de Jesus Cristo.
─ Acho que a igreja troca as mãos pelos pés,
pois isso devia de servir só pra nos alembrar de Nosso Senhor, mas eu nem num
preciso de ser alembrada, eu tenho Ele comigo cá bem dentro.
─ Eu sei que a senhora é muito temente a
Deus...
─ Temente, não! Eu O tenho em meu coração e
tenho mesmo é amor por Ele
─ Que seja, Dona Menina, mas eu insisto, a
senhora pra ser uma boa católica precisa confessar e comungar.
─ Sô padre há de me desculpar a mim, mas num me
confesso não.
─ Mas qual é o problema, Dona Menina? Essa é
uma das mais bonitas das missões do sacerdote, para isso ele foi preparado e
ordenado.
─ Mas porém o padre é um homem!
─ Ora, Dona Menina, é claro que o padre é um
homem; embora eu possa discordar da posição da Santa Sé, nenhuma mulher pode
ser ordenada.
─ Antão o padre acha que eu cá... vou contar...
minhas sem-vergonhices prum homem?
─ Que isso, Dona Menina, que está a senhora a
falar de sem-vergonhices?
─ Ara, padre, os mandamentos da igreja são demais
severos e botam muito rigor na vida de marido e mulher.
─ Pois deveras que são, a igreja quer que os
casais levem uma vida santa.
─ Ah! pois antão, sô padre, a minha eu não
julgo levar assim... de acordo com seus preceitos... muito santa... entende?
─ Dona Menina!
─ O sô sabe como é, sô padre, eu mais o meu véio
quando pega a...
─ Dona Menina!
─ Tá vendo, sô padre, só de imaginar o sô já ta
me condenando, se eu for contar minhas safadices num vai ter jeito maneira de
me perdoar; por isso...
─ Dona Menina... Deus perdoa tudo.
─ Mas, padre, num ia adiantar, né?
─ Por que não ia adiantar, Dona Menina?
─ O sô num diz sempre que é preciso ficar
arrependido dos pecados e prometer que num vai mais pecar?
─ É claro, Dona Menina, deve o confessando
estar arrependido e ter o propósito de não mais pecar.
─ Pois antão, padre, desculpa-me mas num vai ter
jeito.
─ Ora...
─ Se toda vez que for lá confessar eu contar os
mesmos pecados, num vai adiantar, né?
─ Não, pois não haveria a contrição necessária.
─ Pois antão, só tem um jeito de acabar com as
safadices de eu mais meu véio.
─ Já sei que vou me arrepender de perguntar,
mas que jeito é esse, Dona Menina?
─ Acabar com o casamento.
─ Mas isso não pode, Dona Menina, isso é
pecado.
─ Aí, padre, o sô chegou no meu enquizilamento,
por isso acho bom deixar tudo como tá... Mas olha aqui o cafezinho bem em jeito
pro senhor se acalmar, fresquim, fresquim.
─ Ô coisa boa pra revigorar. Afinal bem que eu
estava carecendo.
─ Bom, sô padre, acho bom a gente esquecer esse
lero-lero. Deixa cá que eu me ajeito com minha santinha e o seu santo Filho; vou
fazendo minhas novenas, rezando meus terços, e ela me entende, né? Afinal ela
também é mulher.
─ Olha a boca, Dona Menina, não blasfeme.
─ Ela me entende...
─ Depois dessa, deixa
eu seguir o meu rumo.
─ Bentinho!
─ O que foi agora, vó?
─ Traz o burro do
padre que ele já ta indo.
─ ...
─ Prontinho, sô padre.
─ Até mais, padre Joaquim, dê minhas graças de
melhora para a senhora Dona Lenira.
─ Até mais, Dona Menina, vê se manda esse
moleque lá na igreja pra confessar, que esse não me escapa.
─ Confessar o quê, sô padre? Num carece não; um
bustica desse que pecado haveria de ter?
─ Dona Menina, a senhora é minha paroquiana mais difícil.
─ Pois.
-o-
Ventura
Mário Quintana
Naquela missa de Sexta-feira da Paixão, notei que o
velho Ventura rezava assim: ─ Tchug tchug tchug
tchug
amém...
Tchug tchug tchug tchug amém... Tchug tchug
tchug...
─ Assim não vale, Seu Ventura.
─ Ora! Ele sabe tudo que eu quero
dizer...

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