A Casinha
─ Bom dia, Dona Menina!
─ Bom dia, seu Zé!
─ A senhora sabe, Dona Menina, que quando eu estava de passar por ali em riba daquele morrote, onde resta aquela casa desabandonada, me alembrei dos tempo antigo lá de casa.
─ Bons tempos, seu Zé, dá saudade...
─ Mas no arrecordar das coisa eu tava que era sem siso, Dona Menina, em rindo sozinho.
─ Tava abobado, é?
─ É que, vendo aquilo tudo como em antigamente era, assucedeu que me alembrei de um causo corrido uns bons tempos atrás.
─ Então conta logo pra gente desanuviar o riso, seu Zé.
─ Pois antão. Lá no sítio lá de casa há pouco tempo que a gente tem essas luxeza moderna de banheiro dentro de casa, né? naquele tempo o migué ficava no terreiro, bem em cima do corguim, a senhora deve de arrecordar como era.
─ É claro que me recordo, seu Zé, por cá também
era assim, uma dificuldade bruta se chovia.
─ E à noite antão, Dona Menina, sair debaixo das coberta pra enregelar no vento lá de fora. Hoje é tudo um primor, né? lá em casa tem até su-í-te.
─ O progresso até que tem muita coisa boa, né seu Zé?
─ Pois antão, Dona Menina, foi aí naquele tempo que chegou lá em casa uns parente vindo lá da capital a tiracolo com um molequim envirado, ali pelos seus quinze ano, que chegou louco pra modo conhecer a nossa casinha; o bichim já tava com as perna toda torcida de gana.
─ Ô dó!
─ Mas tinha um pobrema, Dona Menina, a tramela do dito cujo migué tinha rachado e eu num tinha inda dado modo de arrumar; aí eu expriquei pra ele que num tinha galho, que ficasse assossegado que eu trancava por fora de modo que, quando ele terminasse lá com os aperto dele, era só bater na porta que eu soltava ele. E fui mais ele até a casinha.
─ Que passeiozim mais agoniado devia de tá pro moleque, seu Zé!
─ Agoniado e torto, Dona Menina, o molequim amaricado rebolava e trançava as perna
sem desgrudar os joelho.
─ Coitadim!
─ Mas chegou; e quando ele subiu as escadinha e espiou lá dentro, aí ele envirou pra mim com uma vozinha que mais parecia uma muiézinha e perguntou: “─ Uai, seu moço, cadê o vaso?”. Eu arrespondi já brusco que era a cadeira velha que ele tava vendo com o buraco no tampo. E ele: “─ Ohh!” – pondo a mão mole na boca de espantado – “E onde fica o botãozinho da descarga, seu moço?”.
─ Que luxeza, seu Zé!
─ Aí, como eu já tava danado de irritado com aquela vozinha, eu arrespondi meio irado: “É o diabo do corguim que carrega”!
─ Ô, seu Zé, tanta indelicadeza com o moleque, ele devia de estar abestalhado com tantas novidades de espanto.
─ Aí ele me olhou com os dois olho arregalado, mas nem não dei bola e tranquei o moleque lá; e já ia vortando pra dar tempo pra ele arresorver o caso e não num dei nem cinco passo e o cujo já tava a esmurrar a porta e berrar me acode, seu moço, socorro e socava a porta em desespero. Quando sortei o trinco ele caiu pra riba de mim inda com a cueca no meio das perna e nem conseguia desarticular a voz. Só a custo entendi mais ou meno que ele falava: “─ O di-a-bo, o di-a-bo”.
─ Virge Nossa Senhora!
─ Dona Menina, levou um bom pedaço de tempo pra modo o moleque acarmar e poder contar o que fora. E foi antão que ele narrou que quando ele sentou na cadeira sentiu uma coisa gelada agarrar nas coisa dele.
─ Antão ele pensou que era o diabo do corguim?
─ Pois antão, Dona Menina, foi o primeiro diabo gelado que já ouvi falar.
─ Mas seu Zé, ocê maldoso foi em num ter advertido o moleque das pererecas.
─ Dona Menina, como podia de saber que o mulequim ia de ter medo de um bichim piquenim assim.
─ Cê fez foi de maldade, que eu conheço você.
─ Mas, Dona Menina, em esse negócio de homem pensar que é mulher, já me foi dito que é por causa que em uma vida de antes ele era mulher e inda num esqueceu de ser, a senhora acha ser assim?
─ Sei não, seu Zé, num sei se acredito nessas coisas de outras vidas que os espíritas falam.
─ O meu pastor exorta pra nós que isso é pecado em até pensar, que é coisa de macumba e de exu.
─ Eu num acordo nem disacordo de quem acha ser isso, por modo que prova que é bom ninguém tem um nada.
─ Mas, mudando de assunto, Dona Menina, o principal que eu cá vim hoje foi pra falar de uma comichão que eu tô tendo cá no meio dos miolo, que tá numa arrelia terrível. Só vendo, tô que até parece que minha cabeça tá fervendo de piolho.
─ E por que você num trata de resolver logo isso?
─ Foi por isso que arresorvi tirar um tempinho pra modo de dar uma passada por cá.
─ Então fala, homem, ao invés de ficar cozinhando pedra.
─ É que tô enfarado de um desejo de aprender as letra.
─ Uai, seu Zé, e por que num começa logo a aprender?
─ O pobrema, Dona Menina, é que matutei cá comigo: se Dona Menina que é ladina de esperta não aprendeu, será que eu dou conta?
─ Ô seu Zé, eu num aprendi de antes por causa que a vida não deixou. Em desde menina que é trabalho, só trabalho, mais trabalho, e pra eu falar que não descansava, na hora do recreio mais trabalho.
─ A senhora falou: de antes?
─ É, seu Zé, agora tô estudante, tô me instruindo com o Bentinho, meu netim, tô num progresso danado de bom. que até já tô meio letrada.
─ Meio letrada, Dona Menina, é por causa de já saber metade de um tudo que precisa saber?
─ Não, seu Zé, qualquer um vai tá sempre na metade do que precisa saber, num tem fim não; o que digo é que tô conhecendo metade das letras do arfabeto, ou melhor dizendo, do alfabeto, já que num fica bem falar errado pra quem tá em se graduar.
─ Essa metade aí já deve de ser muitas letra, hem Dona Menina?, num fica assim tudo embaralhado no meio do coco, não?
─ Que nada, seu Zé, olha que já cheguei a aprender a letra M, de minha santa mãezinha Maria, mas o tal de ri, que fica no meio, ainda num me foi introduzido e eu meio que nem sei ler ainda Maria, mas o M também é de Menina, aí logo deduzi sem necessitar de explicacionices que pra escrever Menina eu devia de usar o n que é irmão gêmeo do m. Fácil, né?
─ Deve ser danado de bom poder escrevinhar o nome, Dona Menina, mas eu fico até agoniado porque me falaram que o meu nome se escreve com z, que é o rabicho do fim do alfabeto. Fico pensando que vou ter de estudar o tudo só pra aprender a rabiscar meu nome.
─ Que isso, seu Zé, e o seu nome real é Zé?
─ Ah! Dona Menina, num é que eu até esqueço que meu nome é José? De tanto ouvir Zé daqui, Zé dali, mas no correto mesmo é José das Flores.
─ Bonito, né, seu Zé das Flores! Pois antão já ficou mais fácil porque o j de José tá em menos do meio do alfabeto, eu até já fui lecionada dele.
─ Mas, Dona Menina, tô com outro senão. Eu careço de ter neto, num sou assim como a senhora, que tem uma penca deles, será que podia, assim pela nossa camaradagem das antigas, emprestar um neto seu?
─ Ô seu Zé, eu num sou dona dos afazeres dos meus netos, aliás, num é fácil porque eles não têm muita paciência por causa que a gente velha é dura de aprender e nas espertezas deles eles logo se cansam da gente.
─ Eu agaranto é que eu haveria de ser muito aplicado e nem precisar de ralho e nem me ponhar de castigo.
─ Sabe, seu Zé, eu tenho uma dificuldade maior é com a escrita, Virge Maria, fazer as letrinhas como é dificultoso! Fazer aqueles arredondadim é custo demais com as juntas duras, Virge! Por causa disso é que gosto mais é da leitura.
─ Ô Dona Menina, meio assim de enxerido que tô, um que estuda aprende a falar bem, no correto?
─ Aprende, claro que aprende; aliás, seu Zé, acho que a gente fala em errado assim é por causa da mania de falar atropelado no ligeiro, acho que o pensamento nem acompanha a destramelada da língua. Se a gente pusesse ten-to no que fa-la, de-ve-ras não errava tanto.
─ Oh, num é que é, a senhora falou num devagar e tudo saiu no escorreto!
─ Pois antão, viu, é um modo só de costume.
─ Dona Menina, eu cá tenho um sonho de diário, vira e volta esse sonho me acorda em pesadelo.
─ E como é esse sonho, seu Zé, é permitido saber?
─ No sonho eu bem que tô lá no curral arretirando o leite das vaca, bem tranquilão naquele vai e vem de empuxar as teta e ver o branquim do leite espirrando no balde. Antão passo a ouvir uma zoeira braba vindo de trás e crescente em mais alto, aí eu olho pra ver o que é só pra ver um enxame disgramado avoando direto pra cima de mim.
─ Virge Maria!
─ Antão levanto num pulo revirando todo o leite colhido por causa que o enxame pega a me atacar e de doido que eu fico assusto a vaca que também toca a pular com os pé apeado e tudo fica num confuso.
─ Aí o senhor acorda...
─ Acordo numa suadeira! Antão eu me alembro que os bichim que eu matava com os tapa que dava e que caía no chão mortinho eram letrinha.
─ Ô dó, as letrinhas tão deixando o senhor em apuros.
─ A ver, Dona Menina, é por causa disso que acho que preciso arresorver logo isso de aprender as letra.
─ Tá bem, seu Zé, vou ver se um netim meu pode ir lá dar umas aulas procê, mas acho que o senhor vai ter que acertar com ele uma paga.
─ Tem pobrema, não, Dona Menina, eu pago, aliás, quando eu tiver nos meus orgulho de poder assinar José das Flores, bem assim florido, prometo que dou um prêmio especial pra ele.
─ Assim deve de ficar até mais fácil pra ele aceitar.
─ Dona Menina, que mal lhe pergunto, quando a senhora tiver craque nas letra, o que você acha que vai ser melhor de bom?
─ Ah, seu Zé, eu também cá tenho um sonho.
─ Um sonho, Dona Menina, e a senhora fica avexada ou pode contar pra mim?
─ Fico não, seu Zé, é um sonhinho de nada.
─ Antão conta logo, mulher, que já tô aflito.
─ É que tenho a vontade de ensinar o padre Joaquim a rezar a missa.
─ Virge, Dona Menina, ensinar o padre a rezar a missa?
─ Pois.
***
Cânticos
Cecília Meireles
XIII
Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus
olhos, para verem mais.
Multiplica os teus
braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que
tiverem visto.
Cria outros, para as
visões novas.
Destrói os braços que
tiverem semeado,
Para se esquecerem de
colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Amo suas crônicas! Muito prazerosas de ler e soltar a imaginação.
ResponderExcluirObrigado, isto me incentiva a escrever.
ExcluirCrônica leve, história gostosa de ler. Diálogos vivos e reais. Excepcionalmente verdadeiro.
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