segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A Gaiola





A Gaiola





─ Bom dia, Dona Menina!

─ Bom dia, Padre Joaquim!

─ Que houve por aqui, Dona Menina? São pedaços de gaiolas, é? Passou um furacão e destruiu tudo ou foi a senhora que resolveu pôr em prática a ameaça de soltar os bichinhos todos?

─ Fui eu não, sô padre, de vero aconteceu aqui foi um milagre!

─ A Senhora Dona Menina agora também anda fazendo milagre?

─ Num fui eu que fiz um nada, não.

─ E o que aconteceu então, Dona Menina?

─ Deixe eu contar pro senhor, sô padre, eu sei que o senhor vai arrenegar e dizer que num foi bem assim, mas tem muita gente pra confirmar.

─ Meus ouvidos já estão esbugalhados. Conta, vai.

─ Esse frege todo aí foi meu véio mesmo que fez, sô padre, ele mesmo quebrou as gaiolas todas e soltou os passarim também.

─ E como foi que a senhora conseguiu convencê-lo? Será que ele cansou de ouvir suas recriminações?

─ O padre bem sabe que eu num gostava não de ver os bichinhos presos e sempre exortei meu véio pra soltar tudo, mas num foi eu quem fez a façanha não.

─ E quem foi então?

─ Bom, hoje o dia é treze, né? Treze de outubro, e ontem...

─ Deveras, Dona Menina, e ontem foi o dia de Nossa Senhora Aparecida. Fizemos uma belíssima procissão, muita gente, muita devoção...

─ Pois antão, padre, como era dia da santinha a gente tava tudo reunido assistindo ao padre Marcelo na televisão cantando aquelas músicas mais lindas.

─ Um belo programa, Dona Menina, pena que meus deveres não me deixaram ver!

─ Quando deu meio-dia, no meio do foguetório, o Padre Marcelo gritou: Viva Nossa Senhora Aparecida!

─ Viva!

─ Olha aqui, sô padre, me dá uns danados de arrepio só de alembrar, pois foi no que ele gritou o viva e a passarinhada toda desarranjou a cantar nas gaiolas, tudo junto: os canarim, os papa-capim, sabiá, melro, tudo desandou numa cantoria que toda a gente cá reunida ficou num assombro de queixo caído.

─ Os passarinhos todos deram vivas pra Nossa Senhora?

─ A pois, sô padre, nem ninguém sucedia de acreditar que eles juntaram todos pra vivar a santinha, e o meu véio ficou azucrinado e nem esperou acabar a cantoria e foi soltando os passarim.    

─ Que bela cena, Dona Menina, daria tudo para estar aqui para poder apreciar o espetáculo!

─ Pois antão, padre, o meu véio chorava que nem criança enquanto soltava os bichinhos, e quando não sobrava nenhum mais ele foi jogando as gaiolas todas aí no terreiro e depois machadiou tudo, quebrando tudo nesses pedacinhos amontoados aí.

─ A senhora ficou satisfeita, não, Dona Menina?

─ Nem tanto! Nem tanto, pois o meu véio ficou triste por causa do amor que ele tinha pelos passarim, ainda que eu dissesse que eles tavam mais felizes assim.

─ Também fico feliz em saber, é maldade manter os pássaros presos em gaiola.

─ Sabe, padre, os bichinhos num foram logo embora não, juntou tudo na mangueira ali e depois avoaram, dançando que nem balé no ar, parecia até um adeus que eles davam.

─ Também estou emocionado, Dona Menina!

─ Mas, sô padre, tem umas coisas que ainda tão me desacomodando.

─ Ah, Dona Menina, lá vem a senhora!

─ É que o Bentinho, meu netinho, ele tem feito leitura pra mim e meu véio daquelas estórias lá da Bíblia.

─ Muito bom, Dona Menina, muito bom, mas agora é que a porca torce o rabo, pois a senhora com certeza vai me deixar preso num nó, com certeza.

─ É que eu fiquei assuntando a respeito daquelas estórias e apercebi de umas coisas, padre, lá no início, quando Abraão e Moisés necessitavam de falar com Deus, eles subiam uma montanha e lá no alto é que eles O encontravam.

─ Era mesmo, Dona Menina, Moisés recebeu os Dez Mandamentos no alto do Monte Sinai.

─ Pois antão, naqueles tempos, para encontrar Deus subia-se ao alto do morro, junto com os passarim e tudo que é a natureza.

─ Era mesmo assim, Dona Menina.

─ As estórias antão vão passando, passa um mundão de gentes e depois eles constroem um templo e Deus vai morar dentro dele.

─ Foi assim mesmo, Salomão construiu em Jerusalém o mais belo templo que naqueles dias existiu, e que até hoje nem foi superado.

─ Pois é, padre, e Deus ficou preso lá dentro do templo e só os levitas podiam antão falar com Ele.

─ Fizeram mesmo umas normas, as leis, disciplinando tudo, e a tribo dos levitas foi encarregada de oficiar os cultos.

─ Antão, padre, quando alguém queria falar com Deus já nem podia subir mais a montanha pra procurar Deus lá em cima?

─ O templo foi instituído como o lugar sagrado do culto.

─ Prenderam Deus numa gaiola igual meu véio fez com os passarim?

─ Dona Menina! O que a senhora está a dizer?!

─ Uai, sô padre, antes alguém podia subir o morro e falar com Ele, depois se o alguém quisesse nem podia porque tinha de falar com um levita de intermedeio, que só o tal podia entrar onde Deus Se ficava.

─ Dona Menina, a senhora já tá me enrolando com essa conversa atravessada.

─ Mané de conversa atravessada, sô padre, é tudo vero que estou a dizer; antão uns assim acham que são dono de Deus e os outros têm que pagar sacrifício pra modo falar com Ele?

─ Dona Menina, a igreja precisa ter uma organização; foi antes como é hoje: os sacerdotes de hoje são como os levitas daqueles tempos.

─ Antão, padre, num é mesmo assim? Num tem uns donos de Deus que pensam que podem prendê-lo numa casinha assim pequitita?

─ Dona Menina, a senhora não tem mesmo jeito!





─ E esses donos de Deus inda não têm o desplante de até usar uma chavinha pra modo prender Deus e deixá-lo mais bem guardado lá no sacrário do altar?

─ Senhora Dona Menina!

─ Olha, sô padre, nem planta eu me encorajo de prender num vaso porque acho lindo é na natureza.

─ Que o meu Pai me dê paciência.

─ Olha aqui, sô padre, acho mesmo que o senhor também devia abrir a gaiola e soltar Deus.

─ Passar bem, Dona Menina, bom dia e tchau!

─ Tchau, sô padre, mas solta Deus...

─ ...

─ Pois.  



-o-





         O Guardador de Rebanhos

                            Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



              

                   V
...

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda hora.



                   VI



Pensar em Deus é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que o não conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou...



Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!...



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