Lambaris
Na curva do rio a sombra das árvores criava um sossego que
descansava as águas; cansadas, ali chegavam aflitas depois da correria entre as
pedras. A luz do sol corria em uma faixa estreita no meio da lagoa como se
tivesse receio de incomodá-la, criando um caminho de luz que subia a corredeira
tingindo as bolhas e borbulhas com um colorido que convidava os peixinhos do
lugar a fazer estrepolias.
O sol batendo nas pedras e lançando-se na água brincava com
a turma do Lari em divertida algazarra:
– Veja, agora, o meu salto! – gritou o Baro.
E partiu o peixinho agitando suas nadadeiras loucamente,
subindo para a superfície e lançando-se como uma flecha por cima da pedra. Uma
cambalhota no ar e splashhhh! Um mergulho de volta na água para a alegre comemoração
com os amigos.
– Agora eu vou dar um duplo mortal! – gritou o Lambo cheio
de vaidade.
E disparou com toda a sua força para a perigosa façanha, que
antes só o Balio, um herói da geração anterior dos peixinhos, havia conseguido.
Mas, que pena! Não conseguindo completar o segundo giro, caiu sobre a pedra,
mas não se abateu: ferido, mas corajoso, pulou, pulou,
retorceu-se, pulou e finalmente caiu na água. Os outros
correram para prestar-lhe ajuda:
– Você se machucou, Lambo?
– Um tiquinho de nada. Vamos lá, turma, vamos brincar de
pique!
E lá foi a turma para novas brincadeiras.
O velho Barbatão, o ancião dos lambaris, nadava devagar
pelas águas mais calmas, pacientemente esperando que a corrente lhe trouxesse a
comida à boca. Quando viu a turma dos meninos passar, com sua voz grave,
alertou:
- Cuidado, peixinhos! O Trairão guloso está vagando ali por
baixo, não se arrisquem a ir muito longe!
E os peixinhos, sem nada ligar para o velho, ainda fizeram
brincadeiras:
– Ah, Trairão!... Isso é conversa de velho medroso e de tia
velha – gritou o Lari.
– Só se for o fantasma do Trairão bobão – brincou o Baro.
– O último a chegar vai virar comida do mergulhão – gritou o
Lambo.
E continuaram a nadar e a afastar-se mais do lugar que lhes
servia de morada, pulando uns sobre os outros, disputando corridas, saltando
fora da água e mergulhando de volta.
Nas águas mais escuras um vulto enorme se agigantou.
– Uau! – gritaram os
peixinhos juntos quando viram aquele peixão chegando velozmente...
Que susto a turma toda levou! E saiu peixinho correndo
apavorado para todo lado.
Quando o Lari olhou para trás, viu que aquele peixão enorme
estava correndo direto para ele. O coração do peixinho disparou e também sua
boca a gritar:
– Mãe, socorro! O que eu faço agora?
E ele nadou o mais rápido que suas pequeninas barbatanas lhe
permitiam, mas o Trairão tinha nadadeiras muito mais poderosas e já estava tão
perto... tão perto... tão pertinho...
– Ai, mãieêêê, essa bocona aberta cheia de dentes vai me
comer... – gritou o Lari quando sentiu
que já estava dentro da boca do Trairão.
Mas um galho atravessado dentro d’água também entrou na boca
do Trairão, impedindo-o de fechá-la e freando a sua corrida. Enquanto o Trairão
estava tonto com a pancada que o galho lhe deu, o Lari disparou para sua
casinha buscando o conforto de sua mamãe. Mas, caluda, nada de contar para ela do
susto de sua perigosa aventura.
No dia seguinte, lá estava a turminha reunida novamente nas
pedras praticando suas brincadeiras. E o Lari contou como se livrou do Trairão:
– Foi muita sorte que eu tive.
E todos comentaram:
– Bem que o velho Barbatão avisou.
Depois de muita brincadeira, Dona Lambada, uma tia do Lari,
nadou em direção à turminha para avisar-lhes que um pescadorzinho, o Marco Antônio,
vinha descendo o rio lançando um anzol naquela corredeira. E a prudente
senhorita peixe ensinou aos peixinhos:
– Um anzol é uma armadilha, tem uma isca: um bichinho
gostoso e suculento enfiado num pedaço de ferro, que esconde a cilada, para que
um peixinho descuidado a engula e junto com ela o anzol. Quando o peixe morde o
bichinho, ai! Uma dor horrível vai levar o peixinho embora do rio para o
embornal do menino.
Os peixinhos todos ouviram a Dona Lambada com atenção. Desta
vez ninguém fez piada, todos se olharam e fizeram sinal que haviam
compreendido.
Pouco depois a turminha viu um bichinho se retorcendo,
descendo a corrente. Ficaram curiosos e foram à flor d’água para ver o menino
que segurava uma vara e com os olhos pregados na água. E todos se juntaram para
mostrar ao menino que não tinham medo dele. Todos juntos, foram à superfície
com a boca cheia d’água e espirram-na no menino.
Pena que a boquinha dos peixinhos era muito pequena e o
menino nem percebeu a ofensa!

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