A Gaiola
─ Bom dia, Dona Menina!
─ Bom dia, Padre Joaquim!
─ Que houve por aqui, Dona Menina? São pedaços
de gaiolas, é? Passou um furacão e destruiu tudo ou foi a senhora que resolveu
pôr em prática a ameaça de soltar os bichinhos todos?
─ Fui eu não, sô padre, de vero aconteceu aqui foi
um milagre!
─ A Senhora Dona Menina agora também anda fazendo
milagre?
─ Num fui eu que fiz um nada, não.
─ E o que aconteceu então, Dona Menina?
─ Deixe eu contar pro senhor, sô padre, eu sei
que o senhor vai arrenegar e dizer que num foi bem assim, mas tem muita gente
pra confirmar.
─ Meus ouvidos já estão esbugalhados. Conta,
vai.
─ Esse frege todo aí foi meu véio mesmo que
fez, sô padre, ele mesmo quebrou as gaiolas todas e soltou os passarim também.
─ E como foi que a senhora conseguiu
convencê-lo? Será que ele cansou de ouvir suas recriminações?
─ O padre bem sabe que eu num gostava não de
ver os bichinhos presos e sempre exortei meu véio pra soltar tudo, mas num foi
eu quem fez a façanha não.
─ E quem foi então?
─ Bom, hoje o dia é treze, né? Treze de outubro,
e ontem...
─ Deveras, Dona Menina, e ontem foi o dia de
Nossa Senhora Aparecida. Fizemos uma belíssima procissão, muita gente, muita
devoção...
─ Pois antão, padre, como era dia da santinha a
gente tava tudo reunido assistindo ao padre Marcelo na televisão cantando aquelas
músicas mais lindas.
─ Um belo programa, Dona Menina, pena que meus
deveres não me deixaram ver!
─ Quando deu meio-dia, no meio do foguetório, o
Padre Marcelo gritou: Viva Nossa Senhora Aparecida!
─ Viva!
─ Olha aqui, sô padre, me dá uns danados de arrepio
só de alembrar, pois foi no que ele gritou o viva e a passarinhada toda
desarranjou a cantar nas gaiolas, tudo junto: os canarim, os papa-capim, sabiá,
melro, tudo desandou numa cantoria que toda a gente cá reunida ficou num assombro
de queixo caído.
─ Os passarinhos todos deram vivas pra Nossa
Senhora?
─ A pois, sô padre, nem ninguém sucedia de
acreditar que eles juntaram todos pra vivar a santinha, e o meu véio ficou
azucrinado e nem esperou acabar a cantoria e foi soltando os passarim.
─ Que bela cena, Dona Menina, daria tudo para
estar aqui para poder apreciar o espetáculo!
─ Pois antão, padre, o meu véio chorava que nem
criança enquanto soltava os bichinhos, e quando não sobrava nenhum mais ele foi
jogando as gaiolas todas aí no terreiro e depois machadiou tudo, quebrando tudo
nesses pedacinhos amontoados aí.
─ A senhora ficou satisfeita, não, Dona Menina?
─ Nem tanto! Nem tanto, pois o meu véio ficou
triste por causa do amor que ele tinha pelos passarim, ainda que eu dissesse
que eles tavam mais felizes assim.
─ Também fico feliz em saber, é maldade manter
os pássaros presos em gaiola.
─ Sabe, padre, os bichinhos num foram logo
embora não, juntou tudo na mangueira ali e depois avoaram, dançando que nem
balé no ar, parecia até um adeus que eles davam.
─ Também estou emocionado, Dona Menina!
─ Mas, sô padre, tem umas coisas que ainda tão
me desacomodando.
─ Ah, Dona Menina, lá vem a senhora!
─ É que o Bentinho, meu netinho, ele tem feito
leitura pra mim e meu véio daquelas estórias lá da Bíblia.
─ Muito bom, Dona Menina, muito bom, mas agora
é que a porca torce o rabo, pois a senhora com certeza vai me deixar preso num
nó, com certeza.
─ É que eu fiquei assuntando a respeito
daquelas estórias e apercebi de umas coisas, padre, lá no início, quando Abraão
e Moisés necessitavam de falar com Deus, eles subiam uma montanha e lá no alto
é que eles O encontravam.
─ Era mesmo, Dona Menina, Moisés recebeu os Dez
Mandamentos no alto do Monte Sinai.
─ Pois antão, naqueles tempos, para encontrar Deus
subia-se ao alto do morro, junto com os passarim e tudo que é a natureza.
─ Era mesmo assim, Dona Menina.
─ As estórias antão vão passando, passa um
mundão de gentes e depois eles constroem um templo e Deus vai morar dentro
dele.
─ Foi assim mesmo, Salomão construiu em
Jerusalém o mais belo templo que naqueles dias existiu, e que até hoje nem foi
superado.
─ Pois é, padre, e Deus ficou preso lá dentro
do templo e só os levitas podiam antão falar com Ele.
─ Fizeram mesmo umas normas, as leis,
disciplinando tudo, e a tribo dos levitas foi encarregada de oficiar os cultos.
─ Antão, padre, quando alguém queria falar com
Deus já nem podia subir mais a montanha pra procurar Deus lá em cima?
─ O templo foi instituído como o lugar sagrado do
culto.
─ Prenderam Deus numa gaiola igual meu véio fez
com os passarim?
─ Dona Menina! O que a senhora está a dizer?!
─ Uai, sô padre, antes alguém podia subir o
morro e falar com Ele, depois se o alguém quisesse nem podia porque tinha de
falar com um levita de intermedeio, que só o tal podia entrar onde Deus Se
ficava.
─ Dona Menina, a senhora já tá me enrolando com
essa conversa atravessada.
─ Mané de conversa atravessada, sô padre, é
tudo vero que estou a dizer; antão uns assim acham que são dono de Deus e os outros
têm que pagar sacrifício pra modo falar com Ele?
─ Dona Menina, a igreja precisa ter uma
organização; foi antes como é hoje: os sacerdotes de hoje são como os levitas
daqueles tempos.
─ Antão, padre, num é mesmo assim? Num tem uns
donos de Deus que pensam que podem prendê-lo numa casinha assim pequitita?
─ Dona Menina, a senhora não tem mesmo jeito!
─ E esses donos de Deus inda não têm o
desplante de até usar uma chavinha pra modo prender Deus e deixá-lo mais bem
guardado lá no sacrário do altar?
─ Senhora Dona Menina!
─ Olha, sô padre, nem planta eu me encorajo de
prender num vaso porque acho lindo é na natureza.
─ Que o meu Pai me dê paciência.
─ Olha aqui, sô padre, acho mesmo que o senhor também
devia abrir a gaiola e soltar Deus.
─ Passar bem, Dona
Menina, bom dia e tchau!
─ Tchau, sô padre, mas
solta Deus...
─ ...
─ Pois.
-o-
O Guardador de
Rebanhos
Alberto Caeiro (Fernando
Pessoa)
V
...
E por isso eu
obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de
Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver,
espontaneamente,
Como quem abre os
olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol
e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar
nele,
E penso-o vendo e
ouvindo,
E ando com ele a toda
hora.
VI
Pensar em Deus é
desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o
não conhecêssemos,
Por isso se nos não
mostrou...
Sejamos simples e
calmos,
Como os regatos e as
árvores,
E Deus amar-nos-á
fazendo de nós
Belos como as árvores
e os regatos,
E dar-nos-á verdor na
sua primavera,
E um rio aonde ir ter
quando acabemos!...

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