O Cruzeiro do Sul
quando um silêncio profundo
envolvia tudo
e a noite chegava a meio do
seu rápido curso,
do alto do céu a Tua palavra onipotente se precipitou
do trono real, como um
guerreiro inexorável.
(Livro
da Sabedoria 18,14-15)
─ É... Estava mesmo a vagar
por aí a ouvir estrelas...
─ Ouvindo estrelas... de
dia!
─ Como disse o poeta:
suas vozes são tão suaves que permanecem massageando-me os ouvidos sempre que
minha memória me leva ao encontro delas.
─ Adorei o tema,
podemos utilizá-lo em nossa entrevista de hoje?
─ Decerto, é bastante agradável
falar de estrelas e de ouvi-las.
─ Então deixe-me
preparar e..., pronto, podemos começar. E como acontecem esses papos com as
estrelas?
─ Tudo começou há
alguns anos atrás por causa de um sonho. Um desses sonhos que nos acorda no
meio da noite e deixa-nos uma sensação de perplexidade.
─ E o senhor dá
atenção a sonhos?
─ Só àqueles que têm
elementos especiais que me sacodem, sonhos arquetípicos como Jung os
classificou.
─ E é possível distingui-los?
─ É impossível não
fazê-lo, são sonhos com conteúdo bem diferente dos triviais, têm uma imensa
carga simbólica e nos afetam profundamente. De imediato o sono se perde e as
imagens ficam dançando na mente.
─ E poderíamos saber como
foi esse sonho?
─ O que interessa é
que, em linhas gerais, o sonho mostrou-me que eu necessariamente tive que
passar naquele hospital em Leopoldina, pois minha mãe necessitava fazer-me uma
avaliação. No sonho ela me fez exames radiológicos ou algo parecido, mas sua imagem
nada tinha de minha mãe real, era uma senhora cujo rosto era-me completamente
estranho.
─ E por que teve que
necessariamente passar por lá?
─ Foi isso o que a
princípio me perguntei logo ao acordar. Foi lá em Leopoldina que passei um mês
no hospital devido a um acidente e o sonho chamava-me a atenção para o fato. E
com o sono perdido fiquei a reviver o sonho e suas imagens com perguntas tais:
que tipo de exame era aquele a que eu tinha levado a ser submetido? por quem? e
o resultado do exame? E no meio de tantas perguntas e divagações veio-me repentinamente
à mente o trajeto que fazia para ir a Campo Belo, o qual já lhe relatei, e o
enxerguei na mente como se o visse traçado em um mapa. Percebi que as cinco
cidades envolvidas, os pontos de parada, traçavam uma cruz, ou melhor,
Leopoldina figurava como a quinta estrela para formar a imagem do Cruzeiro do
Sul. O sonho atentara-me para isto.
─ O senhor poderia
reconstituir o trajeto para que possamos compreender melhor?
─ Pois bem, Miracema
era o ponto de partida, a parte visível do mundo onde a cruz estava plantada; Juiz
de Fora e Belo Horizonte eram as estrelas que formavam o braço, e Campo Belo
era sua parte superior. Estas quatro cidades, além de fazerem o circuito que em
criança me levava ao seminário, foram as estrelas que confinaram meu trajeto
pela vida. Leopoldina foi apenas um ponto de parada, e foi lá que recebi a
quinta chaga que afetou profundamente tudo o que vivi.
─ Quinta chaga?
─ Foi assim que
interpretei: a primeira chaga, a que veio comigo em minha cidade natal, foi a
dos pés, uma única porque atravessada por um único prego, por onde fui plantado
neste mundo e aprendi a dar os primeiros passos. Formou-se lá a parte mais
funda do meu ser cultivada pela minha família. Foi o ponto de início para a
revelação do meu eu, ou a sua crucificação..., que sei eu?
─ Plantado em uma cruz
na vida, a árvore da vida?
─ Você o disse. A
segunda chaga, a da cabeça, a coroa de espinhos a dilacerar a mente através das
dúvidas e anseios recebi-a em Campo Belo, quando o menino deixou lugar ao
adolescente. E esta me conduziu pela vida como a um animal que só atendia ao
ferrão do carreiro para seguir a estrada. E dos buracos dos espinhos escorria
tudo aquilo que me havia sido gravado na alma; grossas gotas escorriam lavando
aquela inocência e uma realidade outra penetrava, mas no mais profundo, sem se
deixar lavar, o âmago de tudo persistia, o ser real que me traçou um norte. E
os sonhos foram sendo substituídos pelas necessidades.
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Obra de Mestrovic,
altar da igreja em sua terra natal,
Ottavice (Croácia), de nome: Eternamente Crucificado |
─ Um boi seguindo pela
estrada entre espinhos e ferroadas?
─ A terceira e a quarta foram as das mãos, as chagas do trabalho e das relações. À direita, a mais aberta, representada pela estrela de Belo Horizonte onde finquei residência; à esquerda, Juiz de Fora definia quase um limite onde minhas ações podiam alcançar. E nesta trave da cruz quase toda minha vida de trabalho se realizou; ainda tendo no centro, no ponto de intersecção das duas traves, a cidade de Barbacena, que tanta importância teve para minha jornada de sobrevivência.
─ A terceira e a quarta foram as das mãos, as chagas do trabalho e das relações. À direita, a mais aberta, representada pela estrela de Belo Horizonte onde finquei residência; à esquerda, Juiz de Fora definia quase um limite onde minhas ações podiam alcançar. E nesta trave da cruz quase toda minha vida de trabalho se realizou; ainda tendo no centro, no ponto de intersecção das duas traves, a cidade de Barbacena, que tanta importância teve para minha jornada de sobrevivência.
─ Se non vero, bem trovato.
─ A quinta chaga foi a
de Leopoldina, no lado esquerdo do corpo onde a lança deixou resíduo por muitos
anos, pois um sonho avidamente desejado ruiu por inteiro de modo brusco. Naquela
época não tinha nenhuma noção destas análises que hoje posso fazer, mas perdida
toda a esperança na unidade da vida espiritual (amor/ágape), ela se transmutara
em uma tentativa inconsciente de retorno no desejo de poder viver uma vida a
dois, embalada no amor sexual (amor/eros), um engano bem natural ao tentar
encontrar no outro tudo aquilo que perdera. E foi lá naquele hospital que
percebi que tinha entrado num sonho tomando-o como real. Ao lado das enormes
preocupações surgidas pelo acidente, que me trouxe uma completa insegurança com
o futuro, eu me vi ocupado com desejos e sentimentos que me imaginara deles isento.
O sonho ruíra e eu sentia-me só. E se culpa havia era unicamente minha, toda
nascida dos meus atos e desejos.
─ E essas estrelas, essas
cinco cidades confinaram toda sua vida?
─ Quase integralmente.
Houve momentos em que realizei trabalhos
pelo país afora, breves, mas a parte profissional realizou-se quase toda no
triângulo superior delimitado pela trave horizontal.
─ E sentia-o como a um
limite?
─ Não. Acho que em
certo modo fui eu mesmo que inconscientemente fui estabelecendo-o ao definir
prioridades. Interessante que cidades como Lavras e São João del Rey, no
interior do triângulo, foram de bastante importância em minha carreira.
─ Mas havia essa
sensação de ser como se crucificado nesse trajeto?
─ Depois do sonho foi
assim que percebi. Naqueles tempos rodava como um louco por aquelas estradas no
coração das Minas resvalando precipícios e em perigo de encontrar uma árvore
pela frente, sem preocupação com o se de fato ocorresse.
─ Mas nada ocorreu,
nenhum acidente.
─ Nada, saí ileso de
tudo. E quando já estava mais quieto em casa o sonho ajudou-me a perceber a
cruz; então ela já não mais era tão pesada. Ao olhar para trás e ver a
trajetória que talvez o acaso tivesse me levado não era possível deixar de ver
os caminhos da beleza plantados naquela cruz, e, então, assistir ao espetáculo
do início de ser dela baixado.
─ Um alívio?
─ Não somente um
alívio, mas uma redenção e uma cura, como na ópera Parsifal, de Wagner:
Uma
única arma convém:
só é
capaz de fechar a chaga
a
mesma Lança que a abrira.
─ Não entendi.
─ Voltei ao meu
encontro ao percorrer o caminho inverso: através da reconquista do amor/eros abriu-se
a possibilidade de ver fechada a chaga das culpas e enganos e assim renascer o
amor/ágape.
─ A lança que o feriu
foi a mesma que o curou.
─ E pude entender a
resposta de Parsifal sobre o encontro do caminho:
Venho
pelo atalho do erro e da dor.
─ E como estas imagens
lhe ocorreram?
─ Um dia, estudando um
mapa onde via aquela estranha cruz, passou-me pela mente prolongar a cruz e ver
aonde ela chegava. O norte relativo, a partir dos pés, levava aos Andes e para
a América Central, terras de povos sábios, mas não me chamou atenção. A trave
das mãos, onde Belo Horizonte era o meu norte real e também o geográfico,
prolongada atravessava o país e encontrava Belém.
─ Belém?!
─ E foi então que uma
sensação estranha me percorreu, pois via a brilhar lá no alto do país a Estrela
de Belém.
─ Mágico!
─ E ela falou. E fiquei
só a ouvi-la cantando uma estória que falava de um menino que nasceu num lugar
humilde, em um cocho e em meio dos animais.
─ E o que lhe ficou desse
momento?
─ Uma sonata. Ouvi que
a estrela cantava sobre o nascimento de um menino nascido de uma virgem, pois
não era um menino em corpo, senão em espírito, cercado pelos animais, pois era
nascido no corpo animal, que deveria ser anulado e morto para que o menino
pudesse ser cuidado e desenvolver-se.
─ Era, então, um
simples nascimento de um ser em espírito?
─ Uma verdade tão
simples, o homem crucificado em sua vida diária não sabe que Cristo mora em seu inconsciente, embora ele tenha
repetido tantas vezes que era preciso que nascêssemos de novo. A partir de
então fui a mãe desse menino, acalentando-o, alimentando-o, vendo-o crescer a
buscar instrução sobre as coisas do Pai, e o vi percorrer muitos caminhos a
buscar vestígios e pouco encontrou, e o vi a discutir com os doutores a
respeito das escrituras.
─ Bela estória, seu
Jair! E tudo por causa de um sonho!
─ Você quer ouvir de
mais coincidências a respeito do trajeto?
─ E ainda tem mais?
─ Sim, mas essas
ficaram-me sem explicações.
─ E o que seriam?
─ Lá em Campo Belo
convivi com os padres que se chamavam crúzios, da Ordem de Santa Cruz, que eram
padres holandeses.
─ Mais cruzes brotando
do chão.
─ E estes padres
achavam-se no Brasil nessa região delimitada pela minha cruz, nas cinco cidades
e em poucas outras no seu interior, e, fiquei um pouco atônito ao perceber: fora da cruz e das Minas Gerais estavam tão somente em Belém e no Rio de
Janeiro, os dois pontos extremos do prolongamento dos braços da cruz.
-o-
Ouvir Estrelas
Olavo Bilac
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas"


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