Iracati Amazonensis
Esta
estória foi psicografada de uma forma inusitada. Em uma tarde quente sentei-me
debaixo de uma bela árvore em um horto e o murmúrio do vento nas folhas da
árvore comandaram minhas mãos, que se puseram a escrever:
“Ele
aparecera procurando emprego. Dizia-se jardineiro e se apelidava Gentil. Mais
parecia um lavrador comum que aprendera a manejar a terra nas necessidades
diárias da vida da roça. Conhecia as espécies tradicionais da região, nada
mais. Sua mãe, hábil benzedeira, havia-o instruído sobre as plantas e os chás,
junto com antigas estórias indígenas sobre as origens das receitas e de tais
plantas. Um cabedal de lendas e superstições.
Eu
tinha necessidade de um braço forte e cuidadoso para lidar com as várias
espécies do meu viveiro, plantas de todos os gêneros tratadas com dedicação,
objeto das minhas pesquisas e estudos. Contratei-o.
Por
alguma inexplicável razão logo se estabeleceu uma estranha relação entre ele e
uma árvore do viveiro trazida há cerca de vinte anos das terras do alto
Amazonas. Naquela época, em uma expedição científica, havia descoberto aquela
nova espécie, chamando-a Iracati Amazonensis. Trouxe comigo uma pequena muda que
aqui se desenvolveu maravilhosamente.
Era
frequente encontrá-lo sentado sob sua elegante folhagem, vasculhando-a
vagarosamente, como se estabelecesse um contato estreito com cada rugosidade do
seu tronco. Em poucos dias havia se familiarizado integralmente com cada pedaço
daquele ser pelo qual demonstrava uma admiração que eu não podia entender o
menor motivo.
Não
suportando mais a curiosidade sobre aqueles atos alucinados, interrompi um dia
o seu romance indagando-lhe sobre o motivo de tamanho amor por aquela árvore. Provocado,
ele desinibiu-se.
–
Professor, que árvore é esta?
–
Uma Iracati Amazonensis, respondi sucintamente.
–
O nome comum, professor, qual é?
–
Não sei outro nome, os índios chamavam-na Iracati, trouxe-a como uma pequenina
muda e plantei-a aqui. Cresceu esta beleza de árvore. Espero em breve poder ver
suas primeiras flores surgirem, pois já é uma bela planta adulta.
–
É muito estranho, professor, desde o primeiro dia aqui ela me atraiu. Desde a
primeira vez, quando passo em sua sombra um arrepio me estremece todo.
–
É realmente estranho como certas pessoas são suscetíveis a algumas plantas. A
literatura e a medicina têm muitos casos relatados.
–
Não é bem o meu caso, professor. Conheço pessoas que não se dão com certas
plantas, mas eu nunca tive destes chiliques. Vivi sempre entre elas,
cuidando-as, utilizando-as, comendo-as. Nunca fui afetado por elas, mas esta...
–Curioso...
Os índios lá da região de onde ela veio contavam muitas estórias sobre ela,
lendas antigas que associavam-na à terra mãe: um símbolo do amor que eles têm
pela sua terra; do agradecimento por tudo que dela obtêm; do respeito por
guardar os seus antepassados por eras e
eras.
–
Gosto muito dessas lendas, professor, e respeito-as sinceramente, acho que por
trás muitas verdades se escondem.
–
A lenda mais bonita e que me ficou na memória falava de um grande guerreiro,
Iracati, que amava sua terra e sua gente. Se ameaçados, Iracati se transformava
num gigante com muitos braços que deixava os inimigos em pânico. Um dia, uma
flecha envenenada levou-o. Lá no alto, Iracati viveu tristemente, lamentando
sua terra e seu povo perdidos. Tanto chorou que os espíritos compadecidos
permitiram-no voltar, porém, não mais como gente, mas como uma árvore para
viver ainda mais intensamente seu amor à terra. Daí o nome que lhe dei. Os
índios me contaram esta lenda alertando-me para não trazê-la, pois jamais conseguiria
fazê-la crescer por aqui, pois antes ela morreria de saudades do seu pedaço de
terra. Bem se vê que se enganaram.
–
Sei não, professor, eu me arrepio todo perto dela porque parece que ela fala
comigo ou, melhor diria, parece que ela chora contando-me suas tristezas.
Procuro consolá-la.
–
Muito interessante, deveras interessante. Precisamos estudar isso.
Dia
após dia observava suas estranhas atitudes com aquela árvore. Ria um pouco de
sua fanática obstinação em cercá-la de cuidados, divertia-me com os seus
enleios. Aos poucos, passei a observar uma certa atitude dissimulada, alguns
gestos um tanto insanos. Certo dia de muita chuva, em que ele estivera durante
todo o aguaceiro debaixo da árvore, chegou-se um pouco desconfiado.
–
Professor, o senhor contou-me outro dia a lenda de Iracati e que esta árvore
simboliza para os índios o amor e a fidelidade deles à terra-mãe, não foi
assim?
–
Foi isso mesmo. Você entendeu
direitinho.
–
Pois é, professor, acho que o senhor fez mesmo muito mal em trazê-la para cá,
tão longe de sua terra.
–
Ora, besteiras! São somente lendas bonitas para serem contadas ao pé da
fogueira.
–
Pois é, professor, as fogueiras, a mata irmã, acho que ela sofre com muita
saudade de tudo aquilo.
–
Não se atormente assim, homem, árvores não sofrem como a gente. Se ela tivesse
tido problemas não teria crescido tão bela, teria se definhado. Tenho muito
orgulho dela, uma das mais raras do meu viveiro.
–
Sei não, professor, acho que não está certo.
Nos
dias seguintes passei a notar nele uma atitude desmesurada de contemplação, e,
talvez possa dizê-lo, uma atitude de subserviência. Passou a falar pouco comigo
e muito com a árvore. Pensei em dispensá-lo, mas seu trabalho continuava
satisfatório, cumpria suas tarefas com diligência, e, assim, embora mostrasse certos
sintomas de obsessão, foi ficando. Uma tarde, estando eu sentado sob a sombra
da árvore, fazendo minhas anotações, ele acercou-se empurrando seu carrinho de
ferramentas.
–
Professor, o senhor realmente não devia ter trazido aquela planta.
–
Por quê? Alguma novidade sobre o assunto?
–
Ela me falou, professor. Contou-me o quanto sente falta de sua terrinha.
–
Falou como, Gentil?
–
Ela fala comigo, professor, diretamente aqui na minha cabeça. Ela chora muito.
Tem um ódio imenso pelo senhor. Não gosta de senti-lo aqui debaixo de sua
sombra.
–
Ora, deixa de sandices, plantas não falam, não choram, não sentem alegrias nem
tristezas, não gostam nem deixam de gostar.
–
Professor, o senhor nada entende disso. Ela sofre muito aqui de saudade, de
solidão. Toda esta dor acalentou uma raiva profunda que cresceu num imenso
ódio pelo senhor. Ela cresceu assim bonita e frondosa não devido aos seus
cuidados, mas devido a um imenso desejo de vingança.
–
Vingança, Gentil?
–
Vingança, professor!
–
E como ela poderia se vingar?
–
Foi o que lhe deu forças para desenvolver-se aqui nestas terras estranhas. O
grande guerreiro teve forças para dominar a solidão e crescer alimentando a
vingança com sua dor.
–
Sandices, homem, com que armas, com que mãos ela poderia se vingar?
–
Com as minhas, professor...
E
o machado que estivera jogado no carrinho subiu pelas suas mãos.”
Levantei-me
e, pelo sim e pelo não, olhei a árvore demoradamente e dei-lhe um adeus.
-o-
Entre
a árvore e o vê-la
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
Entre
a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...
Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?
Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me... E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...
Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?
Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me... E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?

Nenhum comentário:
Postar um comentário