sábado, 19 de novembro de 2016

Conhecimento e Sabedoria





Conhecimento e Sabedoria


“Aquele que pensa que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, sabe”                                                (Tao Te King)

pois Zeus sem dúvida foi quem levou os homens
pelos caminhos da sabedoria
e decretou a regra para sempre certa:
"o sofrimento é a melhor lição".
                                           Ésquilo (Oresteia - Agamémnon)


─ E aí, seu Jair, hoje até parece que o mundo é outro. Riso solto... boas notícias?
─ Notícias? Não. Foi só algo bem engraçado que recebi pela internet.
─ Então espere eu arrumar meu equipamento... Conta pra gente.
─ Bom, foi um texto que me chegou com o título: “Sabedoria e Conhecimento”.
─ Se o senhor conseguir controlar esse riso poderia nos falar do texto.
─ Vamos tentar:

Dois discípulos procuraram um mestre para saber a diferença entre conhecimento e sabedoria.
O mestre disse-lhes: amanhã, bem cedo, coloquem dentro dos sapatos vinte grãos de feijão, dez em cada pé. Subam, em seguida, a montanha que se encontra junto a esta aldeia, até o ponto mais elevado, com os grãos dentro dos sapatos.
No dia seguinte os jovens discípulos começaram a subir o monte. Lá pela metade um deles estava padecendo de grande sofrimento: seus pés estavam                             doloridos e ele reclamava muito. O outro subia naturalmente a montanha.
Quando chegaram ao topo, um estava com o semblante marcado pela dor, o outro, sorridente.
Então, o que mais sofreu durante a subida perguntou ao colega:
-- Como você conseguiu realizar a tarefa do mestre com alegria, enquanto para mim foi uma verdadeira tortura?
O companheiro respondeu:
-- Meu caro colega, ontem à noite cozinhei os vinte grãos de feijão.


,─ Embora seja engraçado, onde está o motivo de tanto riso, seu Jair?
─ É que, em seguida, o texto, que se dizia de autoria desconhecida, continuava a falar sobre a diferença entre os dois conceitos do título, e no final exortava:

Então, sejamos sábios: vivamos, amemos e compartilhemos o que há em nossos corações! E que saibamos cozinhar nossos feijões.

─ Continuo na mesma, o texto parece apenas dar um bom conselho.
─ Mas aí está a graça. O autor tenta demonstrar a diferença entre conhecimento e sabedoria e só consegue mostrar que na sua conclusão utilizou apenas o seu conhecimento para ver o conteúdo que lhe chamou atenção, mas se dirigirmos a atenção a um foco determinado, outro sempre surgirá por dentro dele.
─ Entendo, assim como os dois peixinhos, o símbolo do Tao.
Viver, amar e compartilhar evidentemente são atributos de um sábio, mas a velhacaria do discípulo cozinheiro ser considerada sabedoria! E não é muito engraçado o sábio do tal autor desconhecido não saber sequer onde foi beber dessa água e ainda se atrever a querer aspergi-la como se benta fosse?
─ Mas, seu Jair, tentarmos nos livrar das dificuldades da vida não é uma atitude sábia?
─ Mas não foi esta a mensagem que o mestre quis passar aos discípulos. Como exercício para a mente vamos agir como o advogado do diabo, vejamos: como os dois discípulos eram jovens e estavam iniciando suas jornadas, podemos lhes dar crédito que nenhum dos dois tenha entendido o que o mestre queria lhes mostrar, mas, passado o tempo necessário, o cozinheiro passaria a perceber que jogara fora toda a possibilidade de aprender a real diferença entre os dois termos, enquanto o outro, que apesar das dores se esforçou para terminar sua missão, este poderia fazê-lo.
─ Então o senhor diz que o cozinheiro apenas se furtou a exercer sua jornada?
─ Este usou os seus conhecimentos para fugir a sua missão e no futuro não teria armazenadas as ferramentas necessárias para ajudá-lo a trilhar o caminho do verdadeiro conhecimento. Ouço dizer por aí que tais armadilhas são colocadas pelo demo para que os sábios caiam e fiquem sob o seu poder.
─ Então a dor e o sofrimento da jornada são os nossos caminhos para avançar e subir a montanha?
─ Ninguém sai pela vida de maneira espontânea em busca do sofrimento, e fazê-lo seria necessariamente um sinal de loucura. Já vão longe os tempos dos monges penitentes que se autoflagelavam imaginando assim trilhar o caminho mais curto para a santificação, mas a vida nos reserva uma carga adequada de dores, as quais quando as sofremos preferiríamos não senti-las, porém, ao passar dos anos e ao olharmos para trás, percebemos que através delas foi que nos construímos. 
─ Então não devemos cozinhar os nossos feijões?
─ Quando possível e nossas ferramentas o permitem, evidentemente, devemos fazê-los, mas quando simplesmente o fazemos para fugir ao caminho é um total desperdício. Há um poema de Francisco Otaviano, de nome Ilusões da Vida, que era comum ser encontrado nos cadernos de lembranças das adolescentes, que, embora por elas fosse trivialmente utilizado como se falasse da terrível dor das suas breves paixões, revela bastante o tema:
           
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu...
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida e não viveu...

─ Hoje também ele é figurinha fácil nos blogs na internet.
─ Para os adolescentes os blogs são apenas aqueles antigos cadernos que migraram para um meio mais atual.
─ Mas o poema soa um tanto piegas!
─ Há verdades que por serem tão insistentemente repetidas soam assim, mas, veja, a própria Bíblia repete tantas vezes o mesmo princípio e ninguém lhe dá ouvidos.
─ Poderia dar- nos um exemplo?
─ A parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32) é o exemplo mais explícito que me vem à memória.
─ O filho que pede ao pai sua parte na herança e dissipa-a em uma vida desregrada?
─ E que nada mais possuindo teve que aceitar trabalhos degradantes que mal o podiam alimentar, enquanto se lembrava que os empregados de seu pai tinham o pão farto.
─ A vida dissoluta que ele praticou foi o caminho do aprendizado.
─ Então ele decide humilde e contritamente voltar e oferecer-se ao pai como um simples trabalhador e este o recebe com festa por ter recuperado o filho “que morrera e tornou à vida”.
─ Este seria o jovem que subiu com os feijões crus.
─ E o pai, o mestre, deixou o filho partir para cumprir sua jornada sem opor obstáculo, sabendo que o grande mestre é a própria vida.
─ E quando o recebe de volta não é mais o mesmo filho que partira.
─ Não, o que partira estava morto; ele recebe de volta um novo filho, humilde e contrito; enquanto isso o outro filho ficara ao lado do pai todo o tempo.
─ E não sofreu com a subida, então este foi o que cozinhou os seus feijões.
─ Esse foi o cozinheiro.
─ E não seria essa a atitude sábia?
─ Talvez, e aí então deveríamos mudar de lado e aceitar a conclusão do autor desconhecido, mas a parábola continua, e diz que o pai teve que corrigir o segundo filho, pois este não entendera porque motivo o pai nunca o tinha homenageado como o fizera com o filho perdido.
─ Ele ficou ressentido e sofreu uma decepção.
─ Aparentemente esse filho mais cordato também deveria ser mais conservador e apegado a seus bens e conceitos, e não aceitou facilmente a repartição do que lhe era devido, tanto dos seus bens quanto do amor do pai.
─ E isso para ele também era novo e um caminho de aprendizado.
─ Portanto, não podemos decidir entre as duas atitudes, os dois cumpriram caminhos diferentes porque receberam ferramentas distintas para auxiliá-los na jornada. Mas podemos considerar sábia a atitude do pai.
─ O mestre que soube respeitar as diferenças e não tentou forçar o primeiro a cozinhar os feijões.
─ A estória de Sidarta Gautama é contada dizendo que seu pai, um rei poderoso, querendo que o filho continuasse seu trabalho isolou-o no palácio tentando protegê-lo do feitiço da vida. Mas nos breves momentos que ele saía a passeio, isto é, que conseguia livrar-se do controle do pai, conheceu o pior da vida: a doença, a velhice, a fome, e, em meio à tristeza, também conheceu um homem santo. E foi o suficiente para abdicar de sua riqueza material e ir ao mundo para conhecê-lo e, transfigurado, se tornar o Buda.
─ Não adianta ao pai tentar traçar o caminho.
─ Melhor diríamos, não adianta ao pai, terreno, tentar traçá-lo.
─ Foi isso que pensei.
─ Na bela ópera Tannhauser também podemos ver essa estória, nela encontramos, já na parte final, os dois discípulos em peregrinação a Roma, e, enquanto os outros peregrinos, os trovadores, entoavam canções de louvor ao amor renovado, Tannhauser só repetia: “Deus, tende piedade de mim, que sou pecador”. Enquanto os demais andavam pelas estradas, ele caminhava sobre os espinhos.
─ Tannhauser era, então, o filho pródigo.
─ E ia a Roma em busca do perdão que o Papa poderia conceder-lhe, mas enquanto via os demais retornarem sorrindo e libertos, na sua vez, ouviu do Papa:

Se te associaste com demônios, não há perdão para ti, nem no céu nem na Terra. É mais fácil este cajado seco que seguro em minhas mãos  florescer, do que teus pecados serem perdoados.

─ Este pai não soube perdoar e ainda quis se apropriar de poderes que não tinha.
─ Mas Tannhauser ainda teve o perdão através do sacrifício de sua amada, a princesa Elizabeth, que podemos interpretar como sua alma redimida. Pura e ignorante da revolta dele àquelas palavras, com seu sacrifício permitiu que o bastão do papa florescesse, mostrando que os céus o haviam perdoado.
─ Mas novamente podemos ver que o caminho dos trovadores era o dos feijões cozidos.
─ Realmente era. As suas ferramentas permitiam-lhes caminhar por ele, mas eu pouco conheço desse caminho, porque o meu foi o outro.
─ Então o senhor não cozinhou os seus feijões.
─ Não, não os cozinhei, foi um caminho duro, o caminho do Judas.

-o-


          (de Rabindranath Tagore)

No dia em que a flor de lótus desabrochou
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade,
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim,
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu coração.

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