O Poço de Jacó
“Quem bebe desta água tornará a ter sede, mas
quem beber da água que eu lhe der, jamais terá sede, pois a água que eu lhe
der tornar-se-á nele uma fonte a jorrar
para a vida eterna.” (João 4-13,14)
─ Bom dia, seu Jair, estou vendo-o sentadinho aí, mas não o
sinto por aqui.
Ele olhou-me como a um estranho.
─ Tá viajando, seu Jair? Volta para a terra, homem!
Ele sorriu.
─ Bom dia! Estava perdido dentro desse copo d’água,
mergulhado num poço profundo.
─ E que poço seria esse, memórias?
─ Não, não é tão simples assim.
Colocou vagarosamente o copo sobre a mesa, fitando-o todo o
tempo. Acompanhei a longa viagem do copo com temor de atrapalhá-lo, seu sorriso
velado era-me totalmente incompreensível.
Ele retirou os óculos e perdido em seu ainda devaneio pôs-se
a limpá-los. Esperei.
─ Estava a me lembrar de um filme que certa vez vi, somente
um pedaço, em uma madrugada insone.
─ O senhor tem por hábito ver filmes de madrugada?
─ É comum que acorde e a falta de sono passe a me torturar,
pois os olhos ainda que pesadíssimos não descansam; meus pensamentos se perdem
em um assunto inconcluso e aí também me perco. Para tentar dormir ligo a
televisão e tento distrair-me.
─ E que filme era esse?
─ Nem sei seu nome, peguei-o pelo meio e nunca mais o vi.
Falava sobre um magnata americano dos cassinos, um gângster, sócio de Lucki
Luciano, não me lembro de seu nome, algo assim como Mahler. Este tal sujeito
achava-se em Israel, judeu de origem que era, e aguardava a resposta a um
pedido de extradição feito pelos americanos. Durante a formação do Estado de
Israel ele contribuíra financeiramente e por isto achava merecer proteção.
─ Estava cobrando a fatura, então.
─ Pois era isso mesmo. É o costume de tais tipos, acham que
o dinheiro pode livrá-los de tudo.
─ E ele conseguiu o asilo?
─ Não, não conseguiu, mas não é isto o que me interessou. O
que eu estava a lembrar-me é que certo dia, ele, passeando pelas ruas de
Jerusalém, entrou em uma joalheria onde um velho judeu recebeu-o dizendo que
não poderia atendê-lo naquele momento, pois tinha um compromisso inadiável, mas
que teria a maior satisfação em poder fazê-lo se pudesse voltar mais tarde. E
os dois saíram juntos conversando e caminhando até que chegaram aos pés do
Muro.
─ No Muro das Lamentações?
─ Pois é. Ali o gângster percebeu que o compromisso do outro
era com as suas orações e perguntou-lhe, talvez em face de sua aflitiva
situação: “e suas preces são atendidas?”.
0 velho judeu suavemente respondeu-lhe:
“Não importa se
serão atendidas. Se ao fazê-las eu obtenho a minha serenidade, eu já fui
atendido”.
Fiquei um tanto aturdido com a frase e levei algum tempo
para reagir, mas recobrando-me, comentei:
─ Para o americano isso lhe deve ter soado como algo tão
inatingível quanto a preservação de sua liberdade. Como deve ter invejado o
velho judeu!
─ Não sei, não me lembro, sei que os dois se separaram e o
velho foi entoar suas preces.
─ Mas não entendi: que relação tem isso com o copo d’água?
Ele sorriu, e naquele sorriso tive um pouco de vergonha da
minha ignorância...
─ Imagine o quanto eu fiquei perplexo ao ver naquele filme,
banal quanto tantos outros americanos, uma lição como aquela. E agora? Poderia
eu também caminhar até o muro e deixar fluir minha prece? Apequenado pelo
imenso paredão, eu poderia abrir minha boca e fazer uma oração?... fazer um
pedido?... cantar um salmo?.. Eu, que há tanto tempo tivera minha boca fechada
por não enxergar o motivo de uma oração, poderia resgatar a minha serenidade?
Talvez eu não tenha traduzido toda a emoção de sua voz
quando a transcrevi, e, ainda, era mansa, traduzia tristeza.
─ O senhor não rezou, ou melhor, não reza, não tenta
fazê-lo? E sente falta?
─ Não, não. Não é tão fácil assim. Eu passaria a rezar e
tudo se resolveria? Não, antes eu teria que resolver minha relação com Deus,
pois não me parece ser ele um simples comerciante que só nos dá o que lhe
pagamos em orações. Mesmo que a fórmula do velho judeu não fosse uma moeda
falsa, pois dirigida ao seu próprio eu, ainda assim parecia. Se eu tinha em
mente que a integridade era tudo que Deus nos exige, para obter sua atenção,
não seria uma ladainha que a viria substituir.
─ Para o senhor, então, tornava-se impossível obter a
serenidade, assim como para o gângster?
─ Pois é, serenidade é um sinônimo para fé. Tão longe dela
estamos quanto mais nos aproximamos.
Eu me achava perdido, e soltei:
─ E o copo d’água?
─ Bem, pois eu fiquei ali pela cama, olhos abertos,
cismando, esperando o dia clarear. Como sempre o fazia em momentos de
atribulações, peguei o Livro, abri-o ao acaso e deparei-me com o episódio em
que Jesus encontrou-se com a samaritana à beira do Poço de Jacó e pediu-lhe que
lhe servisse um pouco de água. Ao ver a mulher estranhar que um judeu lhe
dirigisse a palavra, Cristo então lhe diz que se lhe servisse a água da vida
ela nunca mais teria sede.
─ E não deveria? Teria o judeu bebido da água ou a bebia
todos os dias ao fazer suas orações?
─ Se Cristo disse que ela nunca mais teria sede, seria
necessário bebê-la uma única vez, não?
─ A fórmula poderia ser alterada. Percebi que minha sede, ou
minha ansiedade, poderia ser acalmada se eu pudesse chegar à beira do Poço de
Jacó, ao poço dos patriarcas.
─ O velho judeu encontrara o poço e bebia de sua água e,
assim, acalmava sua sede.
─ Quase isso, na verdade ele encontrara um poço de onde
retirava sua água: as suas orações.
Pareceu-me que havia ainda uma ausência no ar, pois ele
dissera que “ele encontrara um poço” e ficou-me na mente a pergunta invasiva
que estava acanhado em formular:
─ E o seu poço, você o encontrou?
─ Não sei ainda se o encontrei ou não. Tenho estado a sua
beira, mas além de beber sua água, ainda preciso saber porquê ela funciona.
-o-
Cânticos
Cecília Meireles
XXVI
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...

Nenhum comentário:
Postar um comentário