terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Mão





A Mão



            Nos tolhe a vida o corpo,                                 
            E não temos a mão

            Onde temos a alma.

                                            Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

─ É tarde, Miguilim, por que não estás a dormir?
─ Você demorou, Doutor, fiquei em saudade a querer ouvir outra estória.
─ O que estás é em vício, seu safado. Mas, vamos ver...  Que tal a história de uma mão?
─ Uma mão, como? Só uma mão, solta no ar?
─ Não, Miguilim, uma mão normal, uma mão direita; como toda mão atada num braço, por sua vez pertencido a um corpo; mas a história dessa mão é tão grande que vale de ser contada.
─ Deve ser legal, conta.
─ Numa tarde quente lá pelas grotas das roças fluminenses, quente tanto que os anjos estavam de folga para se refrescarem, estava a mão a caçar.
─ Era uma mão de menino com um estilingue?
─ Já não era uma mão menina, era sim a mão de um jovem que carregava uma espingarda e para ter mais larga a vista subiu em uma árvore à procura de uma presa de valor. Num senão descuidado, como gosta o anjo maldoso, prendeu-se a arma num galho e ligeira foi ao chão. Na calma do vento ouviu-se seco o breve e certeiro tiro que o pulso trespassou, com o desejo mesmo proposital de separá-lo da mão.

─ Nossa, Doutor! Como deve de ser doído!
─ Naquele tempo e naquelas brenhas perdidas, longe de recursos se estava e por certo deu-se por condenada aquela mão por si tão ferida. Voltando ligeira para casa deixou a todos em louca aflição e sua mãezinha rogou em prantos aos céus que a mão não levassem. Naquele momento um anjo, retornando de seu descanso, estacou ao ver tamanha angústia, e gracioso se fez presto a intervir.
─ Era o anjo Gabriel?
─ Não se soube o seu nome por não ter sido revelado, mas à mãezinha em desespero o anjo consolou e lhe anunciou que aquela mão permaneceria consignada, e por dever e missão lhe caberia outras onze guiar pela vida.
─ O anjo então sarou a mão?
─ Decerto sarou e deixou-lhe no pulso, por marca do acordo não firmado, um buraco por onde o tiro entrou, do outro lado um caroço por onde o chumbo vazou.
─ E a mão ficou aleijada?
─ Não, nem um nada, só a marca restou e em tudo ficou perfeita. E foi a mão pela vida afora traçando e seguindo uma linha bem reta. Lá por aqueles ares, por quem lhe conhecia o proceder, de correta era sinônimo, embora em timidez negasse por dizer que dos impostos qualquer um tem mácula. Por suposto, ao puro nunca lhe será bastante a pureza.
─ Eu bem que gostarei de ser assim!
─ Um dia aquela mão também subiu ao altar da igreja lá do lugar para entrelaçar-se com outra por dedicação e amor, e, então, como o anjo anunciara, nasceu-lhe uma primeira mãozinha a quem lhe caberia guiar pelo incerto da vida.
─ Nasceu uma mão bebezinho?
─ Uma mãozinha menina e esta o anjo anunciara que seria a mais tristezinha. Mas todos louvaram a beleza da mãozinha que nascera: “Hosana ao Senhor”, cantaram!
─ Hosana!
─ E a mão seguia incansável: ao raiar do sol estava na estrada e trabalhava até noite já adiantada; para descanso reservava a metade do domingo. Pouco mais de um ano passado e outra mãozinha apareceu.
─ Nossa, agora ela teria que trabalhar mais!
─ Não havia jeito para mais e ela seguia trabalhando como um Prometeu a cuidar de seu povo, acorrentado a sua missão no tudo sempre igual. Passado um ano e pouco mais outra mãozinha surgiu. E seu trabalho em um nunca acabava; o senso do dever era seu mote e seu norte; além de cuidar das mãozinhas olhava com cuidado e critério as mãos suas irmãs. E os anos passando, outras mãozinhas foram escapulindo, enchendo a casa de necessidades.
─ E como o anjo disse nasceram onze mãozinhas?!
─ Onze mãozinhas. A quinta mãozinha veio com uma enorme saudade soprada no coração, senão de fraquezas, d´aberto à força, e de todas seria a mais apressada a retornar ao seu cantinho de origem.
─ Dagberto?!
─ Onze mãozinhas para cuidar e a mão a trabalhar. Porém não era imortal como o dito Prometeu e não se recompunha seu fígado, muito menos seu pulmão, e ano a ano o tempo lhe cobrava um penhor de suas forças, mas a mão não se entregava, trabalhava. No normal manejava uma faca; para descansar ora portava um machado ora uma pá sobre um tacho; e divertia-se a cavalo por longas viagens a aboiar. E diariamente renovava o sacrifício de sangue pelo qual a mão fora marcada, cortando a carne dos animais.
─ Lá na roça eu já vi matar porco, boi, cabrito. É triste. Eu não penso nunca em trabalhar assim...
─ Ás vezes, Miguilim, não é a pessoa que escolhe o seu trabalho, a vida escolhe para você e com aquela mão assim foi; como disse o poeta: “não temos a mão onde temos a alma”; o que importa é como a tarefa é cumprida. As matemáticas lhe eram bem fáceis, não foi por ócio, senão por falta de oportunidade que na escola não se formou. E trabalhando não percebia o tempo rolar, as mãozinhas foram crescendo e se dispersando pelas estradas.
─ Eu também deixei a mãezinha lá na roça, fico triste de saudade...
─ Um dia estava a mão em seu trabalho, tinha então uma caminhonete, a levar uma vaquinha, mansa e inofensiva; colocou-a na carroceria faltando apenas amarrá-la; ao passar uma corda pela grade... Naquele dia o anjo não estava de folga, estava vigilante e aflito, e veio cobrar o consignado. Num repente a mansa vaquinha puxou num arranco a corda e a mão a acompanhou. Foi-se a mão por entre a grade.
─ Ai!... Foi espremida na grade?
─ Completamente.
─ Nossa, Doutor, e o anjo de novo a recuperou?
─ Não, dessa vez não houve jeito, pouco da mão sobrou, nenhum dedo, e a mão teve mesmo que ser amputada.
─ E ficou só o braço, sem a mão?
─ Ficou só o braço, Miguilim, mas meu pai não reclamou, exceto pela imensa dor; inda disse que lucrou nos muitos anos que a usou, e também não lhe fez falta, pois logo a outra  dominou e mais uns anos assim foi. Quando o câncer o levou, aquela mão, que tanto pelas onze velou, tornou-se como uma mão fantasma.
─ Credo! Uma mão fantasma acho que deve ser apavorante!
─ Não, Miguilim, para os seus onze filhos, a mão não se acabou e restou a vagar sobre nós como um anjo protetor a acarinhar nossas almas, e gravada nos corações ficou uma mão imagem do Amor.
─ Muito triste a história dessa mão!
─ Assim é a vida, Miguilim; agora é hora, dorme.
─ Doutor, você é a minha mão protetora porque está a cuidar de mim.
─ Não tanto, Miguilim, é um pouco mais complicado, pois estou é cuidando de mim.
─ ...
─ A presença do Pai só nos é dada quando ele quer, ou nós só percebemos assim; também é o mesmo com nossos pais humanos, não percebemos completamente tudo o que nos legam e que devemos levar adiante.
─ Ahn? que foi?
─ Dorme, Miguilim, estava só a pensar alto.

-o-
                                                                       
(A meu pai, José Denancy Moreira, que se foi sem a mão que tanto cuidado nos deu).

 


7 comentários:

  1. Gostei muito deste conto. É uma apologia onde a metáfora é tão brilhante que até parece literal.
    Sinto também um ritmo que coloca o texto entre prosa e poesia, talvez pela emoção do adulto que de repente percebe que teve um pai herói.
    Parabéns, Siovani.

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  2. Me emocionou. Um homem de valor que cuidou de tantos com a mão e mesmo sem ela, continuou o cuidado. Pena nao terem sido todos que aprenderam o valor da mão a guiar e proteger...

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    1. Ei, Silaine, há muito tempo não nos vemos, não sei responder ao que você transmitiu acima pois não conheço todos os meandros dos acontecimentos, mas há alguns pormenores que destoam do que nos foi transmitido. Beijo.

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  3. Nossa que show ... Um Texto/Crônica bem panorâmica , arejada e ao msm tempo realista .O tom coloquial ajudou-me a refazer o "meu olhar sobre vc" ,Siovane ( uma pessoa muito iluminada )!Parabéns msm...Esse seu modo de falar em estilo figurado é show (y)Emocionante <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 !!!

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  4. Muito bom...adorei o texto, me fez lembrar do passado! Gostando de todas as historias. Abraço Tio.

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