domingo, 20 de novembro de 2016

Mistério no galinheiro - conto infantil





Mistério no Galinheiro



A Branquinha estava de volta ao ninho.

Em pé, sobre um pé só, o outro dobrado, cabeça de lado para melhor enxergar, olha os ovos desconfiada. Gira o pescoço, troca de olho, o ninho lhe parecia diferente. Tentou contar os ovos: um, dois, muitos... Complicado, muito complicado! Trocou de olho novamente e recomeçou: um, dois, muitos... Impossível ir além do dois, contar não era fácil, na escola lá do galinheiro pouco lhe ensinaram. Contar um era simples, descia o bico e pronto, era um; contar dois era possível: com o bico sobre o um o olho podia ver outro, e: dois; depois ela se embaralhava, a cabeça rodava... matemática não foi feita para cabeça de galinha. Mesmo assim, seu instinto de galinha choca, boa poedeira, dizia que faltava algum ovo, mas certeza mesmo não podia ter, pois não sabia contar, mas mesmo se soubesse, quantos ovos havia antes?

Deitou-se inquieta no ninho, sentiu seu corpo reclamar que os ovos
não a cutucavam do mesmo jeito. Ajeitou-os sob as penas, resmungou algo como um coróóóóóh...h de insatisfação, fechou os olhos para aliviar sua inquietude e entrou em meditação para sua longa jornada a chocar... e dormiu.

A Pescocinho Pelado deixou o ninho. Estava faminta e cansada do choco. Não sem um pouco de remorso, precisava deixar seus ovos para catar comida. Desculpando-se pensava assim: saco vazio não para em pé, nem faz volume sobre os ovos. Mas antes de afastar-se, olhou atentamente o ninho com os dois olhos, um de cada vez, é claro, como fazem as galinhas, tentando fazer um retrato exato do ninho na cabeça, ovo por ovo. Ela estava incomodada: achava que estava faltando algum ovo, um rebento seu que tanto esforço e sofrimento foi preciso. Não podia ter assim muita certeza, mas seu instinto de mãe galinha dizia que sim. Por isto ela temia se afastar do ninho e ao voltar ter nova preocupação. Não era fácil, gastar um dia inteiro na gestação de um ovo: formar a clara, a gema amarelinha, endurecer a casca para poder trazê-lo ao ninho, e, sem mais nem menos, perdê-lo. Mas não tinha jeito! A comida não vinha ao ninho, precisava catá-la no terreiro.

Resolveu manter um olho no ninho enquanto o outro procurava a comida. Tentou, mas era muito difícil, o bico não acertava nem os grãos maiores... os bichinhos pequeninos escapavam facilmente! Teve que entregar a proteção dos seus ovos ao deus das galinhas e lá se foi enchendo o papo.

Papo cheio, voltou ao ninho e OOOOHHHH...H. Embora a foto da sua memória já estivesse um pouco enevoada, sentiu-se roubada, ultrajada, vítima do sequestro de mais um ovo. Não podia mais calar-se e soltou o verbo de galinha choca tumultuando o galinheiro.

Logo todo mundo se agitou, as desconfianças mudas se somaram em intensa algazarra num imenso grito de revolta e indignação.

O galinheiro entrou em reunião.

Constituiu-se uma comissão para estudar o problema. A primeira providência das senhoras galinhas foi levar o assunto em ritmo de urgência para o Crista Emplumada, o senhor galo do terreiro.

Com bico de enfado, largando a crista caída sem mostrar qualquer interesse, ele ouviu tudo em calado silêncio e um pouco atordoado pela estridência do coro das galinhas exaltadas. Por fim, levantou-se majestoso.

Fez-se um súbito silêncio no terreiro aguardando o poderoso canto do galo. Com os coraçõeszinhos na boca as senhoras se encheram de esperanças.

Esticando o pescoço, inflando as asas, o Emplumado bateu-as vigorosamente e encheu o terreiro com seu canto de orgulho:

– Cocoricooooooo!

Terminado o espetáculo, raspou a garganta e disse:

– Ahhhh...h! Fofocas de ninhos... Não tenho tempo para tais fuxicos, resolvam vocês seus probleminhas sem aborrecer-me o dia.

Algumas galinhas mais idosas tentaram ainda lembrá-lo de suas obrigações como pai. Sua única reação foi sair a correr atrás de um franguinho curioso que se arriscara mais perto. As galinhas ficaram desconcertadas, sem nenhuma noção dos caminhos a buscar.

Sem uma liderança eficaz a comissão murchou. Foi nesse estado de desânimo que Mis Marta encontrou-as. Subindo num poleiro pediu a todas que fechassem o bico, e falou:

– Nos últimos dias tenho andado amuada, até mesmo deprimida, longe do dia a dia do terreiro. A idade chega, os ovos já não chegam como antes, e por sentir-me inútil escondi-me pelos cantos para não ouvir seus cacarejos ao botar os ovos, mas pude observar bem o terreiro. A princípio não liguei cré com lé, não sabia dos ovos sumidos, ninguém dizia nada sobre isso. Dia após dia vi o ninho... – ela parou seu discurso, olhou para os lados e – bom, como ela não está por aqui posso contar: vi o ninho da Asinha Quebrada se encher de ovos e mais ovos, mas algo me intrigava, jamais ouvi seu canto de chocadeira a anunciar um ovo. Galinha estranha, pensava comigo, botava calada, enchia o ninho e chocava quietinha. Só agora juntei ré com ré.

Alvoroço no galinheiro, cacarejos indignados pediam um castigo exemplar para aquela... para aquela... sequestradora de ovos!

– Coroohh! Queimem a bruxa!

Mis Marta teve que esticar muito o pescoço, cacarejar mais alto que todas para acalmar os ânimos.

– Por favor, senhoras! Por favor, silêncio.

Enfim, um quase silêncio.

– Senhoras! Há um pequeno porém! Alguma de vocês já viu uma galinha carregar um ovo? - Mis Marta esperou uma resposta que não veio.

– A não ser que apareça uma malvada mão dos nossos donos, onde um ovo é posto, ali ele fica, ali ele choca ou ali se perde. Nossos donos não trocam ovos de ninho, portanto, cautela, como poderíamos acusá-la de roubar os ovos, como ela poderia tê-los carregados?

Silêncio total. As senhoras galinhas sentiram-se até mesmo envergonhadas. Não fazia mesmo sentido acusar uma galinha. Como faria para tirar o ovo do ninho sem quebrá-lo? E como poderia levantá-lo até o seu ninho?

Mis Marta propôs um alerta geral, todas se revezariam para guardar os ninhos. Enquanto algumas chocavam, as outras vigiariam. E assim o tumulto foi acalmado. Embora tristes com as perdas, foram cuidar de seus ovos.

Dia a dia novas ninhadas coloriam o terreiro e novos pios em algazarra se faziam ouvir. Certo dia, a Asinha Quebrada também se pôs pelo terreiro a desfilar puxando a sua tropa de quinze pintinhos. Estranha ninhada, colorida de muitos tons.

Ouviu-se pelo terreiro um zum-zum-zum inquieto. Mis Marta apurou os ouvidos, rodou o pescoço procurando captar os disse-me-disse, desprezando os disse-me-não-disse, cacarejou com todas pedindo cuidados. Temeu pela saúde da nova família isolada e rejeitada por todos. Também mantinha suas suspeitas, mas digníssima, não queria julgar sem provas.

Correria no terreiro. Galinhas, pintos, frangos alvoroçados correm sem destino.

– Coróóóhhh...acudam! meu pintinho, oh minha santa!

Numa corrida atroz atrás de um franguinho mais galanteador, o Crista Emplumada atropelou um pintinho miúdo, sem um dia inteiro sequer de vida. E a pobre mãe aturdida que chorava era a Asinha Quebrada, e ninguém acudiu seu filhinho.

Mis Marta correu prestativa cacarejando a dureza das outras, ajudando-a a se acalmar para socorrer o pintinho.

A Asinha Quebrada deitou-se ao lado do pequenino e com o bico empurrou-o para sua asa quebrada. Mis Marta agora percebia que o osso quebrado da asa endureceu invertido. Ao puxar a asa bem perto do seu corpo, a mamãe levantou o pintinho e foi para o aconchego do ninho para cuidar das suas feridas.

Mis Marta ficou congelada com o bico escancarado de espanto e não pôde sequer soltar um pio. Parece pelo menos que as outras galinhas, fingindo não ver a dor do pintinho, também não viram o socorro da mãe.

Mis Marta deixou-se cair ao chão e ali ficou cismada a pensar.

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