sábado, 19 de novembro de 2016

O Cruzeiro do Sul






O Cruzeiro do Sul



                                                                                                                           quando um silêncio profundo envolvia tudo
                                                                                                                           e a noite chegava a meio do seu rápido curso,
                                                                                                                           do alto do céu a Tua palavra onipotente se precipitou
                                                                                                                           do trono real, como um guerreiro inexorável.
                                                                                                                                                               (Livro da Sabedoria 18,14-15)


 
visão espelhada espiritual



─ Bom dia, Seu Jair, pelo visto está de novo perdido, bem longe daqui.
─ É... Estava mesmo a vagar por aí a ouvir estrelas...
─ Ouvindo estrelas... de dia!
─ Como disse o poeta: suas vozes são tão suaves que permanecem massageando-me os ouvidos sempre que minha memória me leva ao encontro delas.
─ Adorei o tema, podemos utilizá-lo em nossa entrevista de hoje?
─ Decerto, é bastante agradável falar de estrelas e de ouvi-las.
─ Então deixe-me preparar e..., pronto, podemos começar. E como acontecem esses papos com as estrelas?
─ Tudo começou há alguns anos atrás por causa de um sonho. Um desses sonhos que nos acorda no meio da noite e deixa-nos uma sensação de perplexidade.
─ E o senhor dá atenção a sonhos?
─ Só àqueles que têm elementos especiais que me sacodem, sonhos arquetípicos como Jung os classificou.
─ E é possível distingui-los?
─ É impossível não fazê-lo, são sonhos com conteúdo bem diferente dos triviais, têm uma imensa carga simbólica e nos afetam profundamente. De imediato o sono se perde e as imagens ficam dançando na mente.
─ E poderíamos saber como foi esse sonho?
─ O que interessa é que, em linhas gerais, o sonho mostrou-me que eu necessariamente tive que passar naquele hospital em Leopoldina, pois minha mãe necessitava fazer-me uma avaliação. No sonho ela me fez exames radiológicos ou algo parecido, mas sua imagem nada tinha de minha mãe real, era uma senhora cujo rosto era-me completamente estranho.
─ E por que teve que necessariamente passar por lá?
─ Foi isso o que a princípio me perguntei logo ao acordar. Foi lá em Leopoldina que passei um mês no hospital devido a um acidente e o sonho chamava-me a atenção para o fato. E com o sono perdido fiquei a reviver o sonho e suas imagens com perguntas tais: que tipo de exame era aquele a que eu tinha levado a ser submetido? por quem? e o resultado do exame? E no meio de tantas perguntas e divagações veio-me repentinamente à mente o trajeto que fazia para ir a Campo Belo, o qual já lhe relatei, e o enxerguei na mente como se o visse traçado em um mapa. Percebi que as cinco cidades envolvidas, os pontos de parada, traçavam uma cruz, ou melhor, Leopoldina figurava como a quinta estrela para formar a imagem do Cruzeiro do Sul. O sonho atentara-me para isto.
─ O senhor poderia reconstituir o trajeto para que possamos compreender melhor?
─ Pois bem, Miracema era o ponto de partida, a parte visível do mundo onde a cruz estava plantada; Juiz de Fora e Belo Horizonte eram as estrelas que formavam o braço, e Campo Belo era sua parte superior. Estas quatro cidades, além de fazerem o circuito que em criança me levava ao seminário, foram as estrelas que confinaram meu trajeto pela vida. Leopoldina foi apenas um ponto de parada, e foi lá que recebi a quinta chaga que afetou profundamente tudo o que vivi.
─ Quinta chaga?
─ Foi assim que interpretei: a primeira chaga, a que veio comigo em minha cidade natal, foi a dos pés, uma única porque atravessada por um único prego, por onde fui plantado neste mundo e aprendi a dar os primeiros passos. Formou-se lá a parte mais funda do meu ser cultivada pela minha família. Foi o ponto de início para a revelação do meu eu, ou a sua crucificação..., que sei eu?
─ Plantado em uma cruz na vida, a árvore da vida?
─ Você o disse. A segunda chaga, a da cabeça, a coroa de espinhos a dilacerar a mente através das dúvidas e anseios recebi-a em Campo Belo, quando o menino deixou lugar ao adolescente. E esta me conduziu pela vida como a um animal que só atendia ao ferrão do carreiro para seguir a estrada. E dos buracos dos espinhos escorria tudo aquilo que me havia sido gravado na alma; grossas gotas escorriam lavando aquela inocência e uma realidade outra penetrava, mas no mais profundo, sem se deixar lavar, o âmago de tudo persistia, o ser real que me traçou um norte. E os sonhos foram sendo substituídos pelas necessidades.
 

Obra de Mestrovic, altar da igreja em sua terra natal,
Ottavice (Croácia), de nome: Eternamente Crucificado

─ Um boi seguindo pela estrada entre espinhos e ferroadas?
─ A terceira e a quarta foram as das mãos, as chagas do trabalho e das relações. À direita, a mais aberta, representada pela estrela de Belo Horizonte onde finquei residência; à esquerda, Juiz de Fora definia quase um limite onde minhas ações podiam alcançar. E nesta trave da cruz quase toda minha vida de trabalho se realizou; ainda tendo no centro, no ponto de intersecção das duas traves, a cidade de Barbacena, que tanta importância teve para minha jornada de sobrevivência.
Se non vero, bem trovato.
─ A quinta chaga foi a de Leopoldina, no lado esquerdo do corpo onde a lança deixou resíduo por muitos anos, pois um sonho avidamente desejado ruiu por inteiro de modo brusco. Naquela época não tinha nenhuma noção destas análises que hoje posso fazer, mas perdida toda a esperança na unidade da vida espiritual (amor/ágape), ela se transmutara em uma tentativa inconsciente de retorno no desejo de poder viver uma vida a dois, embalada no amor sexual (amor/eros), um engano bem natural ao tentar encontrar no outro tudo aquilo que perdera. E foi lá naquele hospital que percebi que tinha entrado num sonho tomando-o como real. Ao lado das enormes preocupações surgidas pelo acidente, que me trouxe uma completa insegurança com o futuro, eu me vi ocupado com desejos e sentimentos que me imaginara deles isento. O sonho ruíra e eu sentia-me só. E se culpa havia era unicamente minha, toda nascida dos meus atos e desejos.
─ E essas estrelas, essas cinco cidades confinaram toda sua vida?
─ Quase integralmente.  Houve momentos em que realizei trabalhos pelo país afora, breves, mas a parte profissional realizou-se quase toda no triângulo superior delimitado pela trave horizontal.     
─ E sentia-o como a um limite?
─ Não. Acho que em certo modo fui eu mesmo que inconscientemente fui estabelecendo-o ao definir prioridades. Interessante que cidades como Lavras e São João del Rey, no interior do triângulo, foram de bastante importância em minha carreira.
─ Mas havia essa sensação de ser como se crucificado nesse trajeto?
─ Depois do sonho foi assim que percebi. Naqueles tempos rodava como um louco por aquelas estradas no coração das Minas resvalando precipícios e em perigo de encontrar uma árvore pela frente, sem preocupação com o se de fato ocorresse.
─ Mas nada ocorreu, nenhum acidente.
─ Nada, saí ileso de tudo. E quando já estava mais quieto em casa o sonho ajudou-me a perceber a cruz; então ela já não mais era tão pesada. Ao olhar para trás e ver a trajetória que talvez o acaso tivesse me levado não era possível deixar de ver os caminhos da beleza plantados naquela cruz, e, então, assistir ao espetáculo do início de ser dela baixado.
─ Um alívio?
─ Não somente um alívio, mas uma redenção e uma cura, como na ópera Parsifal, de Wagner:
                                    Uma única arma convém:
                                    só é capaz de fechar a chaga
                                    a mesma Lança que a abrira.
─ Não entendi.
─ Voltei ao meu encontro ao percorrer o caminho inverso: através da reconquista do amor/eros abriu-se a possibilidade de ver fechada a chaga das culpas e enganos e assim renascer o amor/ágape.
─ A lança que o feriu foi a mesma que o curou.
─ E pude entender a resposta de Parsifal sobre o encontro do caminho:
                                
                                     Venho pelo atalho do erro e da dor. 

─ E como estas imagens lhe ocorreram?
─ Um dia, estudando um mapa onde via aquela estranha cruz, passou-me pela mente prolongar a cruz e ver aonde ela chegava. O norte relativo, a partir dos pés, levava aos Andes e para a América Central, terras de povos sábios, mas não me chamou atenção. A trave das mãos, onde Belo Horizonte era o meu norte real e também o geográfico, prolongada atravessava o país e encontrava Belém.
─ Belém?!
─ E foi então que uma sensação estranha me percorreu, pois via a brilhar lá no alto do país a Estrela de Belém.
─ Mágico!
─ E ela falou. E fiquei só a ouvi-la cantando uma estória que falava de um menino que nasceu num lugar humilde, em um cocho e em meio dos animais.
─ E o que lhe ficou desse momento?
─ Uma sonata. Ouvi que a estrela cantava sobre o nascimento de um menino nascido de uma virgem, pois não era um menino em corpo, senão em espírito, cercado pelos animais, pois era nascido no corpo animal, que deveria ser anulado e morto para que o menino pudesse ser cuidado e desenvolver-se.
─ Era, então, um simples nascimento de um ser em espírito?
─ Uma verdade tão simples, o homem crucificado em sua vida diária não sabe que Cristo  mora em seu inconsciente, embora ele tenha repetido tantas vezes que era preciso que nascêssemos de novo. A partir de então fui a mãe desse menino, acalentando-o, alimentando-o, vendo-o crescer a buscar instrução sobre as coisas do Pai, e o vi percorrer muitos caminhos a buscar vestígios e pouco encontrou, e o vi a discutir com os doutores a respeito das escrituras.
─ Bela estória, seu Jair! E tudo por causa de um sonho!
─ Você quer ouvir de mais coincidências a respeito do trajeto?
─ E ainda tem mais?
─ Sim, mas essas ficaram-me sem explicações.
─ E o que seriam?
─ Lá em Campo Belo convivi com os padres que se chamavam crúzios, da Ordem de Santa Cruz, que eram padres holandeses.
─ Mais cruzes brotando do chão.
─ E estes padres achavam-se no Brasil nessa região delimitada pela minha cruz, nas cinco cidades e em poucas outras no seu interior, e, fiquei um pouco atônito ao perceber: fora da cruz e das Minas Gerais estavam tão somente em Belém e no Rio de Janeiro, os dois pontos extremos do prolongamento dos braços da cruz.

-o-


Ouvir Estrelas
                               Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas"

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