sábado, 26 de novembro de 2016

Lia e Raquel






Lia e Raquel



                                                                       (sobre o casamento:)

Os dois realmente são um, sobretudo espiritualmente. O biológico é a distração que pode conduzi-lo à falsa identificação.”

                                                                                                                                                                                 Joseph Campbell

           

Dentre os não religiosos, para a maioria, há um grande preconceito a respeito das histórias bíblicas. Evidentemente tal acontece devido ao senso de rota moralidade que querem atribuir-lhes os que se acreditam possuir a verdade. Pela definição normal do termo religioso, eu pouco tenho que me possa caber esta qualidade ou defeito, mas nunca deixei de ler a Bíblia, essencialmente pelo valor intrínseco de suas “estórias”, que nos falam a respeito de nossas vidas. Raramente leio-a seguindo a ordem estabelecida, exceto, por suposto, por pequenos trechos, mas por norma abro-a aleatoriamente.



Há inúmeras estórias do Livro conhecidas por quase todos, mesmo que nele não lidas, mas conhecê-las é diferente de entendê-las e o que mais ressalta em diversas delas é a estranha moralidade que possuem e que os religiosos, confusos, tentam a todo custo explicar o que é inexplicável com os seus padrões. Em qualquer delas poderemos encontrar as características pelas quais Rubem Alves disse: “uma estória não aconteceu nunca para que aconteça sempre”.



            Por tudo que pude assimilar, as estórias bíblicas falam muito dos nossos problemas íntimos, além do aspecto moral ou religioso. Para esclarecer um pouco mais este conceito quero lembrar-lhes de um trecho da estória de Jacó, da qual farei um pequeno resumo:



            Jacó deixou sua família e seu país, fugido da ira de seu irmão, Esaú, e partiu para a casa de seu tio Labão. Apaixonado por Raquel, filha de Labão, fez com este um acerto pelo qual a receberia como esposa em troca de sete anos de serviços. Vencidos os sete anos, seu tio enganou-o colocando em sua cama a filha mais velha, Lia. Conta a estória que Jacó só percebeu que fora enganado ao acordar na manhã seguinte, e o casamento fora consumado. Jacó reclamou, mas o sogro lhe disse que era costume que primeiro a filha mais velha se casasse e, assim, promete-lhe Raquel se ele lhe servisse por mais sete anos. Jacó aceitou o acordo e trabalhou outros sete anos por Raquel e durante estes anos enriqueceu com a parte que lhe coube nos rebanhos e nas colheitas. Além das duas mulheres, Jacó teve filhos com as servas de suas esposas, como era costume.



            O que ressalta nesta estória é o engano de Jacó: julgando casar-se com Raquel, descobre-se logrado e casa-se com Lia, e viverá ainda muitos anos suspirando por sua Raquel. O contexto da sexualidade dirigindo os atos de Jacó não difere em nada do que acontece em nossos dias, embora os ambientes culturais sejam tão díspares. Jacó, como qualquer jovem moderno, lança mão de tudo o que pode para conseguir sua bela Raquel, e, como só tem os braços para oferecer em troca, não se melindra em “escravizar-se”. Lendo tais estórias podemos perceber que somos ainda os mesmos desde aqueles tempos bíblicos, a evolução do pensamento tornou-nos mais “civilizados”, mas o que nos move são as mesmas motivações. A ciência e a tecnologia não nos salvaram: as ferramentas que possuímos podem ser outras além das próprias mãos de Jacó; alguns costumes como a poligamia e o concubinato com servas foram banidos de nosso meio, mas há substitutos. O motor é o mesmo.



Há algo mais sutil que talvez não seja tão evidenciado porque em nossos dias a esperteza do sogro ao trocar a noiva não nos parece muito lógica e nenhum de nós seria tão passivo ao sentir-se logrado de tal maneira, por isso temos a tendência a encarar a trama como uma anedota, mas será?



            Quando hoje um casamento se deteriora não fica aquela mesma sensação de logro? E aquelas perguntas que se ouve sopradas por todos os ventos: onde anda a bela Raquel? Será que é mesmo a Raquel ou ainda não a encontrei? E novamente saímos pelo mundo e, como se Labão estivesse nos oferecendo um novo contrato, redobramos energia para buscar a Raquel.



            No seu tempo e nos seus costumes, Jacó podia ainda se distrair com as servas, entretendo-se enquanto esperava, ao mesmo tempo em que trabalhava e acumulava “posses” para si e seu sogro. Raquel era o seu motor e talvez não fosse tão produtivo se a tivesse recebido quando imaginou. Labão soube extrair dele toda a sua potência, e talvez ainda exista um Labão mexendo os fios para que nossa insatisfação faça- nos produzir sempre mais com o objetivo de poder trocar o produto de nosso esforço pela bela Raquel. E servas não raras existem para nos entretermos enquanto esperamos.



            Existe no Livro uma outra estória que tem paralelos interessantes com a de Jacó, a estória de Tobias. Este personagem também sai de sua terra e vai em busca de uma prima. Esta já se casara sete vezes, mas ainda permanecia virgem, pois seus maridos haviam sido mortos nas núpcias por um demônio que nela existia e que dela tinha ciúmes. Tobias apavorou-se com o caso, mas um anjo que o guiava lhe disse: “Não temas, pois ela te foi destinada em partilha, antes dos tempos”. E seguindo os conselhos do anjo, Tobias eliminou o demônio e casou-se com a prima.



            Por tudo isso é que se diz:

            Bem-aventurados os que no princípio recebem a Raquel,

            Mal-aventurados os que recebem a Lia e se enterram sem a Raquel.         





 
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de Rubem Alves, falando sobre casamentos, dos tipos “tênis” e “frescobol”:



“Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre

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