terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Promessa




A Promessa

─ Ô, Dona Miroca, bom dia, né? Como que vai passando assim sem um nada de oi, eu cá tô invisível?
─ Me desculpe, Dona Menina, nem não vi a senhora, pois num posso nem olhar pros lados.
─ Também pudera, com um baita pedrão desse na cabeça! Mas quê que é isso, mulher, aonde vai levar esse despropósito de pedra?
─ Senhora Dona Menina, nem te conto, tô indo lá pra igreja pra cumprir uma promessa.
─ Pra modo de quê tá querendo abreviar o caminho pro cemitério? Tá cansada de viver, Dona Miroca?
─ Tô cansada sim, Dona Menina, tô muito cansada sim, mas num tô querendo morrer, não! A senhora já tá sabendo de como aprecio fazer minhas promessas pros meus santinhos.
─ Dá uma pausa, Dona Miroca, bota a danada de lado e vem cá pra tomar um refrigério.
─ ...
─ Toma lá este suquinho de pitanga pra molhar a goela que a senhora deve de tá necessitada, mas vá devagar, Dona Miroca, toma fôlego que tá em perigo de botar os bofes pra fora.
─ Ahhhh... que alívio!
─ Aqui ó, preparei pro cê uma niquinha de docim de abóbora que é pra revigorar as forças e poder dar conta do pedrão.
─ Ah, Dona Menina, eu em muito agradeço, mas o docim eu vou ter de arrenegar. 
─ Causa de quê há de me fazer essa desfeita, mulher?
─ É que tô em meio, já faz três meses, de uma promessa pra Virge de não botar na boca nem nenhum tipo de doce e inda falta mais três.
─ Ave Maria! pra que foi isso, Dona Miroca?
─ A senhora sabe como é, né? Num tenho outro recurso pra onde apelar, Dona Menina, quando meus filhinhos tão a penar eu logo prometo o que posso pra remediar. Um tudo que eu cá aprecio já tô comprometida com um santinho. Já tô em dever manteiga, doce, queijo, carne e que sei mais eu que nem me alembro mais agora.
─ Em tamanho jejum e privação dá pra ficar estuporada é da senhora inda ter forças pra se fazer de mula.
─ É... Que se há de fazer quando se tem precisão?
─ E resolve, Dona Miroca?
─ Ah! Que resolve, resolve, Dona Menina, os bichim sara tudo.
─ Assim, assim, de pronto, Dona Miroca, que nem milagre?
─ De pronto, de pronto, não, Dona Menina, mas sabe como é, né? Passa um tempinho e eles vão melhorando.
─ Pois é, Dona Miroca, São Tempo é mesmo um santo remédio, nunca falha, num é?
─ Só uma vezinha falhou, mas acho que a culpa foi mesma de eu.
─ E que foi que assucedeu?
─ Foi com meu Zezim, coitadim, a rapa do tacho lá de casa, a garganta dele inflamou que ele miava de dor. Em mais que depressa eu apelei pro São Braz, que é o melhor doutor nessas coisas de garganta, a senhora sabe, né? Prometi um mês de rezar o rosário de joelho, mas acho que foi pouco.
─ Pouco por causa de quê, Dona Miroca?   
─ É que nesse entremeio o seu Onofrim calhou de passar por lá e disse que o menino carecia de tomar um remedim, mas como eu tava sem os caraminguás pra poder adquirir o cujo, só deixei mesmo com São Braz, mas eu faltei com ele.
─ Faltou com quê, Dona Miroca?
─ Acho que foi por causa que como eu tava com os joelhos estropiados, achei que ele num ia dar falta do milho, mas ele bem anotou minha lerdice.
─ Milho, Dona Miroca, debaixo dos joelhos?
─ Pois é, Dona Menina, de normal quando prometo rezar o rosário eu junto com o milho pra modo ficar mais custoso e mais valer pro santo ajudar.
─ Ô, Dona Miroca! Que doidice! E pensando bem, acho mesmo que a culpa até foi mesmo da senhora, antão a senhora num vê que o santo tentou?
─ Tentou, Dona Menina? Por causa de quê a senhora acha que ele tentou?
─ Ele num mandou o seu Onofrim lá? Eu percebo que ele necessitava do remédio pra poder agir no curamento.
─ Ahn, será?!
─ Deve de ser, Dona Miroca, mas o que se assucedeu com o Zezim?
─ Teve que operar pra tirar as bolas da garganta, mas antão eu renovei a promessa com o milho, cumpri e o santo compareceu.
─ Mas num tem precisão de exagerar assim, Dona Miroca!
─ Dona Menina! Quando o problema é bruto, pra modo poder arresolver, a promessa tem que ser igualmente bruta.
─ Olha, Dona Miroca, a senhora tá enjoada de saber que num aprovo os modos de prometer qualquer coisa pra querer resolver qualquer injúria, inda agora a senhora pensa que é uma besta pra carregar pedra por aí nas lonjuras?
─ Num tinha jeito, Dona Menina, de em tudo que eu assuntei já tava comprometida.
─ Mas dessa vez a senhora exagerou demais, Dona Miroca, que baita problemão, hem!
─ A senhora veja, Dona Menina, sabe minha filha mais velha, a Doralice?
─ Sei, sei, a Doralice.
─ Pois bem, aquela peste vivia me deixando louca, namoradeeeira que só ela.
─ São coisas da idade, Dona Miroca, o tempo cura.
─ Cura nada, tava demorando demais pro meu penar. Sabe a senhora como estava, né? Igual chuchu, Dona Menina, num precisava nem de um presentim assim pra modo adubar.
─ Oh dó, Dona Miroca, tava assim, é?
─ Tava, que tava! Antão, pra botar fim nas minhas vergonhas, fiz promessa pra Santantônio arrumar um marido pra ela. Comprometi com o santo que ia ficar um ano sem botar um pedacim de carne na goela, e...
─ E ainda tem mais, Dona Miroca?
─ Catei uma imagem do santo, punhei um saco na cabeça dela, marrei bem marrado, marrei os pés dela também com uma corda e dependurei de cabeça pra baixo dentro do poço.
─ Dona Miroca, pra que judiar assim do santinho?
─ Tem que ser assim, Dona Menina, é assim que arresolve.
─ E adiantou, Dona Miroca?
─ Diantou!  Diantou, sim... mas antes que num tivesse adiantado...
─ Oh, meu Jesus Cristinho, o que foi agora?
─ Pois aquele disgramado apareceu lá por casa, ficou arrodiando, a Doralice arreganhou todos os olhos e o que sei mais que podia e num podia de arreganhar pra ele.
─ Ai, ai, ai!
─ Antão, Dona Menina, o vira-lata se chegou e prometeu casamento dizendo que precisava de assossegar. Aprestei a mim pra fazer minhas orações pra agradecer ao meu santinho Santantônio e tirar ele do castigo.
─ E houve o casório, Dona Miroca?
─ Houve, Dona Menina, casaram... Pra modo que eu pagasse minha pena...
─ Mas num era o que a senhora queria, o santinho num fez o combinado?
─ Veja a senhora, Dona Menina, inda tenho que passar seis meses, centoitenta dias sem comer uma niquinha de carne por causa daquele fio do capeta.
─ Num entendo, a senhora fez a promessa e agora tá arrependida de quê? 
─ Senhora Dona Menina, bem que aquele coisa tinha dito que necessitava um cantinho pra assossegar, eu que nem escutei direito o que o dito tinha falado. Virge, como é assossegado! Foi mesmo depois que reparei nos dentes caninos lá dele, bem afiados, bem amaiorzados que os outros.
─ Minha Nossa Senhora, cê tá dizendo que é vampiro o moço?
─ Vampiro, Dona Menina, dos ladinos, só quer chupar nosso sangue. Vive com violão pra arriba no meio de outras mulheres. A Doralice tá purgando tudo que me fez passar de pena, tá de paixão, a desinfeliz.
─ Pois a gente nunca num sabe o tamanho do que tá bom, né Dona Miroca?
─ E agora eu pergunto pro meu santinho: por que mandou tal coisa ruim?
─ Ah pois, Dona Miroca, a senhora num cobriu os olhos do santo com o saco? Se ele num podia nem ver, no desespero pegou o primeiro que surgiu pra poder deixar o castigo mais breve.
─ É!?... Deve de ser, Dona Menina, e desesperada tô eu agora. Pra me livrar do coisa fiz a promessa pra Nosso Senhor de levar a bruta pedra lá na igreja.
─ Dona Miroca, a senhora acha mesmo que Nosso Bom Jesus quer ver a senhora sofrer castigo tal? Que besteira, mulher!
─ Que outro jeito havera de ter?
─ A senhora é forte como um touro, com poder até da proeza tal de levar o pedrão na igreja. Antão, larga essa pedra cá, dá vira-volta e resolve isso no braço que a senhora é muito capaz.
─ No braço, Dona Menina?
─ No braço, Dona Miroca, no tapa, no muque... bota o rabo do vira-lata em meio às pernas e põe a pedra em cima desse quiproquó!
─ E Nosso Senhor num vai ficar um tanto vexado comigo?
─ Que isso, Dona Miroca, garanto que pior é sofrer calada as afrontas e inda querer se martirizar pra aturar do diabo.
─ Dona Menina, a senhora faz milagre. Antão tá arresolvido, vou voltar logo, fico demais agradecida.
─ Pois. 






-o-


            
                       Dona Doida

                                           Adélia Prado

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.    
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

 

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