Gurufim
ao Ronaldo e ao Milton
(escrito em dezembro/2012)
─ Bom dia,
Seu Taú!
─ Bom dia,
Dona Menina!
─ Levantou
com as galinhas hoje, hem? Tão cedo e o senhor já está de volta de não sei
quê?
─ Num
levantei nada, Dona Menina, num levantei nem deitei de ontem.
─ O senhor
tá mesmo com cara de amassado, passou na farra, Seu Taú?
─ Farra não,
Dona Menina, estava bebendo o defunto do cumpadre Zé, que Deus o tenha e
guarde.
─ Uai, num
fiquei nem sabendo, tava doente o coitado?
─ Tava já de
uns tempo, Dona Menina!
─ Mas que
mazela o sofrido padecia, Seu Taú?
─ De anos,
Dona Menina!
─ E que malvada
de doença é essa que nem conheço?
─ Velhice,
Dona Menina, velhice pura, que as coisas lá do ser dele nem estava mais
elaborando direito.
─ Eu até que
num era muito do conhecimento desse seu compadre não, que mora longe, lá pras
bandas do Córrego do Feijão. Conhecer mesmo só conhecia uma filha dele, a
Piedade.
─ Pois é,
Dona Menina, dessa vez ele foi mesmo domado pela velha megera. A senhora sabe
que é decerto a segunda vez que vou lá beber o defunto do cumpadre?
─ Segunda
vez, Seu Taú, e como é que um pode morrer duas vezes?
─ Pois,
antão, Dona Menina, há coisa de uma quinzena já fui eu lá pro Córrego do Feijão
pra modo beber o defunto dele. Passamo a noite e a alvorada a derramar cachaça
de litro mais umas coisinha de sal, como de costume, pra dar tempo pro morto de
arrependimento. O dia rompendo foi servida umas broinha de milho com café preto
pra desfazer a modorra.
─ Êta
costume custoso esse, Seu Taú, inda além de sofrer as penas da morte inda ter
que cuidar da comilança pros pranteadores.
─ Pois é,
Dona Menina, é penoso não ser o vilarejo provido de um lugar pra modo fazer um
gurufim decente, alonjado do dessossego da família.
─ Enfim, Seu
Taú, estamos hoje quanto ontem, o jeito é botar o falecido na sala com os pés
voltados pra porta da frente, alumiar as velas e rezar o terço. Mas o senhor
tava contando...
─ Ah, sim,
do velório. Pois a senhora sabe como era o compadre Zé, não?
─ Não, num
sei não, eu já lhe havia contado que num conheço bem ele não!
─ Pois
antão, Dona Menina, o compadre era ladino que só ele! Num perdia vez em fazer
um chiste. Aliás, a comadre Mariinha num lhe fica atrás.
─ E aí, Seu
Taú, o senhor tá me deixando numa angústia de curiosidade...
─ Pois
antão, tava todo mundo desgustando a broinha de milho com café, que por ocasião
tava muito do apreceio do meu paladar, e a Paixão, a caçulita do Zé, depois que
trouxe o café assentou do lado do caixão e despregou aquele choro de
derramamento de pesar.
─ Que dó me
dá, Seu Taú!
─ E tava ela
ali desconsolada, com atenção do confortar dos presentes, assim distraída de
dor... Foi antão que ela olhou mais detidamente pro defunto e falou baixinho:
“Os olhinhos dele se despregaram...”, e levou a mão pra cara do falecido para
fechar de novo os olho dele... Foi antão que ela escutou por baixo da mão dela
que cobria a boca do cujo: “Que é isso, Paixãozinha, tão me querendo empalhar
tão cedo?”.
─ Virge
Santíssima!
─ Num é,
Dona Menina? Pois foi um Deus nos acuda! A pobre Paixão gritava mais que
cachorro judiado, num anervosamento que ninguém conseguia dirimir.
─ Então o
seu compadre estava ainda vivinho!
─ Num é que
tava, Dona Menina, ele num só alevantou do caixão porque num tinha mais força
pra aguentar o tranco. E o ladino ainda ria.
─ Sem dó da
pobre moça!
─ Pois
antão, Dona Menina, quando ele se deu em si, ele ficou um tempo prescutando e
percebeu que estava mesmo era num caixão, na mala do velório dele, e num perdeu
ocasião.
─ Mas que
ladino! Mas, Seu Taú, esse seu discorrer me faz lembrar é de algum morto que
não quer morrer!
─ Como
assim, Dona Menina, num quer é ser enterrado?
─ Não quer,
não quer mesmo. Pois veja o senhor, que nós passamos oito anos aturando desaforos
do santarrão, que não dava senso de nada, tadinho do pobrezinho traído... agora
temos que contender na sua luta pra ressuscitar.
─ E a
Senhora Dona Menina acha jeito de assuceder tamanha moléstia pra gente já de
tanto sofrer?
─ Que Nosso
Senhor Jesus Cristo nos proteja e feche todas as portas do inferno!
─ Que assim
seja, Dona Menina, que já nos sobra muita pena de sofrer nossas tristeza. Mas,
Dona Menina, de retorno pro defunto meu cumpadre, num sei se a senhora
apercebeu que eu falei que ele perguntou se tavam querendo empalhar ele.
─ Num dei
tino, Seu Taú, por quê?
─ Ora, pois,
é mais uma das graça que ele era mister. Pois um dia, um neto dele lá, filho
num me alembro de qual Maria, chegou da capital contando de um enterro em que
ele foi que o morto foi queimado.
─ Cremado,
Seu Taú, é assim que eles falam.
─ Pois é,
cremado, queimado, o dito fato é que sobra só cinza. Pois foi antão que o neto
perguntou pro Zé se ele preferia ser cremado ou enterrado próprio na cova.
─ E o Zé escolheu
o quê, Seu Taú?
─ Nem lé nem
cré, Dona Menina, pois ele falou mesmo é que queria ser empalhado.
─ Empalhado,
Seu Taú?
─ Empalhado!
─ E fazer o
quê do empalhado?
─ O que lhes
aprovesse, uais! Podia colocar na sala sentado como de costume na cadeira de
balanço ou guardar num armário pra num apavorar os desavisados.
─ Nossa
Senhora do Perpétuo Socorro, livrai-nos de tamanha sandice!
─ Pois num é,
Dona Menina, e ajuntava inda o Zé com aquela cara de vira-lata abusado: “quando
algum sentisse uma saudade, bastava abrir o armário pra uma prosinha ligeira,
ou quando viesse uma visita, podia abrir o armário pra modo a visita dar um
cumprimento”.
─ Pois é,
Seu Taú, e talvez a visita dissesse um bom dia e ajuntasse:”como está passando,
Seu Zé, pelo menos a aparência tá bem melhor que antes”.
─ Mas era
mesmo assim meu cumpadre Zé, maroteiro como só ele podia! Eu às
vez fico pensando que até nos nome das criança ele fez facécia.
─ Como
assim, Seu Taú?
─ A senhora
sabe, né? A comadre Mariinha alega que foi por pura devoção à Virge Nossa
Senhora, mas num sei não, fico assuntando e a pulga não me desgruda.
─ Mas por
que isso, Seu Taú? Eu só sabia da Piedade e, agora, depois que o senhor falou,
da Paixão. Mas qual é a graça?
─ Pois é da
Graça mesmo, Dona Menina, da Mariinha que é Maria da Graça. Os menino, não sei
se a senhora já sabe, são José Maria, Pedro Maria e Antônio Maria.
─ Santa
Devoção! E as meninas?
─ Olha antão
os nome das menina: Maria da Piedade, Maria da Misericórdia, Maria da
Penitência e Maria da Paixão. Outro dia mesmo eu me vi no meio de uma conversação
que um desinformado fez uma baita mixórdia com uma quando chamou ela de
Piedade.
─ E não era
a Piedade?
─ Num era,
Dona Menina, e ela atalhou: “Num é Piedade, seu moço”. E ele meio atabalhoado: “Desculpe
o atrapalhado, Dona Misericórdia...“ E ela novamente: ”Não, seu moço, é
Penitência, Maria da Penitência”.
─ É mesmo
confuso, Seu Taú!
─ Senhora
Dona Menina, pois é como eu disse, nem a Mariinha fica detrás, pois saiba, na
véspra da passagem do falecido, de manhã o Seu Onofrim foi chamado lá e
desenganou a tudo e disse que não tinha mais remediar, que as hora dele já
estava contada, que nem num ía até a boca da noite.
─ Que hora
triste, Seu Zé!
─ Pois
antão, Dona Menina, a Mariinha danou a apreparar os cumês de sal para não fazer
feio com as visita do morto e a casa recendeu ao cheiro dos fritado.
─ Ai, Meu
Deus, que aflição!
─ O coitado
do Zé há muito que estava de dieta, sem saborear dessas gustusura que o Seu Onofrim
lhe tinha proibido, mas as narina dele bem ainda estava capacitada de cheiro, a
boca salivou de vontade.
─ Judiação!
─ O Zé inda
teve umas força pra juntar e como sabia que num tinha jeito mesmo de delongar a
condenação, pediu um pastelzinho pra Mariinha, pra poder ir um tantinho menos
desprazeiroso.
─ Mané de
dieta nessas horas, né Seu Taú?
─ Pois
antão, Dona Menina, mas a Mariinha, num sei dizer se de arrelia ou de chiste
arrematou: “Pastelzinho que nada, é pras visitas!”.
─ Que maior
despropósito, Seu Taú!
─ Pois, Dona
Menina, nem lhe deveria dizer mas digo de qualquer forma, acho que o cumpadre
morreu foi mesmo engasgado de tanto rir!

Nenhum comentário:
Postar um comentário