domingo, 20 de novembro de 2016

O Barranco



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O Barranco


                                                          Formou ainda Javé Deus do solo todos os                                                                                                                                         animais do campo e todas as aves do céu.
                                                                                      (Gênesis 2,19)


─ Doutor, você tem lembranças de quando menino assim de meu tamanho?
─ Alguma coisa, Miguilim, e se deixo meus pensamentos hibernando, em momentos de paz tão pequenos eles me recordam como sonhos.
─ Então conta um pouco do Doutor menino!
─ Eu menino?
─ É, do Doutor pequeninho assim como eu.
─ Lembra-me seu pedido de um menino cujas mãos indóceis não sabiam se comportar quando instadas a criar formas, por isso minhas lembranças conduzem-me a falar de um amigo rico que eu tinha.
─ Muito rico?! Assim de ter como uma fazenda enorme cheia de gado e cavalos?
─ Engraçado, Miguilim, sua pergunta me coloca confuso e não sei se sei respondê-la.
─ Uai! Por quê?
─ Meu amigo, chamava-se Aroldo, vivia mais sua família na casa mais velhinha da nossa rua, a mais maltratada pelo tempo, de paredes descascadas do reboco antigo mostrando a ferrugem dos tijolos de que eram feitas.
─ Então ele devia era ser pobrezinho!
─ Mas para mim, Miguilim, ele era o mais rico da rua!
─ O Doutor tá fazendo é eu ficar confundido. Tá fazendo uma charada?
─ Não, Miguilim, são as minhas lembranças, tão esparsas, mas muito vivas, que estão assim confundidas. Olho-as naqueles tempos e vejo-me assim um pouco triste por sentir-me tão pobre e tão desamparado por não possuir um barranco como o que o Aroldo tinha.
─ Um barranco? Como assim? Um barranco de terra?!
─ Era mesmo assim, Miguilim, um barranco de terra vermelha subindo dos fundos da casa além do quintal; às vezes, na época das chuvas, um barranco de barro.
─ Ué! Por que você teria inveja de um barranco de barro?
─ Porque na realidade não era um barranco, era uma cidade toda cortada por ruas e cheinha de pessoas a viver e trabalhar: uma padaria com o padeiro saindo a levar seu pão na cesta; um verdureiro empurrando um carrinho cheio de verduras; um posto de gasolina com um carro parado à bomba a encher o tanque de gasolina; crianças brincando de roda; crianças na escola a estudar. E estradas saindo da cidade em busca das fazendas nos arredores cheias de gado, e cavalos, e galinhas com seus pintinhos.
─ E como um barranco podia ser isso tudo?
─ O Aroldo tinha mágica em suas mãos. Ele traçava no barranco as ruas e estradas e com o barro criava as pessoas para agitar a vida por lá.
─ Ele fazia bonequinhos com o barro?
─ Ele modelava os bonequinhos de barro colocando-os nas diversas posições para criar movimento. Modelava os carros, as casas, os animais e o tudo necessário para criar uma cidade efervescente de vida.



─ Mas os bonequinhos de barro ficam moles...
─ Ele os cozinhava ao sol para endurecer; deixava-os a secar e ficavam duros para serem dispostos a brincar. Com cuidado podia-se brincar muito com eles. E ele passava seus momentos de folga a construir e a brincar num mundo só dele, todinho fabricado por ele mesmo.
─ Que legal!
─ Para as fazendas ele criava bois: colocava-os nos pastos a comer; enchia o curral de vacas e seus bezerros; fazia carros de boi e os bois punha a puxá-los. Se você bem apurasse os ouvidos podia ouvir o gemido do carro de boi vindo de trás de um morro, ou o mugido de uma vaca chamando seu bezerro.
─ E cavalos também?
─ E cavalos, cabritos e porcos.
─ E patinhos nadando nas lagoas?
─ Vê como você se entusiasmou? Assim eu me sentia quando ia à casa do Aroldo e via-o a criar toda aquela riqueza.
─ E você também o ajudava?
─ Essa era a minha tristeza. Eu mal podia ser um servente de pedreiro para tal mestre no barro, não tinha a menor aptidão para mestre artesão. Minhas pobres mãos só serviam para misturar o barro.
─ O Aroldo não deixava você fazer os bonequinhos?
─ Os bonequinhos que eu tentava fazer não tinham alma e não mereciam ser entronizados naquele barranco, tão feios e desconjuntados.
─ E na sua casa não tinha um barranco?
─ Não, lá em casa não tinha um barranco, mas havia um na casa do meu primo, bem perto. Tivéssemos mãos tais que o Aroldo poderíamos ter uma cidade nossa, mas nosso barranco teimava em ser apenas um barranco.
─ Então você poderia criar os seus bonequinhos feios e imaginá-los bonitos.
─ Quando eu tentava fazê-los havia neles uma ausência, pois já conhecia aqueles outros. Os bonequinhos do Aroldo andavam pelas ruas e estradas, as casas eram cheias de vida com mulheres a cozinhar e namorar nas janelas!
─ As crianças a brincar pelos barrancos dos quintais!
─ Os carros que o Aroldo construía eram poderosos e orgulhosos; os meus, simples calhambeques que ninguém queria possuir. Os bonequinhos que eu tentava fazer jaziam calados no chão com vergonha do sol a queimá-los. E se me desse a loucura de pegando um homenzinho de barro eu pedisse com alma de artista: “Mia!”; o máximo que conseguia, se guardasse bem o ouvido, era ouvir um latido, e mais atrás, mais escondido nas sombras, um riso puro de escárnio.
─ Mas os brinquedos que a gente faz sempre são os melhores. Eu gosto muito de fingir com os meus.
─ É bom poder construir, Miguilim.
─ Quando eu vivia lá na roça eu inventava muitos brinquedos, gostava de pegar besouro, daqueles chifrudos e grandes, e amarrar em uma caixinha de fósforo pra fingir que era um burrinho puxando uma carroça.
─ Apesar de certa maldade com o bichinho, era um brinquedo gostoso, não?
─ E eu gostava de brincar com sabugo de milho, sabe? E com o sabugo não tem maldade, né?
─ Não, Miguilim, eu também brinquei muito com eles.
─ Eu fincava gravetinhos no sabugo e fazia os pés; fincava o rabinho com barbante e viravam cavalos; quando eu queria fazer bois eu fincava os chifrinhos.
─ E pronto! Você podia criar uma manada.
─ Carro de boi eu fazia com uma caixinha e perdia o dia de não ver passar a carregar milho, fubá e farelo pelas estradas da minha fazenda.
─ Você se perdia em sua fantasia...
─ Quando eu cansava, deixava tudo no canto para quando eu quisesse voltar a brincar...
─ E os boizinhos abandonados provavelmente ficavam lá a imaginar que eram simples sabugos de milho.
-É.

-o-


                       
            FAMÍLIA
                          Carlos Drummond de Andrade


Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda noite
e a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.

2 comentários:

  1. realmente os bonecos tinham vida, Aroldo realmente era um artista, e que família,sua mãe do lar seu pai barbeiro, a dignidade sempre morou na quela casa humilde, que boas lembranças.

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  2. Pois é, o Aroldo era e talvez ainda seja um grande artista, por onde andará? A marca que ele me deixou foi muito grande.

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