sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A Confissão



            A Confissão


─ Bom dia, Dona Menina!
─ Bom dia, Padre Joaquim!
─ Lá de longe, vendo a senhora na janela, pareceu-me uma daquelas bonecas que a gente muito vê lá pelas bandas de Ouro Preto.
─ Quê que é isso, sô padre, tá a bulir comigo a me chamar de namoradeira?
─ Não, não; é que a senhora tava mesmo escarrada na pose.
─ Ah, bom, porque por estas bandas nem mesmo se vê viva alma a passar debaixo desse solzão, só mesmo seu vigário se aventura para cumprir sua obrigação.
─ São os ossos do ofício, Dona Menina, já tô tão acostumado, eu e meu amigo burro, a varar por estas estradas de Deus, que nem preciso usar o cabresto, basta colocá-lo na direção que ele me leva direitinho.
─ Eu sei, são muitos anos de lide em tropeços e tropicões, né?
─ Com a alegria do trabalho de Deus, muitos anos! Tantos que já conheço pelo nome tudo quanto é criação que encontro no caminho, e muito me divirto até em prosear com os bichinhos.
─ O sô padre tá de novo a mangar comigo?
─ Não, Dona Menina, é verdade; veja se num acerto: aquela galinha ali, a do cocuruto pelado, não é a Torquemada?
─ Ah! Mas essa é fácil de memorar, pois ela alembra logo os dominicanos.
─ Mas isso é a regra com todos os nomes deste sertão, todos bem ajustados e adequados. É bem fácil lembrar.
─ Então me diga, sô padre, e aquela outra ali, a carijó?
─ Esta é ainda mais fácil, é a Filó.
─ Num é que é deveras, mas agora antão é que quero vê: e aquela cabritinha acolá?
─ É, Dona Menina, essa eu não conheço não.
─ Também pudera, não se amofine porque essa chegou inda ontem vindo de lá da terra do homem que inventou o avião.
─ Mas então é agora mesmo que quero conhecê-la.
─ É a Rose.
─ Explique lá pra eu poder me lembrar mais facilmente, Dona Menina, por que Rose?
─ Porque os olhos dela, grandes e amendoados, fazem-me lembrar dos olhos da minha santinha, Nossa Senhora do Rosário, daí eu briviei pra Rose.
─ Dona Menina!
─ Num se apoquente, sô padre, que eu cá me entendo com minha santinha. Mas entra, padre, vem se arresfrescar, tomar um copo d´água, beber uma xicrinha de café.
─ Mas antes, Dona Menina, vou levar o burro pra beber água.
─ Não se dê cuidado, padre, que eu chamo o Bentinho: “Bentinho”!
─ Que foi, vó?
─ Leve o burro do padre lá no poço pra beber água!
─ Uai, vó, porque a senhora num dá num copo pra ele?
─ Ô menino atentado, põe-me em papos-de-aranha. Desculpe padre. “É o animal, sua besta”!
─ Eu sei que ele é, vó, a senhora vive falando... Oh! Desculpe.
─ Esse menino me mata de vergonha. Vai logo, peste!
─ Deixa o moleque, Dona Menina, depois a gente acerta as contas lá no confessionário. Vai ralar o joelho um bom par de horas. Já a senhora...
─ Mas entra, sô padre, a casa é sua e já tá costumado. Se abanque aí e descansa os ossos enquanto passo um cafezinho.
─ ...
─ Ah! Que refrigério! Que água boa!
─ Antão, padre, tá indo lá na Ventania?
─ Pois é, Dona Menina, vou levar a comunhão pra Dona Lenira. A pobrezinha está bem pior; como nada se pode fazer com a sua doença, pelo menos eu lhe levo o consolo do Santíssimo.
─ Aquela é uma santa martirizada, tantos anos naquela cama.
─ E por falar em comunhão, quando é que a senhora vai fazer as pazes com Nosso Senhor?
─ Uai, padre, e adesde quando eu tô brigada com ele?
─ Desde sempre, não me lembro nunca de ter-lhe dado a comunhão.
─ Mas isso num é briga, padre, são os preceitos.
─ Que preceitos, Dona Menina?
─ Ara, um alguém pode comungar sem de antes confessar?
─ Evidentemente que não, a pessoa deve estar com a alma confessada e pura.
─ Então eu não posso comungar.
─ Ora, Dona Menina, e por quê não? Basta fazer uma confissão.
─ O padre sabe quão boa católica sou, num perco missa em domingo não, faço meu adjutório do modo que posso, mas a tal de confissão não serve pra mim não.

─ E por que não, mulher, é um dever do bom católico, uma boa norma de nossa Santa Madre Igreja.
─ Boa católica sou, dentro do meu entendimento, e friso bem: católica apostólica e romana!
─ Mas a senhora tem anotado no cartório lá do céu: não confessa nem comunga!
─ Mas isso num é bem verdade não, sô padre, comungar eu comungo.
─ Em que paróquia, Dona Menina? Das minhas mãos a senhora nunca recebeu uma única hóstia.
─ E por que haveria de ter carência de sua mão?
─ Ora, Dona Menina, eu sou o único padre deste lugar e não me consta que a senhora vá a outra igreja.
─ E necessita?
─ É claro que precisa, onde a senhora arrumaria uma hóstia consagrada?
─ O que não necessita é da hóstia.
─ Como não necessita, Dona Menina?!
─ Bom, veja bem, sô padre: todo dia eu bebo água; todo dia eu como um bocado de pão; todo dia tenho na água e no pão a presença de Nosso Senhor. E quando bebo ou quando como o pão eu entro em comunhão com Ele.
─ Mas, Dona Menina, esse pão comum não vale uma comunhão.
─ Por quê, sô padre? Num foi assim que Cristo falou pra nós fazermos?
─ É que nesse pão comum não houve a transubstanciação que ocorre durante a missa.
─ Olha aqui, sô padre, sô acredita mesmo que mandraqueia e faz essas coisas aí que falou?
─ Transubstanciação. A senhora sabe; é o que ocorre durante a missa que transforma a hóstia no corpo de Jesus Cristo.
─ Acho que a igreja troca as mãos pelos pés, pois isso devia de servir só pra nos alembrar de Nosso Senhor, mas eu nem num preciso de ser alembrada, eu tenho Ele comigo cá bem dentro.
─ Eu sei que a senhora é muito temente a Deus...
─ Temente, não! Eu O tenho em meu coração e tenho mesmo é amor por Ele 
─ Que seja, Dona Menina, mas eu insisto, a senhora pra ser uma boa católica precisa confessar e comungar.
─ Sô padre há de me desculpar a mim, mas num me confesso não.
─ Mas qual é o problema, Dona Menina? Essa é uma das mais bonitas das missões do sacerdote, para isso ele foi preparado e ordenado.
─ Mas porém o padre é um homem!
─ Ora, Dona Menina, é claro que o padre é um homem; embora eu possa discordar da posição da Santa Sé, nenhuma mulher pode ser ordenada.
─ Antão o padre acha que eu cá... vou contar... minhas sem-vergonhices prum homem?
─ Que isso, Dona Menina, que está a senhora a falar de sem-vergonhices?
─ Ara, padre, os mandamentos da igreja são demais severos e botam muito rigor na vida de marido e mulher.
─ Pois deveras que são, a igreja quer que os casais levem uma vida santa.
─ Ah! pois antão, sô padre, a minha eu não julgo levar assim... de acordo com seus preceitos... muito santa... entende?
─ Dona Menina!
─ O sô sabe como é, sô padre, eu mais o meu véio quando pega a...
─ Dona Menina!
─ Tá vendo, sô padre, só de imaginar o sô já ta me condenando, se eu for contar minhas safadices num vai ter jeito maneira de me perdoar; por isso...
─ Dona Menina... Deus perdoa tudo.
─ Mas, padre, num ia adiantar, né?
─ Por que não ia adiantar, Dona Menina?
─ O sô num diz sempre que é preciso ficar arrependido dos pecados e prometer que num vai mais pecar?
─ É claro, Dona Menina, deve o confessando estar arrependido e ter o propósito de não mais pecar.
─ Pois antão, padre, desculpa-me mas num vai ter jeito.
─ Ora...
─ Se toda vez que for lá confessar eu contar os mesmos pecados, num vai adiantar, né?
─ Não, pois não haveria a contrição necessária.
─ Pois antão, só tem um jeito de acabar com as safadices de eu mais meu véio.
─ Já sei que vou me arrepender de perguntar, mas que jeito é esse, Dona Menina?
─ Acabar com o casamento.
─ Mas isso não pode, Dona Menina, isso é pecado.
─ Aí, padre, o sô chegou no meu enquizilamento, por isso acho bom deixar tudo como tá... Mas olha aqui o cafezinho bem em jeito pro senhor se acalmar, fresquim, fresquim.
─ Ô coisa boa pra revigorar. Afinal bem que eu estava carecendo.
─ Bom, sô padre, acho bom a gente esquecer esse lero-lero. Deixa cá que eu me ajeito com minha santinha e o seu santo Filho; vou fazendo minhas novenas, rezando meus terços, e ela me entende, né? Afinal ela também é mulher.
─ Olha a boca, Dona Menina, não blasfeme.
─ Ela me entende...
─ Depois dessa, deixa eu seguir o meu rumo.
─ Bentinho!
─ O que foi agora, vó?
─ Traz o burro do padre que ele já ta indo.
─ ...
─ Prontinho, sô padre.
─ Até mais, padre Joaquim, dê minhas graças de melhora para a senhora Dona Lenira.
─ Até mais, Dona Menina, vê se manda esse moleque lá na igreja pra confessar, que esse não me escapa.
─ Confessar o quê, sô padre? Num carece não; um bustica desse que pecado haveria de ter? 
─ Dona Menina, a senhora é minha paroquiana mais difícil.
─ Pois.


-o-




                                       Ventura
                                                Mário Quintana

            Naquela missa de Sexta-feira da Paixão, notei que o
velho Ventura rezava assim: ─ Tchug tchug tchug tchug
amém... Tchug tchug tchug tchug amém... Tchug tchug
tchug...
            ─ Assim não vale, Seu Ventura.
            ─ Ora! Ele sabe tudo que eu quero dizer...

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