As Três Gargantas do Diabo
─ Dona Menina, Dona Menina!
─ Oi, Cotinha, que frenesi mais atarantado é esse? Puseram
fogo na caixa d’água?
─ Divera, Dona Menina, estou própria que é uma agonia, tenho
muita precisão de falar com a Senhora Dona Menina!
─ Pois não, Cotinha, entra que a casa é sua, se abanque e
tome um pouco de ar.
─ A senhora, por obséquio, me arranja um pouco de beber,
estou que quase sem fol´go.
─ É pra já, Cotinha, vou lá dentro buscar um suquinho de
maracujá, que fiz agorinha mesmo, que virá bem a calhar pra afrouxar esse
tresvario seu.
─ Num carece de mimos, Dona Menina, só tenho precisão mesmo
é de uma caneca de água fresquinha.
...
─ Toma, Cotinha, beba bem devagarinho que é pra não
desprezar o efeito.
─ Ah, Dona Menina, a senhora é bem mesmo um anjo do céu, já
tô até um pouco desoprimida. Ah, que gustusura esse suquinho.
─ Mas diga, Cotinha, que busuca é que lhe está a causar
desvario?
─ Num é busuca não, Dona Menina, mas num posso nem falar aqui.
A senhora teria um lugar de mais privado pra gente poder estar mais
assossegada, sem paúra dos ouvido das parede?
─ Ave Maria! Nem lhe tô reconhecendo, Cotinha. Vem cá,
mulher, vem cá no quarto que eu posso passar a tranca na porta.
─ É bom mesmo, Dona Menina, que eu tô bastantemente avexada
e só tenho um tanto de audácia pra falar é mesmo só com a senhora, que é cabeça
de boa conselheira.
─ Então, Cotinha, pode botar os bofes pra fora que aqui
bicho algum vai bisbilhotar.
─ Sabe que é, Dona Menina... Cumé que eu digo?... Eu me
ensimesmei muito e bastante de dar dor de cabeça em prego. De primeiro eu
meditei que devinha mesmo era me confessar com o vigário e contar tudinho pra
ver se obtinha refrigério. Matutei que divera era até meu dever de apóstola da
Oração, mas num pude achar ousadia em mim mesma. Tô inté pronta... Nem consigo
falar, Dona Menina, só de em pensar me corre o pranto... mas tô mesmo inté
pronta... a dispensar minha fita de apóstola...
─ Cotinha, mas que destempero é esse? Tô enquizilada de ver você
assim, num posso nem um tico crer que você, de regular tão zelosa, tenha
cometido algum desatino. Do jeito que você tá, parece até que matou alguém!
─ Num matei não, Dona Menina, mas é como se tivesse... Ai,
minha Nossa Senhora, por que me abandonou sem me prestar uma ajudazinha?
─ Calma, Cotinha, sara esse choro e vê se adquire força pra
poder botar fora o que tá afligindo você, para que eu possa lhe tentar um
socorro.
─ Senhora Dona Menina, o buzu é que eu tenho sofrido de
sonho.
─ Sonho, Cotinha? De sonho quando está a dormir?
─ Desse mesmo, no escuro da noite... no sono...
─ Mas ninguém sofre de sonho. Um sonha e logo se esquece, e
pronto.
─ Num dá pra esquecer, Dona Menina. Passado uns dia, vem
outro e tudo fica como de antes.
─ E que despropósito de sonho é esse, Cotinha?
─ Na vez primeira, sabe... Ai, que vergonha, Dona Menina!...
Na vez primeira no sonho tinha o filho de um parente longe que fui conhecer de
há pouco, ligeiramente, sem dar muito tento. No entretanto apercebi da
formosura do dito, uma pintura de macheza bem atentatória. Mas, sabe como é,
né? Uma bota o olho, aprecia, põe valor... e nada mais de um dito. Antão, outro
dia o moço bem apessoado arresolveu fazer uma aparição no meu sono... Senhora
Dona Menina, num dá pra discorrer no que se passou... Ai, que vergonha!
─ Que isso, Cotinha, num é preciso ver vergonha em um sonho!
─ Pois, Dona Menina, eu de vergonha num abri os olhos quando
acordei, eu fiquei por lá na cama arreliada e mesma espaventada! Aquilatei o
gosto amargo do pecado na boca e em nem posso dizer onde mais... Acordei
banhada!
─ Mas que mal há de se ver nisso, Cotinha, são coisas naturais
das caraminholas da gente.
─ Sabe o que é, Dona Menina? É que euzinha num consigo esquecer
das gustusura do sonho... Fico ansim me alembrando e vem uma saudade... Aí eu
me sacudo pra acordar e penso no Jão, coitado! Já assuntou o imbróglio que
sucederia se o pobre descobre o que vai passando!
─ E como ele iria descobrir, Cotinha, acaso sua cabeça tem
tela igual de cinema? Mas foi isso só que colocou você nessa aflição
desmesurada?
─ Num foi só isso, Dona Menina, vai dia, vai outro dia, e fui
acontecer outra vez de sonhar.
─ Não me diga que ficou enrabichada pelo dito mancebo?
─ Não e não, Dona Menina, dessa vez foi outro.
─ Outro rapaz, Cotinha?
─ Outro, Dona Menina, só que acho que inda mais lindo de
boniteza que o de antes. Mas esse eu tenho conhecimento só de novela. Ah! Num
tive nunca sonho de mais delicado! Que formosura! Só de alembrar me banho toda
outra vez... O desconsolo é no acordar espaventada com a garganta apertada de
pecado. O bão mesmo é que o Jão dorme feito pedra, coitado, de tanto cansado só
abre os olho mesmo quando estrila o despertador.
─ E tudo findou nisso, Cotinha?
─ Não, Dona Menina... Meu Jesus de Misericórdia, me dá força
pra seguir! Num é que inda houve outra vez de fato!?
─ E dessa vez piorou o caldo?
─ Não, Dona Menina, o caldo fica mais apetitoso e cada vez mais
mió, mais saboreado e apimentado. Nem lhe conto quem estava dessa vez a me
lambuzar o sonho.
─ Ah! Que bom então que o fado desse outro sonho mais ainda
lhe apeteceu!
─ Divera, Dona Menina, pra maior mal dos meu pecado! Dessa
vez o fado era o próprio mesmo Roberto Carlos! Que divino! Cantando só pra
euzinha: “Cotinha, eu estou aqui!”.
─ Menina, você devia de estar no céu!
─ No céu, Dona Menina! Mas acordei no inferno em brasa! Ai,
meu Jesus, me socorre! Os dia vão e finda e eu não me discordo de ouvir: “Como
é grande... o meu amor por você...”. Ah, que céu... Ou pra mió dizer, que
inferno... Num sei quê mais eu sinto... Se aprecio o pecado... Mas como, se é
pecado! Dona Menina, me socorre!
─ Aí de certo os sonhos findaram? Ou melhor dizendo, os
sonhos de sono findaram?
─ É vero, e cumo é que a Senhora Dona Menina assim assuntou?
─ Pois é mesmo assim, Cotinha, no normal sempre acontecem de
três.
─ Ah é, Dona Menina? De três e acaba?
─ No geral são três e pronto, o recado fica dado. Esse
quiproquó é chamado de as Três Gargantas do Diabo. Parece até um acerto, mas
num sei não, que Nosso Senhor tem com o dito cujo para nos deixar na prova.
─ É divera antão que o maligno escancara três goelas pra nos
englutir no pecado?
─ É mais ou menos assim que ele arma três vezes a arapuca
pra tentar agarrar o incauto, os mais bem avisados lhe dão em troca três pedras
grandes, que ele não consegue engulir.
─ Ai, minha Virge Santa, e eu que não estava provida das
pedra, como fico eu?
─ Ora, Cotinha, não se apoquente que isto é justo um tanto
de mito, estou somente a bulir com seus pavores.
─ A Senhora Dona Menina não tem nenhuma pena do meu anervosamento
pra inda fazer troça?
─ Que isso, Cotinha, é preciso rir um pouco de si própria
pra sufocar o diabo. Tudo o passado em você é um mero grito do seu corpo, que o
danado tem vontade própria e se aproveita, quando você não está em vigília,
para reclamar suas necessidades.
─ E eu lá tenho necessidade dessas sem-vergonhice?
─ Os doutores que estudaram a psicologia chamam a isso de
inconsciente.
─ Insconciente?
─ Inconsciente, Cotinha, é como se fosse, podemos dizer
assim, o diabo tentador dentro de você, a parte da sua cuca que marcha sem dar
bola pra seus pudores. Você, como boa apóstola da Oração, sufoca os pensamentos
que você acha que são pecados, mas o seu corpo nem quer saber, ele tem querer
próprio. Você deve estar em falta com as necessidades dele e ele está só a lhe
lembrar.
─ Ah, pois, Dona Menina, às vez quando a tabelinha pode
permitir, o Jão anda tão cansado que só dá conta de usar cama pra modo dormir.
─ Pois então, Cotinha, o seu corpo não quer dar préstimo ao
cansaço do Jão.
─ Antão a Senhora Dona Menina acha mesmo que meus sonho num
é pecado... Posso dar o esquecimento de dispender minha fita do apostolado?
─ Com certeza, e com seu máximo zelo habitual!
─ Ai, que baita leveza a Senhora me dá, tô duas vez
refrigerada, com este suquinho gostoso e com as suas indulgências.
─ Muito me alegra poder ser-lhe de boa serventia.
─ ...
─ E agora, mulher, esta cara macambúzia é por
quê?
─ Mas, Dona Menina... É de certo... ansim... É vero mesmo de
verdade que os sonho finda mesmo em três?

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