Conhecimento e Sabedoria
“Aquele
que pensa que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, sabe” (Tao Te King)
pois
Zeus sem dúvida foi quem levou os homens
pelos
caminhos da sabedoria
e
decretou a regra para sempre certa:
"o
sofrimento é a melhor lição".
Ésquilo
(Oresteia - Agamémnon)
─ E aí, seu Jair, hoje
até parece que o mundo é outro. Riso solto... boas notícias?
─ Notícias? Não. Foi
só algo bem engraçado que recebi pela internet.
─ Então espere eu
arrumar meu equipamento... Conta pra gente.
─ Bom, foi um texto
que me chegou com o título: “Sabedoria
e Conhecimento”.
─ Se o senhor
conseguir controlar esse riso poderia nos falar do texto.
─ Vamos tentar:
Dois discípulos
procuraram um mestre para saber a diferença entre conhecimento e sabedoria.
O mestre disse-lhes:
amanhã, bem cedo, coloquem dentro dos sapatos vinte grãos de feijão, dez em cada
pé. Subam, em seguida, a montanha que se encontra junto a esta aldeia, até o
ponto mais elevado, com os grãos dentro dos sapatos.
No dia seguinte os
jovens discípulos começaram a subir o monte. Lá pela metade um deles estava
padecendo de grande sofrimento: seus pés estavam doloridos e ele reclamava
muito. O outro subia naturalmente a montanha.
Quando chegaram ao topo,
um estava com o semblante marcado pela dor, o outro, sorridente.
Então, o que mais sofreu durante a subida perguntou
ao colega:
-- Como você conseguiu
realizar a tarefa do mestre com alegria, enquanto para mim foi uma verdadeira
tortura?
O companheiro respondeu:
-- Meu caro colega, ontem à noite cozinhei
os vinte grãos de feijão.
─ É que, em seguida, o texto, que se
dizia de autoria desconhecida, continuava a falar sobre a diferença entre os
dois conceitos do título, e no final exortava:
Então, sejamos sábios:
vivamos, amemos e compartilhemos o que há em nossos corações! E que saibamos
cozinhar nossos feijões.
─ Continuo na mesma, o
texto parece apenas dar um bom conselho.
─ Mas aí está a graça. O autor tenta demonstrar
a diferença entre conhecimento e sabedoria e só consegue mostrar que na sua conclusão
utilizou apenas o seu conhecimento
para ver o conteúdo que lhe chamou atenção, mas se dirigirmos a atenção a um foco
determinado, outro sempre surgirá por dentro dele.
─ Entendo, assim como os
dois peixinhos, o símbolo do Tao.
─ Viver, amar e compartilhar
evidentemente são atributos de um sábio, mas a velhacaria do discípulo
cozinheiro ser considerada sabedoria! E não é muito engraçado o sábio do tal
autor desconhecido não saber sequer onde foi beber dessa água e ainda se
atrever a querer aspergi-la como se benta fosse?
─ Mas, seu Jair, tentarmos nos livrar das
dificuldades da vida não é uma atitude sábia?
─ Mas não foi esta a mensagem que o mestre quis
passar aos discípulos. Como exercício para a mente vamos agir como o advogado
do diabo, vejamos: como os dois discípulos eram jovens e estavam
iniciando suas jornadas, podemos lhes dar crédito que nenhum dos dois tenha
entendido o que o mestre queria lhes mostrar, mas, passado o tempo necessário,
o cozinheiro passaria a perceber que jogara fora toda a possibilidade de aprender
a real diferença entre os dois termos, enquanto o outro, que apesar das dores
se esforçou para terminar sua missão, este poderia fazê-lo.
─ Então o senhor diz que o cozinheiro apenas se
furtou a exercer sua jornada?
─ Este usou os seus conhecimentos para fugir a sua missão e no futuro não teria
armazenadas as ferramentas necessárias para ajudá-lo a trilhar o caminho do
verdadeiro conhecimento. Ouço dizer por aí que tais armadilhas são
colocadas pelo demo para que os sábios caiam e fiquem sob o seu poder.
─ Então a dor e o sofrimento da jornada
são os nossos caminhos para avançar e subir a montanha?
─ Ninguém sai pela vida de maneira
espontânea em busca do sofrimento, e fazê-lo seria necessariamente um sinal de
loucura. Já vão longe os tempos dos monges penitentes que se autoflagelavam
imaginando assim trilhar o caminho mais curto para a santificação, mas a vida
nos reserva uma carga adequada de dores, as quais quando as sofremos
preferiríamos não senti-las, porém, ao passar dos anos e ao olharmos para trás,
percebemos que através delas foi que nos construímos.
─ Então não devemos cozinhar os nossos feijões?
─ Quando possível e nossas ferramentas o
permitem, evidentemente, devemos fazê-los, mas quando simplesmente o fazemos
para fugir ao caminho é um total desperdício. Há um poema de Francisco Otaviano,
de nome Ilusões da Vida, que era
comum ser encontrado nos cadernos de lembranças das adolescentes, que, embora
por elas fosse trivialmente utilizado como se falasse da terrível dor das suas
breves paixões, revela bastante o tema:
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu...
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida e não viveu...
E em plácido repouso adormeceu
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu...
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida e não viveu...
─ Hoje também ele é figurinha fácil nos blogs na internet.
─ Para os adolescentes os blogs são apenas
aqueles antigos cadernos que migraram para um meio mais atual.
─ Mas o poema soa um tanto piegas!
─ Há verdades que por serem tão insistentemente
repetidas soam assim, mas, veja, a própria Bíblia repete tantas vezes o mesmo
princípio e ninguém lhe dá ouvidos.
─ Poderia dar- nos um exemplo?
─ A parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32)
é o exemplo mais explícito que me vem à memória.
─ O filho que pede ao pai sua parte na herança
e dissipa-a em uma vida desregrada?
─ E que nada mais possuindo teve que aceitar
trabalhos degradantes que mal o podiam alimentar, enquanto se lembrava que os
empregados de seu pai tinham o pão farto.
─ A vida dissoluta que ele praticou foi o
caminho do aprendizado.
─ Então ele decide humilde e contritamente
voltar e oferecer-se ao pai como um simples trabalhador e este o recebe com festa
por ter recuperado o filho “que morrera e tornou à vida”.
─ Este seria o jovem que subiu com os feijões
crus.
─ E o pai, o mestre, deixou o filho partir para
cumprir sua jornada sem opor obstáculo, sabendo que o grande mestre é a própria
vida.
─ E quando o recebe de volta não é mais o mesmo
filho que partira.
─ Não, o que partira estava morto; ele recebe
de volta um novo filho, humilde e contrito; enquanto isso o outro filho ficara
ao lado do pai todo o tempo.
─ E não sofreu com a subida, então este foi o
que cozinhou os seus feijões.
─ Esse foi o cozinheiro.
─ E não seria essa a atitude sábia?
─ Talvez, e aí então deveríamos mudar de lado e
aceitar a conclusão do autor desconhecido, mas a parábola continua, e diz que o
pai teve que corrigir o segundo filho, pois este não entendera porque motivo o
pai nunca o tinha homenageado como o fizera com o filho perdido.
─ Ele ficou ressentido e sofreu uma decepção.
─ Aparentemente esse filho mais cordato também
deveria ser mais conservador e apegado a seus bens e conceitos, e não aceitou
facilmente a repartição do que lhe era devido, tanto dos seus bens quanto do
amor do pai.
─ E isso para ele também era novo e um caminho
de aprendizado.
─ Portanto, não podemos decidir entre as duas
atitudes, os dois cumpriram caminhos diferentes porque receberam ferramentas
distintas para auxiliá-los na jornada. Mas podemos considerar sábia a atitude
do pai.
─ O mestre que soube respeitar as diferenças e
não tentou forçar o primeiro a cozinhar os feijões.
─ A estória de Sidarta Gautama é contada
dizendo que seu pai, um rei poderoso, querendo que o filho continuasse seu
trabalho isolou-o no palácio tentando protegê-lo do feitiço da vida. Mas nos
breves momentos que ele saía a passeio, isto é, que conseguia livrar-se do
controle do pai, conheceu o pior da vida: a doença, a velhice, a fome, e, em
meio à tristeza, também conheceu um homem santo. E foi o suficiente para
abdicar de sua riqueza material e ir ao mundo para conhecê-lo e, transfigurado,
se tornar o Buda.
─ Não adianta ao pai tentar traçar o caminho.
─ Melhor diríamos, não adianta ao pai, terreno,
tentar traçá-lo.
─ Foi isso que pensei.
─ Na bela ópera Tannhauser também podemos ver
essa estória, nela encontramos, já na parte final, os dois discípulos em
peregrinação a Roma, e, enquanto os outros peregrinos, os trovadores, entoavam
canções de louvor ao amor renovado, Tannhauser só repetia: “Deus, tende piedade de mim, que sou pecador”. Enquanto os demais
andavam pelas estradas, ele caminhava sobre os espinhos.
─ Tannhauser era, então, o filho pródigo.
─ E ia a Roma em busca do perdão que o Papa
poderia conceder-lhe, mas enquanto via os demais retornarem sorrindo e libertos,
na sua vez, ouviu do Papa:
Se te associaste com
demônios, não há perdão para ti, nem no céu nem na Terra. É mais fácil este
cajado seco que seguro em minhas mãos florescer,
do que teus pecados serem perdoados.
─ Este pai não soube perdoar e ainda quis se
apropriar de poderes que não tinha.
─ Mas Tannhauser ainda teve o perdão através do
sacrifício de sua amada, a princesa Elizabeth, que podemos interpretar como sua
alma redimida. Pura e ignorante da revolta dele àquelas palavras, com seu
sacrifício permitiu que o bastão do papa florescesse, mostrando que os céus o haviam perdoado.
─ Mas novamente podemos ver que o caminho dos
trovadores era o dos feijões cozidos.
─ Realmente era. As suas ferramentas permitiam-lhes
caminhar por ele, mas eu pouco conheço desse caminho, porque o meu foi o outro.
─ Então o senhor não cozinhou os seus feijões.
─ Não, não os cozinhei, foi um caminho duro, o
caminho do Judas.
-o-
(de Rabindranath Tagore)
No dia em que a flor
de lótus desabrochou
A minha mente vagava,
e eu não a percebi.
Minha cesta estava
vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e
novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho
sentindo o doce rastro
De um perfume no vento
sul.
Essa vaga doçura fez o
meu coração doer de saudade,
Pareceu-me ser o sopro
ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que
a flor estava tão perto de mim,
Que ela era minha, e
que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo
do meu coração.

Nenhum comentário:
Postar um comentário