quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Lambaris - conto infantil



Lambaris



Na curva do rio a sombra das árvores criava um sossego que descansava as águas; cansadas, ali chegavam aflitas depois da correria entre as pedras. A luz do sol corria em uma faixa estreita no meio da lagoa como se tivesse receio de incomodá-la, criando um caminho de luz que subia a corredeira tingindo as bolhas e borbulhas com um colorido que convidava os peixinhos do lugar a fazer estrepolias.

O sol batendo nas pedras e lançando-se na água brincava com a turma do Lari em divertida algazarra:

– Veja, agora, o meu salto! – gritou o Baro.

E partiu o peixinho agitando suas nadadeiras loucamente, subindo para a superfície e lançando-se como uma flecha por cima da pedra. Uma cambalhota no ar e splashhhh! Um mergulho de volta na água para a alegre comemoração com os amigos.

– Agora eu vou dar um duplo mortal! – gritou o Lambo cheio de vaidade.

E disparou com toda a sua força para a perigosa façanha, que antes só o Balio, um herói da geração anterior dos peixinhos, havia conseguido. Mas, que pena! Não conseguindo completar o segundo giro, caiu sobre a pedra, mas não se abateu: ferido, mas corajoso, pulou, pulou,
retorceu-se, pulou e finalmente caiu na água. Os outros correram para prestar-lhe ajuda:

– Você se machucou, Lambo?

– Um tiquinho de nada. Vamos lá, turma, vamos brincar de pique!

E lá foi a turma para novas brincadeiras.

O velho Barbatão, o ancião dos lambaris, nadava devagar pelas águas mais calmas, pacientemente esperando que a corrente lhe trouxesse a comida à boca. Quando viu a turma dos meninos passar, com sua voz grave, alertou:

- Cuidado, peixinhos! O Trairão guloso está vagando ali por baixo, não se arrisquem a ir muito longe!

E os peixinhos, sem nada ligar para o velho, ainda fizeram brincadeiras:

– Ah, Trairão!... Isso é conversa de velho medroso e de tia velha – gritou o Lari.

– Só se for o fantasma do Trairão bobão – brincou o Baro.

– O último a chegar vai virar comida do mergulhão – gritou o Lambo.

E continuaram a nadar e a afastar-se mais do lugar que lhes servia de morada, pulando uns sobre os outros, disputando corridas, saltando fora da água e mergulhando de volta.

Nas águas mais escuras um vulto enorme se agigantou.

– Uau!  – gritaram os peixinhos juntos quando viram aquele peixão chegando velozmente...

Que susto a turma toda levou! E saiu peixinho correndo apavorado para todo lado.

Quando o Lari olhou para trás, viu que aquele peixão enorme estava correndo direto para ele. O coração do peixinho disparou e também sua boca a gritar:

– Mãe, socorro! O que eu faço agora?

E ele nadou o mais rápido que suas pequeninas barbatanas lhe permitiam, mas o Trairão tinha nadadeiras muito mais poderosas e já estava tão perto... tão perto... tão pertinho...

– Ai, mãieêêê, essa bocona aberta cheia de dentes vai me comer...  – gritou o Lari quando sentiu que já estava dentro da boca do Trairão.

Mas um galho atravessado dentro d’água também entrou na boca do Trairão, impedindo-o de fechá-la e freando a sua corrida. Enquanto o Trairão estava tonto com a pancada que o galho lhe deu, o Lari disparou para sua casinha buscando o conforto de sua mamãe. Mas, caluda, nada de contar para ela do susto de sua perigosa aventura.

No dia seguinte, lá estava a turminha reunida novamente nas pedras praticando suas brincadeiras. E o Lari contou como se livrou do Trairão:

– Foi muita sorte que eu tive.

E todos comentaram:

– Bem que o velho Barbatão avisou.

Depois de muita brincadeira, Dona Lambada, uma tia do Lari, nadou em direção à turminha para avisar-lhes que um pescadorzinho, o Marco Antônio, vinha descendo o rio lançando um anzol naquela corredeira. E a prudente senhorita peixe ensinou aos peixinhos:

– Um anzol é uma armadilha, tem uma isca: um bichinho gostoso e suculento enfiado num pedaço de ferro, que esconde a cilada, para que um peixinho descuidado a engula e junto com ela o anzol. Quando o peixe morde o bichinho, ai! Uma dor horrível vai levar o peixinho embora do rio para o embornal do menino.

Os peixinhos todos ouviram a Dona Lambada com atenção. Desta vez ninguém fez piada, todos se olharam e fizeram sinal que haviam compreendido.

Pouco depois a turminha viu um bichinho se retorcendo, descendo a corrente. Ficaram curiosos e foram à flor d’água para ver o menino que segurava uma vara e com os olhos pregados na água. E todos se juntaram para mostrar ao menino que não tinham medo dele. Todos juntos, foram à superfície com a boca cheia d’água e espirram-na no menino.

Pena que a boquinha dos peixinhos era muito pequena e o menino nem percebeu a ofensa!
 

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