O Homem do Fez
─ Doutor, conta uma estória daquelas lindas pra eu poder ficar a
pensar...
Miguilim pedia pro Doutor toda
noite que podia.
─ Era uma vez...
Quando o Doutor atendia, Miguilim
se ajeitava. Sentado com as pernas dobradas, mão no queixo, esbugalhava os
ouvidos.
─ ...um estranho que aportou no lugar. Ninguém soube de onde vinha,
ninguém soube seu passado. Ninguém estranhou sua chegada e por nada se distinguia
no proceder; na rua não sendo apontado por ninguém. Mas havia um certo porém,
pois tinha ao invés da cabeça um fez.
─ Um quê? – atalhou o Miguilim – um féz?
─ Não chicaneia, Miguilim, embora você não tenha culpa pela confusão
que fizeram quando tiraram o acento, é fêz. É um chapéu, às vezes chamado
turco, às vezes marroquino.
─ Ué, um chapéu! Como é que era?
─ Ué, um chapéu! Como é que era?
─ O fez é assim como um balde emborcado, igual quando uma criança põe
o balde na cabeça fingindo-o um capacete.
─ Mas se o homem não tinha cabeça...
─ Pois é, o fez era a sua cabeça. Mas você está atrapalhando a
estória com tanta perguntação. Pois assim era, mas a cabeça não lhe fazia falta
nenhuma, eu já disse que em tudo ele agia normal e ninguém o incomodava. Só uma
vez, um menino...
─ Deve de ter ficado com medo dele!
─ Não, não ficou... O menino talvez tenha sido aquele mesmo que
gritou que o rei estava nu, lembra?
─ Mas você contou que esse morava longe, em outro país, que lá tinha
rei.
─ Mas ele estava naquela cidade do Homem do Fez.
─ Às vezes, então, com saudade ele veio visitar um tio que morava
nela.
─ Talvez, mas o menino um dia o viu passar e gritou: “Olha lá o
homem sem cara!”. Mas se alguém ouviu o menino ninguém deu a perceber, ninguém
nem o notou nem o Homem do Fez se incomodou.
─ Eu acho que eu ficava embolorado de espanto!
─ Ele todo se esforçava por ser um comum do lugar. Fez seus estudos
medianamente e graduou-se. Colocou seu diploma na parede e para tornar-se mais
sábio dedicou-se uns anos mais aos livros, e especializou-se em tudo que era
conhecido a respeito da mão.
─ Ele se formou como um doutor em mão?
─ Assim mesmo o foi, em tudo que se podia saber sobre a mão ele era
especialista. E não contente com seu saber resolveu continuar estudando e
gastou anos mais sobre os livros para saber tudo sobre um dedo.
─ Ué, mas um dedo é menos que uma mão!
─ Mas naquela cidade era mesmo assim estranho, Miguilim, sabendo tudo sobre
o dedo ele podia cobrar mais pelo seu saber. Mas ele achou que o que cobrava
ainda era coisa pouca e gastou seu tempo para tornar-se o mais sábio dos
doutores, e passou mais anos estudando para saber tudo sobre uma unha.
─ Assim então ele ia ganhar muito mais, né?
─ Pois é. Graduado no mais alto saber tornou-se admirado no lugar, ninguém
o percebia como o homem do fez. Em tudo ele vivia igual. Aos domingos
enfatiotava-se e ia cumprir os seus ofícios com Deus, mas o curioso é que ele
saía a esmo...
─ Esmo? Quê que é isso?
─ Ele saía de casa sem um rumo definido e sem pesar diferenças, que não as
podia enxergar. Entrava em uma igreja por onde achasse uma porta aberta. Assim,
num domingo podia estar em uma missa, e ajoelhava-se quando era de ajoelhar,
levantava-se quando era de alevantar, seguia tudo concentrado como todos os
paroquianos por lá.
─ Paraoquê? – atalhou de novo o Miguilim, sempre disposto a aprender.
─ Paroquianos, Miguilim, são as pessoas de um lugar, a paróquia, que se
juntam para atender os preceitos de Deus, todos com os mesmos objetivos,
entendeu?
─ Ah! Entendi...
─ Bom, noutro domingo ele ia para outra paróquia, se achasse uma mesquita
por ela entrava normalmente: deixava seu sapato ao entrar, prostrava-se ao chão
para pedir perdão por seus pecados e reverenciava a Allah.
─ Alá?
─ É o nome com que os muçulmanos se referem a Deus.
─ Então Deus tem outro nome ou é outro deus?
─ É o mesmo, Miguilim, ele tem diversos nomes pelo mundo afora.
─ Minha cabeça fica assim enconfundida, se eu tivesse muitos nomes eu nem
ia saber quando me chamassem.
─ É confuso porque as pessoas não se entendem, Miguilim, e cada um quer dar-
lhe um nome diferente para melhor dele se apropriarem. Bom, continuando: às
vezes o Homem do Fez saía no sábado para ir à sinagoga.
─ E o que é sinagoga?
─ É o nome que se dá ao local de reunião dos judeus. Estes têm uma religião
muito antiga, dizem que desde que o mundo existe. São o povo da Bíblia, da qual
já lhe contei todas aquelas estórias: de Moisés, de Davi, do Noé. Na sinagoga os
judeus se reúnem para rezar e com reverência estudar a Torá. E na sinagoga ninguém
poderia dizer que o Homem do Fez não era um deles.
─ Era porque ele fazia igual aos judeus?
─ Isso mesmo, ele se tornava um deles. Mas em um outro domingo poderíamos
encontrar o Homem do Fez num templo ouvindo o sermão de um pastor e cantando
louvores ao Senhor, noutro domingo num templo budista imerso em meditação. Mas
a ninguém incomodava o seu proceder.
─ Talvez por que ele não tinha cara e eles não podiam saber se ele era ele
ou se era um outro homem do fez.
─ É, talvez. Mas um dia um estranho àquele lugar se incomodou com sua,
conforme o estranho pensava, leviandade. E lhe perguntou: “Como pode um homem
servir descaradamente a tantos senhores“? O Homem do Fez ficou assustado, mas
assim respondeu: “Como dizes tantos senhores? Sempre achei que servia a meu Pai.”.
─ Ué, eu também fiquei pensando assim, se era um só mesmo.
─ Mas a partir de então acendeu no Homem do Fez uma inquietação e sentiu-se
deslocado, um pássaro fora do ninho. Passou a só procurar a igreja da paróquia
que mais lhe era próxima. O estranho lhe mostrara que ele não tinha uma
identidade e quis vestir uma para não parecer que estava nu.
─ Então aquele menino viu...
─ O Homem do Fez também encontrou sua cara metade e em uma bela cerimônia
casou-se. Ninguém naquele lugar discordou que tinha sido a mais bela festa que
presenciara. E como todo casamento quer, nasceu um dia o filho do Homem do Fez.
Um pequenino ser que ao ser apresentado ao seu pai, chorou, chorou, chorou, chorou...
Miguilim, que já se mostrava inquieto, deixou de súbito sua postura
contemplativa e os seus olhos lacrimejaram de espanto.
E o Miguilim também chorou, chorou, chorou, chorou...
***
NÓS DOIS
uma jóia de Guilherme
de Almeida
Chão humilde.
Então,
Riscou-o a sombra de um vôo,
“Sou céu!” disse
o chão.

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