terça-feira, 15 de novembro de 2016

Gurufim






Gurufim       


                                                                                                       ao Ronaldo e ao Milton             

                                                                                 (escrito em dezembro/2012)             



─ Bom dia, Seu Taú!

─ Bom dia, Dona Menina!

─ Levantou com as galinhas hoje, hem? Tão cedo e o senhor já está de volta de não sei quê?

─ Num levantei nada, Dona Menina, num levantei nem deitei de ontem.

─ O senhor tá mesmo com cara de amassado, passou na farra, Seu Taú?

─ Farra não, Dona Menina, estava bebendo o defunto do cumpadre Zé, que Deus o tenha e guarde.

─ Uai, num fiquei nem sabendo, tava doente o coitado?

─ Tava já de uns tempo, Dona Menina!

─ Mas que mazela o sofrido padecia, Seu Taú?

─ De anos, Dona Menina!

─ E que malvada de doença é essa que nem conheço?

─ Velhice, Dona Menina, velhice pura, que as coisas lá do ser dele nem estava mais elaborando direito.

─ Eu até que num era muito do conhecimento desse seu compadre não, que mora longe, lá pras bandas do Córrego do Feijão. Conhecer mesmo só conhecia uma filha dele, a Piedade.

─ Pois é, Dona Menina, dessa vez ele foi mesmo domado pela velha megera. A senhora sabe que é decerto a segunda vez que vou lá beber o defunto do cumpadre?

─ Segunda vez, Seu Taú, e como é que um pode morrer duas vezes?

─ Pois, antão, Dona Menina, há coisa de uma quinzena já fui eu lá pro Córrego do Feijão pra modo beber o defunto dele. Passamo a noite e a alvorada a derramar cachaça de litro mais umas coisinha de sal, como de costume, pra dar tempo pro morto de arrependimento. O dia rompendo foi servida umas broinha de milho com café preto pra desfazer a modorra.

─ Êta costume custoso esse, Seu Taú, inda além de sofrer as penas da morte inda ter que cuidar da comilança pros pranteadores.

─ Pois é, Dona Menina, é penoso não ser o vilarejo provido de um lugar pra modo fazer um gurufim decente, alonjado do dessossego da família.

─ Enfim, Seu Taú, estamos hoje quanto ontem, o jeito é botar o falecido na sala com os pés voltados pra porta da frente, alumiar as velas e rezar o terço. Mas o senhor tava contando...

─ Ah, sim, do velório. Pois a senhora sabe como era o compadre Zé, não?

─ Não, num sei não, eu já lhe havia contado que num conheço bem ele não!

─ Pois antão, Dona Menina, o compadre era ladino que só ele! Num perdia vez em fazer um chiste. Aliás, a comadre Mariinha num lhe fica atrás.

─ E aí, Seu Taú, o senhor tá me deixando numa angústia de curiosidade...

─ Pois antão, tava todo mundo desgustando a broinha de milho com café, que por ocasião tava muito do apreceio do meu paladar, e a Paixão, a caçulita do Zé, depois que trouxe o café assentou do lado do caixão e despregou aquele choro de derramamento de pesar.

─ Que dó me dá, Seu Taú!

─ E tava ela ali desconsolada, com atenção do confortar dos presentes, assim distraída de dor... Foi antão que ela olhou mais detidamente pro defunto e falou baixinho: “Os olhinhos dele se despregaram...”, e levou a mão pra cara do falecido para fechar de novo os olho dele... Foi antão que ela escutou por baixo da mão dela que cobria a boca do cujo: “Que é isso, Paixãozinha, tão me querendo empalhar tão cedo?”.

─ Virge Santíssima!

─ Num é, Dona Menina? Pois foi um Deus nos acuda! A pobre Paixão gritava mais que cachorro judiado, num anervosamento que ninguém conseguia dirimir.

─ Então o seu compadre estava ainda vivinho!

─ Num é que tava, Dona Menina, ele num só alevantou do caixão porque num tinha mais força pra aguentar o tranco. E o ladino ainda ria.

─ Sem dó da pobre moça!

─ Pois antão, Dona Menina, quando ele se deu em si, ele ficou um tempo prescutando e percebeu que estava mesmo era num caixão, na mala do velório dele, e num perdeu ocasião.

─ Mas que ladino! Mas, Seu Taú, esse seu discorrer me faz lembrar é de algum morto que não quer morrer!

─ Como assim, Dona Menina, num quer é ser enterrado?

─ Não quer, não quer mesmo. Pois veja o senhor, que nós passamos oito anos aturando desaforos do santarrão, que não dava senso de nada, tadinho do pobrezinho traído... agora temos que contender na sua luta pra ressuscitar.

─ E a Senhora Dona Menina acha jeito de assuceder tamanha moléstia pra gente já de tanto sofrer?

─ Que Nosso Senhor Jesus Cristo nos proteja e feche todas as portas do inferno!

─ Que assim seja, Dona Menina, que já nos sobra muita pena de sofrer nossas tristeza. Mas, Dona Menina, de retorno pro defunto meu cumpadre, num sei se a senhora apercebeu que eu falei que ele perguntou se tavam querendo empalhar ele.

─ Num dei tino, Seu Taú, por quê?

─ Ora, pois, é mais uma das graça que ele era mister. Pois um dia, um neto dele lá, filho num me alembro de qual Maria, chegou da capital contando de um enterro em que ele foi que o morto foi queimado.

─ Cremado, Seu Taú, é assim que eles falam.

─ Pois é, cremado, queimado, o dito fato é que sobra só cinza. Pois foi antão que o neto perguntou pro Zé se ele preferia ser cremado ou enterrado próprio na cova.

─ E o Zé escolheu o quê, Seu Taú?

─ Nem lé nem cré, Dona Menina, pois ele falou mesmo é que queria ser empalhado.

─ Empalhado, Seu Taú?

─ Empalhado!

─ E fazer o quê do empalhado?

─ O que lhes aprovesse, uais! Podia colocar na sala sentado como de costume na cadeira de balanço ou guardar num armário pra num apavorar os desavisados.

─ Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, livrai-nos de tamanha sandice!

─ Pois num é, Dona Menina, e ajuntava inda o Zé com aquela cara de vira-lata abusado: “quando algum sentisse uma saudade, bastava abrir o armário pra uma prosinha ligeira, ou quando viesse uma visita, podia abrir o armário pra modo a visita dar um cumprimento”.

─ Pois é, Seu Taú, e talvez a visita dissesse um bom dia e ajuntasse:”como está passando, Seu Zé, pelo menos a aparência tá bem melhor que antes”.

─ Mas era mesmo assim meu cumpadre Zé, maroteiro como só ele podia! Eu às vez fico pensando que até nos nome das criança ele fez facécia.

─ Como assim, Seu Taú?

─ A senhora sabe, né? A comadre Mariinha alega que foi por pura devoção à Virge Nossa Senhora, mas num sei não, fico assuntando e a pulga não me desgruda.

─ Mas por que isso, Seu Taú? Eu só sabia da Piedade e, agora, depois que o senhor falou, da Paixão. Mas qual é a graça?

─ Pois é da Graça mesmo, Dona Menina, da Mariinha que é Maria da Graça. Os menino, não sei se a senhora já sabe, são José Maria, Pedro Maria e Antônio Maria.

─ Santa Devoção! E as meninas?

─ Olha antão os nome das menina: Maria da Piedade, Maria da Misericórdia, Maria da Penitência e Maria da Paixão. Outro dia mesmo eu me vi no meio de uma conversação que um desinformado fez uma baita mixórdia com uma quando chamou ela de Piedade.

─ E não era a Piedade?

─ Num era, Dona Menina, e ela atalhou: “Num é Piedade, seu moço”. E ele meio atabalhoado: “Desculpe o atrapalhado, Dona Misericórdia...“ E ela novamente: ”Não, seu moço, é Penitência, Maria da Penitência”.

─ É mesmo confuso, Seu Taú!

─ Senhora Dona Menina, pois é como eu disse, nem a Mariinha fica detrás, pois saiba, na véspra da passagem do falecido, de manhã o Seu Onofrim foi chamado lá e desenganou a tudo e disse que não tinha mais remediar, que as hora dele já estava contada, que nem num ía até a boca da noite.

─ Que hora triste, Seu Zé!

─ Pois antão, Dona Menina, a Mariinha danou a apreparar os cumês de sal para não fazer feio com as visita do morto e a casa recendeu ao cheiro dos fritado.

─ Ai, Meu Deus, que aflição!

─ O coitado do Zé há muito que estava de dieta, sem saborear dessas gustusura que o Seu Onofrim lhe tinha proibido, mas as narina dele bem ainda estava capacitada de cheiro, a boca salivou de vontade.

─ Judiação! 

─ O Zé inda teve umas força pra juntar e como sabia que num tinha jeito mesmo de delongar a condenação, pediu um pastelzinho pra Mariinha, pra poder ir um tantinho menos desprazeiroso.

─ Mané de dieta nessas horas, né Seu Taú?

─ Pois antão, Dona Menina, mas a Mariinha, num sei dizer se de arrelia ou de chiste arrematou: “Pastelzinho que nada, é pras visitas!”.

─ Que maior despropósito, Seu Taú!

─ Pois, Dona Menina, nem lhe deveria dizer mas digo de qualquer forma, acho que o cumpadre morreu foi mesmo engasgado de tanto rir!



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