Lia e Raquel
(sobre o casamento:)
“Os
dois realmente são um, sobretudo espiritualmente. O biológico é a distração que
pode conduzi-lo à falsa identificação.”
Joseph Campbell
Dentre os não religiosos, para a maioria, há um grande
preconceito a respeito das histórias bíblicas. Evidentemente tal acontece
devido ao senso de rota moralidade que querem atribuir-lhes os que se acreditam possuir a verdade. Pela definição normal do
termo religioso, eu pouco tenho que me possa caber esta qualidade ou defeito,
mas nunca deixei de ler a Bíblia, essencialmente pelo valor intrínseco de suas
“estórias”, que nos falam a respeito de nossas vidas. Raramente leio-a seguindo
a ordem estabelecida, exceto, por suposto, por pequenos trechos, mas por norma
abro-a aleatoriamente.
Há inúmeras estórias do Livro conhecidas
por quase todos, mesmo que nele não lidas, mas conhecê-las é diferente de
entendê-las e o que mais ressalta em diversas delas é a estranha moralidade que
possuem e que os religiosos, confusos, tentam a todo custo explicar o que é
inexplicável com os seus padrões. Em qualquer delas poderemos encontrar as
características pelas quais Rubem Alves disse: “uma estória não aconteceu nunca
para que aconteça sempre”.
Por tudo que pude assimilar, as estórias
bíblicas falam muito dos nossos problemas íntimos, além do aspecto moral ou
religioso. Para esclarecer um pouco mais este conceito quero lembrar-lhes de um
trecho da estória de Jacó, da qual farei um pequeno resumo:
Jacó deixou
sua família e seu país, fugido da ira de seu irmão, Esaú, e partiu para a casa
de seu tio Labão. Apaixonado por Raquel, filha de Labão, fez com este um acerto
pelo qual a receberia como esposa em troca de sete anos de serviços. Vencidos
os sete anos, seu tio enganou-o colocando em sua cama a filha mais velha, Lia.
Conta a estória que Jacó só percebeu que fora enganado ao acordar na manhã
seguinte, e o casamento fora consumado. Jacó reclamou, mas o sogro lhe disse
que era costume que primeiro a filha mais velha se casasse e, assim,
promete-lhe Raquel se ele lhe servisse por mais sete anos. Jacó aceitou o
acordo e trabalhou outros sete anos por Raquel e durante estes anos enriqueceu
com a parte que lhe coube nos rebanhos e nas colheitas. Além das duas mulheres,
Jacó teve filhos com as servas de suas esposas, como era costume.
O que
ressalta nesta estória é o engano de Jacó: julgando casar-se com Raquel,
descobre-se logrado e casa-se com Lia, e viverá ainda muitos anos suspirando
por sua Raquel. O contexto da sexualidade dirigindo os atos de Jacó não difere
em nada do que acontece em nossos dias, embora os ambientes culturais sejam tão
díspares. Jacó, como qualquer jovem moderno, lança mão de tudo o que pode para
conseguir sua bela Raquel, e, como só tem os braços para oferecer em troca, não
se melindra em “escravizar-se”. Lendo tais estórias podemos perceber que somos
ainda os mesmos desde aqueles tempos bíblicos, a evolução do pensamento
tornou-nos mais “civilizados”, mas o que nos move são as mesmas motivações. A
ciência e a tecnologia não nos salvaram: as ferramentas que possuímos podem ser
outras além das próprias mãos de Jacó; alguns costumes como a poligamia e o
concubinato com servas foram banidos de nosso meio, mas há substitutos. O motor
é o mesmo.
Há algo mais sutil que talvez não
seja tão evidenciado porque em nossos dias a esperteza do sogro ao trocar a noiva
não nos parece muito lógica e nenhum de nós seria tão passivo ao sentir-se
logrado de tal maneira, por isso temos a tendência a encarar a trama como uma
anedota, mas será?
Quando hoje
um casamento se deteriora não fica aquela mesma sensação de logro? E aquelas
perguntas que se ouve sopradas por todos os ventos: onde anda a bela Raquel?
Será que é mesmo a Raquel ou ainda não a encontrei? E novamente saímos pelo
mundo e, como se Labão estivesse nos oferecendo um novo contrato, redobramos
energia para buscar a Raquel.
No seu
tempo e nos seus costumes, Jacó podia ainda se distrair com as servas,
entretendo-se enquanto esperava, ao mesmo tempo em que trabalhava e acumulava “posses”
para si e seu sogro. Raquel era o seu motor e talvez não fosse tão produtivo se
a tivesse recebido quando imaginou. Labão soube extrair dele toda a sua
potência, e talvez ainda exista um Labão mexendo os fios para que nossa
insatisfação faça- nos produzir sempre mais com o objetivo de poder trocar o
produto de nosso esforço pela bela Raquel. E servas não raras existem para nos
entretermos enquanto esperamos.
Existe no
Livro uma outra estória que tem paralelos interessantes com a de Jacó, a
estória de Tobias. Este personagem também sai de sua terra e vai em busca de
uma prima. Esta já se casara sete vezes, mas ainda permanecia virgem, pois seus
maridos haviam sido mortos nas núpcias por um demônio que nela existia e que dela
tinha ciúmes. Tobias apavorou-se com o caso, mas um anjo que o guiava lhe
disse: “Não temas, pois ela te foi destinada em partilha, antes dos tempos”.
E seguindo os conselhos do anjo, Tobias eliminou o demônio e casou-se com a
prima.
Por tudo
isso é que se diz:
Bem-aventurados
os que no princípio recebem a Raquel,
Mal-aventurados
os que recebem a Lia e se enterram sem a Raquel.
-o-
de Rubem Alves, falando sobre casamentos, dos tipos “tênis”
e “frescobol”:
“Tênis é assim: recebe-se o
sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se
busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre
perde.
Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre

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