terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Poço de Jacó





O Poço de Jacó


 “Quem bebe desta água tornará a ter sede, mas quem beber da água que eu lhe der, jamais terá sede, pois a água que eu lhe der  tornar-se-á nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” (João 4-13,14)


─ Bom dia, seu Jair, estou vendo-o sentadinho aí, mas não o sinto por aqui.
Ele olhou-me como a um estranho.
─ Tá viajando, seu Jair? Volta para a terra, homem!
Ele sorriu.
─ Bom dia! Estava perdido dentro desse copo d’água, mergulhado num poço profundo.
─ E que poço seria esse, memórias?
─ Não, não é tão simples assim.
Colocou vagarosamente o copo sobre a mesa, fitando-o todo o tempo. Acompanhei a longa viagem do copo com temor de atrapalhá-lo, seu sorriso velado era-me totalmente incompreensível.
Ele retirou os óculos e perdido em seu ainda devaneio pôs-se a limpá-los. Esperei.
─ Estava a me lembrar de um filme que certa vez vi, somente um pedaço, em uma madrugada insone.
─ O senhor tem por hábito ver filmes de madrugada?
─ É comum que acorde e a falta de sono passe a me torturar, pois os olhos ainda que pesadíssimos não descansam; meus pensamentos se perdem em um assunto inconcluso e aí também me perco. Para tentar dormir ligo a televisão e tento distrair-me.
─ E que filme era esse?
─ Nem sei seu nome, peguei-o pelo meio e nunca mais o vi. Falava sobre um magnata americano dos cassinos, um gângster, sócio de Lucki Luciano, não me lembro de seu nome, algo assim como Mahler. Este tal sujeito achava-se em Israel, judeu de origem que era, e aguardava a resposta a um pedido de extradição feito pelos americanos. Durante a formação do Estado de Israel ele contribuíra financeiramente e por isto achava merecer proteção.
─ Estava cobrando a fatura, então.
─ Pois era isso mesmo. É o costume de tais tipos, acham que o dinheiro pode livrá-los de tudo.
─ E ele conseguiu o asilo?
─ Não, não conseguiu, mas não é isto o que me interessou. O que eu estava a lembrar-me é que certo dia, ele, passeando pelas ruas de Jerusalém, entrou em uma joalheria onde um velho judeu recebeu-o dizendo que não poderia atendê-lo naquele momento, pois tinha um compromisso inadiável, mas que teria a maior satisfação em poder fazê-lo se pudesse voltar mais tarde. E os dois saíram juntos conversando e caminhando até que chegaram aos pés do Muro.
─ No Muro das Lamentações?
─ Pois é. Ali o gângster percebeu que o compromisso do outro era com as suas orações e perguntou-lhe, talvez em face de sua aflitiva situação: “e suas preces são atendidas?”.
0 velho judeu suavemente respondeu-lhe:

“Não importa se serão atendidas. Se ao fazê-las eu obtenho a minha serenidade, eu já fui atendido”.

Fiquei um tanto aturdido com a frase e levei algum tempo para reagir, mas recobrando-me, comentei:
─ Para o americano isso lhe deve ter soado como algo tão inatingível quanto a preservação de sua liberdade. Como deve ter invejado o velho judeu!
─ Não sei, não me lembro, sei que os dois se separaram e o velho foi entoar suas preces.
─ Mas não entendi: que relação tem isso com o copo d’água?
Ele sorriu, e naquele sorriso tive um pouco de vergonha da minha ignorância...
─ Imagine o quanto eu fiquei perplexo ao ver naquele filme, banal quanto tantos outros americanos, uma lição como aquela. E agora? Poderia eu também caminhar até o muro e deixar fluir minha prece? Apequenado pelo imenso paredão, eu poderia abrir minha boca e fazer uma oração?... fazer um pedido?... cantar um salmo?.. Eu, que há tanto tempo tivera minha boca fechada por não enxergar o motivo de uma oração, poderia resgatar a minha serenidade?
Talvez eu não tenha traduzido toda a emoção de sua voz quando a transcrevi, e, ainda, era mansa, traduzia tristeza.
─ O senhor não rezou, ou melhor, não reza, não tenta fazê-lo? E sente falta?
─ Não, não. Não é tão fácil assim. Eu passaria a rezar e tudo se resolveria? Não, antes eu teria que resolver minha relação com Deus, pois não me parece ser ele um simples comerciante que só nos dá o que lhe pagamos em orações. Mesmo que a fórmula do velho judeu não fosse uma moeda falsa, pois dirigida ao seu próprio eu, ainda assim parecia. Se eu tinha em mente que a integridade era tudo que Deus nos exige, para obter sua atenção, não seria uma ladainha que a viria substituir.
─ Para o senhor, então, tornava-se impossível obter a serenidade, assim como para o gângster?
─ Pois é, serenidade é um sinônimo para fé. Tão longe dela estamos quanto mais nos aproximamos.
Eu me achava perdido, e soltei:
─ E o copo d’água?
─ Bem, pois eu fiquei ali pela cama, olhos abertos, cismando, esperando o dia clarear. Como sempre o fazia em momentos de atribulações, peguei o Livro, abri-o ao acaso e deparei-me com o episódio em que Jesus encontrou-se com a samaritana à beira do Poço de Jacó e pediu-lhe que lhe servisse um pouco de água. Ao ver a mulher estranhar que um judeu lhe dirigisse a palavra, Cristo então lhe diz que se lhe servisse a água da vida ela nunca mais teria sede.


─ Ah! Até que enfim vi o copo onde o senhor estava mergulhado.
─ E não deveria? Teria o judeu bebido da água ou a bebia todos os dias ao fazer suas orações?
─ Se Cristo disse que ela nunca mais teria sede, seria necessário bebê-la uma única vez, não?
─ A fórmula poderia ser alterada. Percebi que minha sede, ou minha ansiedade, poderia ser acalmada se eu pudesse chegar à beira do Poço de Jacó, ao poço dos patriarcas.
─ O velho judeu encontrara o poço e bebia de sua água e, assim, acalmava sua sede.
─ Quase isso, na verdade ele encontrara um poço de onde retirava sua água: as suas orações.
Pareceu-me que havia ainda uma ausência no ar, pois ele dissera que “ele encontrara um poço” e ficou-me na mente a pergunta invasiva que estava acanhado em formular:
─ E o seu poço, você o encontrou?
─ Não sei ainda se o encontrei ou não. Tenho estado a sua beira, mas além de beber sua água, ainda preciso saber porquê ela funciona.

-o-




          Cânticos
                     Cecília Meireles

             XXVI

O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
 


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